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Análise: Styx - Shards of Darkness (Multi) é um grande desafio de furtividade

O goblin Styx retorna para ensinar aos jogadores como se esconder, roubar e matar com estilo e sem ser percebido.


Quando a desenvolvedora francesa Cyanide lançou Styx: Master of Shadows (Multi) em 2014, o game passou quase despercebido. Agora, o goblin Styx retorna em uma continuação de sua aventura stealth de forma mais polida e mais desafiadora. Styx: Shards of Darkness certamente não é o melhor game para exercitar a furtividade, mas ele proporciona uma boa experiência ao jogador que está procurando um título completamente focado na arte de ser sorrateiro.

Silencioso como um rato… Ops, goblin!

Styx é um goblin de boca suja e cheio de habilidades que ganha a vida fazendo serviços que mais ninguém arriscaria fazer, como invadir uma fortaleza povoada de guardas armados até os dentes para recuperar um documento importante. Esse personagem se originou no RPG de 2012, Of Orcs and Men, um título pouco conhecido mas que foi elogiado por seu brilhante design de ambientes e personagens. Em 2014, Styx gerou um spin-off, Master of Shadows, que não foi muito bem recebido pela comunidade eletrônica por conta do seu sistema de combate falho, uma inteligência artificial confusa e ambientes repetitivos.
O mundo de Styx: Shards of Darkness é bem construído e com vários lugares para se esconder e criar estratégias.
Assim como em Master of Shadows, em Shards of Darkness, Styx vive em um mundo cheio de perigos com uma atmosfera steampunk no qual ele precisa bancar o anti-herói e cumprir diversas missões perigosas que exigem todo seu poder de furtividade para sair ileso. A história é cheia de uma mitologia a la Tolkien misturada com intrigas políticas e disputas por poder, mas mesmo assim é rasa. Apesar disso, o level design de cada nível é muito bem desenhado e oferece diferentes tipos de estratégias ao jogador com vários locais para se esconder como barris ou baús, pontos para escalar ou elementos do cenário como andaimes para usar contra seus inimigos. Ao contrário do game anterior, ser descoberto não significa fim de jogo, mas muita perspicácia é exigida do jogador para se esconder dos guardas e ficar vivo.
O design dos anões lembra muito algo saído do universo de "O Senhor dos Anéis" mas eles são inimigos irritantes que conseguem detectar Styx somente pelo cheiro.

Dessa vez, nosso goblin furtivo pode fazer muito mais do que se esconder, uma vez que ele é capaz de coletar itens no cenário para criar novas ferramentas como poções e dardos. A árvore de habilidades de Styx é enorme e oferece uma enorme variedade de melhorias para o personagem com cinco divisões específicas: Percepção, Clonagem, Alquimia, Furtividade e Morte. O jogador terá que pensar com cuidado em que gastar seus pontos para criar a melhor estratégia durante cada missão. Por exemplo, talvez seja mais interessante aumentar o alcance da visão de Amber (um tipo de Eagle Vision que destaca itens e inimigos) ou quem sabe permitir que Styx consiga fazer ataques mortais de forma mais eficiente. O bom é não manter apenas uma parte da árvore com habilidades atividades, mas diversificar. Você nunca sabe quando uma habilidade específica do seu clone que você negligenciou pode se tornar essencial para que progrida na história.
A Amber Vision revela todos os objetos de interesse do cenário: inimigos em vermelho, itens de furtividade em amarelo e objetos que podem provocar sons em azul.

Enquanto utilizar diferentes habilidades, como criar clones ou ficar invisível, proporciona uma jogabilidade extremamente variada em cada nível, usar os poderes de Styx no modo co-op não é tão divertido quanto se pode pensar. Esse modo é uma nova adição à série e nele o jogador faz uso da habilidade de Styx de criar clones seus. Existem duas opções que podem ser ativadas a qualquer momento do gameplay: você pode se tornar um host “criando um clone”, em que um amigo ou jogador aleatório se junta ao seu game, ou pode “se tornar um clone”, procurando um jogo em que você pode se juntar. Como não tinha amigos com cópias do game, optei pela opção de me tornar um host e permitir que jogadores aleatórios se juntassem ao meu game. Nesse caso, a comunicação fica impossível no PS4 pois é necessário um chat secundário, o que somente pode ser feito com jogadores que estejam na sua lista de amigos.
Se livrar de inimigos sorrateiramente ou esconder corpos é fácil no modo solo, mas nem tanto no co-op.

Sendo assim, fica difícil coordenar os dois jogadores em fortalezas recheadas de perigos e, se seu companheiro não conseguir utilizar uma habilidade corretamente e acabar alertando os guardas, você terá que pagar caro pelo erro. Sem falar que a chance de ser pego aumenta em dobro e você conta muito com o cuidado do outro jogador em não estragar a missão. Talvez a experiência se torna mais interessante quando jogando com um amigo e podendo se comunicar, uma vez que os estágios mais avançados tem inimigos com comportamentos mais imprevisíveis e a comunicação entre os jogadores seria essencial para sobreviver. Pelas inúmeras falhas que eu e o outro jogador cometemos durante as horas que jogamos juntos, pode-se concluir que Shards of Darkness é um game para se jogar no modo solo.
Controlar um clone no modo solo ajuda muito a contornar vários problemas, mas quando o clone é outro jogador, você precisa contar com o bom-senso do jogador quando não conseguir falar com ele.
Os níveis em Shards of Darkness são bem desenhados de forma a incentivar formas diferentes para o jogador resolver os problemas. Por exemplo, você pode preferir aproveitar o movimento padrão de guardas para ir pulando de esconderijo em esconderijo, ou talvez seja melhor derrubar lustres ou colocar armadilhas pelo caminho para atrair a atenção dos inimigos. O jogador precisa ficar atento à barra de Amber de Styx, pois essa substância é consumida sempre que o personagem utiliza um de seus poderes, portanto é preciso pensar com cuidado quando é o melhor momento para criar um clone ou ficar invisível.
Amber é seu material mais precioso, portanto sempre tenha um vidro dela ou materiais para fabricá-la.

Vida de ladrão não é fácil

Sempre existe mais de uma forma de Styx atingir seu objetivo e descobrir a sua própria forma de chegar sorrateiramente até sua meta, esta é a grande experiência de imersão que o game proporciona. Mesmo que não seja necessário cumprir todos os objetivos em cada missão, é bom que o jogador se esforce para realizar todos eles, pois a principal recompensa são pontos de experiência. Apesar dessa bela recompensa, não se surpreenda se você decidir apenas fazer o mínimo para terminar a missão. Os níveis mais avançados contam com tantos inimigos fortes que não podem ser derrubados como guardas armados e anões que podem te detectar só pelo seu cheiro, que você terá que ter muita paciência para fazer tudo que o jogo lhe pede.
Você não precisa cumprir todos os objetivos de cada missão, mas se o fizer a recompensa serão mais pontos para desbloquear habilidades.

Mesmo com um level design bem elaborado que incentiva o jogador a tentar tipos de abordagem diferentes, como enganar guardas com um clone ou puxar um inimigo desavisado pela beirada de um precipício, Shards of Darkness sofre de vários problemas. O primeiro que se pode notar é a quantidade de bugs presentes no game, como momentos em que elementos do cenário não carregam corretamente ou quando a inteligência artificial dos inimigos tem um comportamento inesperado. O rosto de Styx desaparece nas sombras durante a cutscene de morte, mas seus olhos permanecem. Isso pode até ser engraçado uma primeira vez, mas quando você vê isso pela enésima vez, já fica irritante. Além disso, a imersão se quebra quando você fica circundando um inimigo claramente em seu ângulo de visão mas ele não te detecta.
A IA nem sempre se comporta da forma esperada, o que pode quebrar a imersão no game.

Como eu havia dito, a trama dessa aventura de Styx é um elemento completamente secundário no game, mas a experiência fica prejudicada quando o jogo tenta forçar ela goela abaixo do jogador. É quase inevitável pular as longas cutscenes que precedem cada capítulo visto que o diálogo é desinteressante e não existe nada no enredo que consiga atrair a atenção do jogador. Em vários momentos fica a impressão que os desenvolvedores estavam tentando criar uma atmosfera Tolkien no game, com uma história cheia de detalhes e mistérios. Porém, a trama nunca consegue “engatar” de verdade e o humor barato de Styx não ajuda muito. Acredite, nas primeiras vezes até soltei um sorriso ou uma risadinha, mas quando você ouvir a mesma piada de Styx com temas da cultura pop ou o personagem tentando falar com você — quebrando a conhecida “quarta barreira” — simplesmente vai desejar que o goblin fosse mudo.
As primeiras piadas de Styx são engraçacas. Mas quando ouvidas na vigésima morte, não.

Apesar de se tratar de um game com foco em furtividade, é surpreendente que Shards of Darkness não tenha corrigido a maior falha do seu antecessor: o combate corpo-a-corpo. Enquanto em Master of Darkness essa mecânica era inexistente, ou seja, se Styx fosse pego não havia outra saída senão fugir ou morrer, na continuação há uma forma de revidar ao ser descoberto, mas ela é muito confusa. O combate é limitado e, na maioria das vezes, quando você consegue contra-atacar um adversário, é tarde demais para continuar a luta porque você já está cercado de inimigos. Em Shards of Darkness, a mesma estratégia do seu antecessor para momentos de descuido permanece: correr e se esconder até a poeira baixar é a melhor solução.
Na maioria das vezes o melhor é se esconder em algum canto ou baú do que tentar lutar.

Se você procura por um game exclusivamente focado em furtividade, Styx: Shards of Darkness é uma boa escolha. Existe um sentimento bom de satisfação em descobrir uma forma completamente inusitada de passar por um desafio que envolva muitos inimigos ao seu redor ou simplesmente conseguir atrair um bando de guardas para debaixo de um lustre e o derrubar neles. Existem bugs e o combate ainda precisa melhorar muito. Caso Styx retorne em mais uma entrada futura na série, espero que seja com menos história e mais furtividade pois, depois de tantas mortes nas situações mais bizarras, fica difícil lembrar de algum momento marcante da trama a não ser as horas em que precisei me agachar para passar devagar perto dos guardas.
Jogue Styx: Shards of Darkness pela experiência das mecânicas de furtividade, não pela história.

Prós

  • Bons desafios stealth com diferentes formas de resolução;
  • Level design dos níveis bem planejado.

Contras

  • Bugs gráficos e de inteligência artificial;
  • História fraca e genérica (qual era o nome daquele elfo que aparecia o tempo todo mesmo?);
  • Péssima mecânica de combate corpo-a-corpo.

Styx: Shards of Darkness — PC/XBO/PS4 — Nota: 7.0
Versão utilizada na análise: PS4

Revisão: Ana Krishna Peixoto
Luis Antonio Costa escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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