Final Fantasy VII: 20 anos depois do divisor de águas

Símbolo de inovação no mundo dos games, a sétima entrada na franquia da antiga Squaresoft permanece viva e mantém o posto de clássico absoluto.

Em décadas de existência do entretenimento eletrônico, muitos jogos marcaram época e até salvaram o mundo dos videogames. Um dos principais divisores de águas foi Final Fantasy VII (Multi), jogo que ajudou a transformar e a rearranjar a indústria de games e que completou 20 anos esta semana! Neste especial iremos celebrar a data relembrando a trajetória desse ícone do JRPG e vendo como é a experiência de jogá-lo duas décadas depois.

Um novo início para a franquia

No ano de 1994, a série Final Fantasy já havia se firmado como uma das mais prestigiadas do mundo dos games, e o sucesso da sexta entrada da franquia no Japão e no Ocidente inspirou a Squaresoft a criar algo ainda mais surpreendente na sequência. Foi nesse clima que teve início o processo de desenvolvimento de Final Fantasy VII, na época planejado para o Nintendo 64.
Ainda no começo do projeto, uma tech demo para o N64 trouxe personagens de Final Fantasy VI.
Se Final Fantasy VI (Multi) foi um marco para a empresa, título que reuniu uma equipe totalmente focada para explorar o máximo da capacidade do Super Nintendo, o próximo projeto tinha como objetivo superar tudo aquilo que foi feito até o momento. Essencial para isso seriam os CDs, mídia inicialmente escolhida pela Nintendo para o console de 64 bits, mas que foi trocada pelos cartuchos.

Essa decisão histórica forçou a desenvolvedora japonesa a mudar seus planos, pois as CGs revolucionárias que contariam a história de Cloud e companhia não caberiam nos cartuchos. Foi a partir desse acontecimento que teve início a longa parceria da Squaresoft com a estreante Sony e seu PlayStation. Esse relacionamento bem-sucedido ajudou a mudar para sempre a história da indústria, instituindo uma nova marca líder de mercado.

A aposta no título por ambas empresas não foi nem um pouco discreta. Final Fantasy VII teve uma divulgação nunca antes vista para um jogo de RPG, com direito a outdoor, anúncios em pontos de ônibus, propagandas em revistas e vários comerciais nos principais canais de TV. Com isso, quem nunca havia ouvido falar da franquia teve a chance de conhecê-la e os fãs ficaram ainda mais animados com o lançamento, que foi indiscutivelmente um sucesso.

De nicho aos holofotes

Clássico instantâneo, Final Fantasy VII mostrou sua grande importância logo de cara: foram 2,3 milhões de cópias vendidas nos três primeiros dias só no Japão. No ocidente, um milhão de casas já tinham o jogo até o fim de 1997. Se considerarmos as vendas da versão do PlayStation apenas até os dias de hoje, são 10 milhões de cópias – o que coloca o título como o segundo mais vendido da plataforma.

Mais do que lucro para a Square, esses números dizem muito sobre a importância do game para todo o gênero: ele abriu espaço para uma gama de outros JRPGs conquistarem o mundo. Isso aconteceu, diga-se de passagem, não só pela grande exposição na mídia, mas também por apresentar mecânicas bem mais acessíveis do que a maioria dos títulos do gênero. É muito mais fácil equipar itens e trocá-los entre os personagens do que negociar com demônios, por exemplo.


Porém, dizer que esse fator foi o principal responsável pelo seu sucesso é ainda arranhar a superfície do que o jogo realmente é e significa para a indústria. Final Fantasy VII é um verdadeiro marco tecnológico e artístico, que redefiniu o que é fazer e jogar videogame, assim como mostrou a todos exatamente do que essa mídia é capaz.

O clássico 20 anos depois

Parece até algo premeditado, mas quase que instintivamente no começo desse ano uma vontade tremenda de revisitar Final Fantasy VII instigou meu espírito gamer. Parte disso se deve ao fato de eu ter terminado o Final Fantasy XV (PS4/XBO) há pouco tempo. O outro fator foi a chegada à PSN da versão revisada lançada anteriormente para PC – que atualiza algumas partes mais ultrapassadas do jogo original (como a falta de controle analógico) e adiciona algumas melhorias bem-vindas (caso do botão de acelerar o jogo).

Iniciar o jogo e ouvir as primeiras notas de "Prelude" provocou o despertar de várias memórias e sensações. Depois de caminhar por cada parte Midgard e reencontrar cada personagem, posso dizer que, mesmo após tantos anos, a capacidade de cativar o jogador continua intacta. O jogo realiza essa façanha ao criar uma conexão conosco a partir de momentos que a maioria de nós somos capazes de reconhecer.
A descoberta de Red XIII sobre o guerreiro Seto invoca o laço entre filho e pai.
Se hoje os produtores da série buscam trazer mais realismo para a mesma, Final Fantasy VII foi o jogo que iniciou essa jornada. Foi a partir dele que a velha história de reis megalomaníacos e vilões mágicos que buscam dominar o planeta foi deixada de lado. No lugar, vimos diferentes tipos de ameaça ao mundo, seja ele o real ou o do protagonista.

De um lado, temos Sephiroth em busca de vingança por sua mãe Jenova – que a princípio ele não sabe, mas era uma entidade alienígena assassina, responsável por aniquilar uma raça. De outro, temos a ShinRa Co., uma empresa inescrupulosa que explora a energia vital do planeta para dar vida às máquinas e às cidades. E, por último, temos os humanos, que fecham os olhos para essa exploração mesmo sabendo do mal causado ao planeta, além de fingirem não conhecer a extrema pobreza daqueles que não vivem na parte alta de Midgard.

Se isso não fosse o bastante, no decorrer do jogo tomamos o controle de uma equipe formada por personagens com sentimentos muito fáceis de compreender. Desde o menino que tinha como sonho sair de sua vila e se tornar importante, à menina com um passado trágico mas que se mantém sempre otimista, ou ainda o animal que por toda sua vida acreditou ter sido abandonado por seu pai. O jogo sabe como fazer o jogador sentir as emoções dos personagens, e isso, não importa quanto tempo passe, continuará sempre lá.

Orquestrando as emoções

Se formos falar de imersão, não podemos deixar de falar do papel desempenhado pela primorosa trilha sonora do mestre Nobuo Uematsu, que até hoje mantém todo o poder da época. Caso a história por si só não seja o bastante para deixar o jogador preocupado com a situação do mundo, a música o fará sentir o peso dos problemas. Em uma época onde a dublagem em jogos não era comum, era a música a responsável por passar a dramaticidade das diferentes situações, e a série era simplesmente a melhor nesse quesito.

“Bombing Mission”, que embala o início do jogo, é um exemplo claro disso. Enquanto a câmera do jogo foca as estrelas e as partículas de mako no ar, passando por Aerith saindo de um beco escuro até finalizar em uma visão aérea de Midgard, cada nota musical tem como objetivo mostrar o quão mágico é aquele mundo. Com uma simples progressão de notas, a sensação de animação se transforma em dúvida, evolui para um estado de alerta e culmina em determinação. E depois desses quatro minutos você já está totalmente rendido a este mundo.


É verdadeiramente avassaladora a forma como a música é orquestrada e trabalhada durante todo o jogo, tomando formas diferentes ou evoluindo ao mudar pequenas notas ou mesmo quando são deixadas intactas. Um dos momentos mais marcantes da história dos jogos (alerta de spoiler de 20 anos), a morte de Aerith, só é tão impactante por causa da brilhante forma como o seu tema é executado durante a sua trajetória até o momento final.

A primeira vez em que temos um contato prolongado com a florista e com a sua canção é quando ela está cuidando das flores que crescem em uma favela, onde o solo deveria estar morto – criamos aqui uma imagem de pureza (apesar de ela ser bem desbocada e jogar flertes para Cloud). O segundo momento é quando a sua mãe adotiva conta a Cloud e Tifa sobre o seu passado, sobre ela ser a última de sua espécie e como ela continuou sendo uma menina feliz e cheia de esperança, apesar dos dias difíceis. O tema então se torna um símbolo de sua força e luz em meio a um mundo cruel e escuro.


Durante a jornada descobrimos mais sobre a personagem, enquanto a história caminha em direção a um ponto onde ela é compelida a se desligar da equipe para, sozinha, tentar parar o Meteoro que ameaça a terra. Ao rezar pela salvação do mundo, no antigo lar de sua raça, ela é cruelmente atravessada pelas costas pela lâmina de Sephiroth. Enquanto seu corpo cai, e a matéria que carregava em seu cabelo se desprende e lentamente encontra o chão, a canção ressurge, mas, dessa vez, com um novo significado: ela simboliza a morte da esperança.

O jogador sente a dor da perda a cada nota tocada durante a batalha contra a célula de Jenova que se prossegue, ao ouvir as palavras de Cloud para o vilão e ao finalmente vê-la se juntar ao Lifestream. Estes são apenas dois exemplos de dezenas de momentos que nos mostram o porquê de Final Fantasy VII ter se tornado uma lenda, permanecendo por anos como um dos mais pedidos, e agora aguardados, remakes de toda a história.

Caminho para a renovação

Como Tetsuya Nomura uma vez disse, Final Fantasy VII é uma obra verdadeiramente japonesa e não se prende em contar a história de forma tradicional, explicando todos os pontos de forma minuciosa. Em sua visão, tão importante quanto criar uma história envolvente é deixar espaço para que os próprios jogadores deem seu próprio significado. Além de dar origem a várias teorias de fãs – quem nunca leu que Cloud é quem matou Aerith afogada? –, isso deu abertura para que a própria Square estendesse a história.


Hoje, o universo expandido da série conta com muitas obras que escapam do espaço dos videogames e entram para o mundo do cinema, dos animes e até mesmo dos contos. Crisis Core: Final Fantasy VII, Before Crisis, Dirge of Cerberus, Advent Children e Hoshi wo Meguru Otome (A garota que viaja pelo planeta – história que narra a jornada de Aerith pelo Lifestream após a sua morte) são algumas das principais obras a darem continuidade ou até uma nova perspectiva dos eventos da história da obra original.

Sabe-se que o tão aguardado remake pretende ir além da história original, prometendo incorporar muitos outros elementos em uma nova série de jogos ainda sem data para serem lançados. Enquanto essa hora não chega, podemos aproveitar para revisitar Final Fantasy VII, conhecer partes ainda não vistas da história, ou ainda dar uma primeira chance para este eterno clássico.

Revisão: Érika Honda
Thiago Caires escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

Comentários

Google+
Disqus
Facebook