Análise: Star Wars: Galactic Racer acelera rumo a uma das melhores campanhas de corrida arcade

Com decisões constantes e disputas em alta velocidade, cada tentativa pode terminar em glória ou obrigar o piloto a começar novamente.

em 02/10/2026
Star Wars: Galactic Racer é um jogo de corrida arcade que encontra uma maneira própria de misturar velocidade, progressão roguelike e narrativa dentro do universo de Star Wars. Em vez de usar a história apenas como pano de fundo para justificar as corridas, o jogo transforma sua campanha em uma jornada de risco e recompensa, na qual cada decisão pode aproximar o jogador da vitória ou obrigá-lo a começar tudo novamente.

Campanha estelar

Os modos campanha em jogos de corrida variam bastante de título para título. No gênero arcade, no qual este game se encontra, geralmente existe uma justificativa para as corridas, mas elas raramente são o verdadeiro cerne da experiência, que costuma se apoiar mais na evolução e na coleção de veículos. Aqui, no entanto, vemos essa estrutura virar de ponta-cabeça.

Assumimos o papel de Shade, um piloto que nunca tira o capacete e entra na Liga Galáctica para superar seu principal rival, Kestar Bool, o “maioral” da competição. Ao seu lado estão Darius Pax, líder e criador da Liga, que também busca tirar a hegemonia de Bool, e Hibi, a carismática mecânica responsável pelo veículo e por boa parte do humor da campanha.

A premissa trabalha bem com ideias clássicas de Star Wars, como abuso de poder e esperança de mudança, mas o maior mérito está na forma como a campanha se desenvolve, resultando surpreendentemente em uma história que expande o universo de George Lucas de maneira orgânica.

Começando pelo formato da jornada, temos o principal ponto de inovação. A campanha utiliza uma estrutura roguelike: entramos na Liga Galáctica com um League Token e, caso o percamos, somos eliminados e precisamos recomeçar o torneio. Existem, porém, diferentes maneiras de perder esse token.

A primeira é destruir o veículo cinco vezes durante uma corrida. Também podemos ser eliminados nos eventos específicos ou perder o desafio final do torneio. Conforme avançamos, novas regras entram em jogo, incluindo disputas contra rivais que valem um token. A partir do segundo ato, também podemos começar o campeonato com mais de um, ganhando uma margem maior para errar.

A campanha é dividida em atos. O primeiro apresenta as mecânicas básicas, mas está longe de ser apenas um tutorial prolongado, sendo uma introdução extensa e já suficientemente desafiadora. A partir do segundo, todas as ferramentas entram de fato em jogo. Cada ato funciona como um novo torneio e serve como checkpoint, então ser eliminado no segundo não nos obriga a retornar ao primeiro.

O torneio passa por diferentes planetas, com bifurcações de eventos no estilo roguelike. A todo momento precisamos escolher entre opções de maior risco ou recompensas mais seguras, e é justamente essa estrutura que mantém a campanha interessante.

Os eventos oferecem diferentes tipos de corrida e decisões. Uma disputa normal permite terminar em qualquer posição, mas nosso desempenho determina as recompensas. Já as corridas de eliminação exigem terminar entre os três primeiros para preservar o League Token, oferecendo recompensas maiores em troca do risco. Também existem desafios de tempo e percurso, que entregam prêmios quando cumpridos.

Os mais interessantes são os “?”. Ao entrar neles, participamos de eventos especiais com outros personagens, que apresentam escolhas próprias. Um competidor pode, por exemplo, oferecer um esquema para conseguir peças raras por um preço menor, exigindo que decidamos se vale a pena investir nosso dinheiro para colher os frutos futuramente.

Entre os planetas, também passamos pelos hubs, onde podemos atualizar o veículo e conversar com os personagens, sendo aqui o momento no qual o elenco mostra sua força. Com 13 competidores e diversos secundários, o jogo apresenta uma variedade de espécies, personalidades e designs que dá uma verdadeira aula à última trilogia cinematográfica da franquia.

As boas ideias continuam com o sistema de patrocínio e rivalidade. Antes de cada torneio, a partir do segundo ato, escolhemos entre três patrocinadores e recebemos recompensas ao cumprir objetivos secundários durante as corridas. Já as rivalidades permitem apostar antes das disputas com outros corredores, criando uma sequência crescente de tensão que culmina em uma corrida decisiva valendo um token perto do fim do torneio.

Todos esses elementos se acumulam durante a primeira jornada, que termina de maneira grandiosa e, principalmente, desafiadora. Não podemos pausar e recomeçar uma corrida, muito menos subestimar uma disputa. Estratégia e concentração são fundamentais para chegar ao final, tornando esta uma das campanhas mais envolventes que já joguei em um jogo de corrida.

É justamente por isso que a primeira grande falha aparece depois dos créditos.

Em um roguelike, a continuidade da experiência é fundamental, já que a graça está também em experimentar novas formas de jogar. Ao finalizar a campanha, meu primeiro instinto foi esperar um novo torneio. Em vez disso, o jogo oferece apenas a possibilidade de rejogar o último ato ou recomeçar desde o início, mantendo as evoluções conquistadas.

O problema é que o último ato inclui segmentos de podracing que funcionam mais como sequências narrativas do que como parte da competição. Eles se repetem sem oferecer novas ramificações e, somados à duração do ato, tornam uma nova tentativa cansativa, principalmente porque ainda existe a possibilidade de perder tudo.

A outra alternativa é recomeçar o game, mas o primeiro ato é justamente o mais limitado e ainda não conta com sistemas importantes, como o de patrocínio. O ponto ideal seria avançar até o segundo ato, que equilibra melhor duração e desafio, mas, para permanecer nele, precisamos perder propositalmente o último evento e impedir o avanço para o terceiro.

Esse problema pesa ainda mais porque a primeira jornada é excelente. A campanha cria uma experiência tão envolvente que sua falta de alternativas após a conclusão acaba sendo ainda mais perceptível. Havia espaço para transformar a própria narrativa em uma justificativa para novas jornadas, especialmente porque o final deixa brechas para outros segmentos.

Nas pistas planetárias

A campanha vai conquistando o jogador aos poucos com seu conjunto de boas ideias, mas a jogabilidade nas pistas conquista imediatamente.

Pela velocidade apresentada nos trailers e vídeos, era fácil imaginar que controlar os veículos seria difícil demais. Porém, bastam alguns segundos no comando para perceber o quanto os controles são intuitivos. Pilotar essas máquinas mistura adrenalina, diversão e estratégia de maneira muito natural, criando momentos de corrida intensos e cinematográficos.

Seguindo a lógica de pequenos detalhes que se acumulam, a própria largada começa com um minigame de botões responsável por inicializar os sistemas do veículo e preparar habilidades especiais. É uma interação simples, mas que ganha importância conforme desbloqueamos novas habilidades. O veículo comporta até quatro delas, fazendo com que os minigames também aumentem gradualmente em complexidade.

A pilotagem exige reflexos por conta da velocidade constante, mas os controles são tão responsivos que seu domínio chega rapidamente nas primeiras corridas.

A velocidade é sustentada por dois tipos de turbo. O primeiro, de combustão, é ativado com o X e pode ser utilizado com frequência para recuperar velocidade após curvas perigosas. Já o Ramjet funciona como o turbo máximo, sendo carregado durante a corrida e ativado com R3 e X.

Cada disputa se transforma em uma sequência de decisões envolvendo esses recursos, o gerenciamento de cooldowns e as habilidades, que variam entre opções defensivas, como escudos, e ofensivas, como ondas de choque. Tudo isso acontece enquanto precisamos lidar com curvas, colisões e a possibilidade de destruir o veículo repetidas vezes e perder o torneio.

A destruição dos veículos é um dos principais chamarizes visuais do game, claramente inspirada em Burnout. Ela acontece constantemente ao redor do jogador e, inicialmente, impressiona. Depois de algumas partidas, porém, desativei a opção de mostrar a destruição dos adversários.

O motivo é simples: a câmera lenta que acompanha esses acidentes quebra o ritmo da corrida e pode nos colocar em perigo quando o controle retorna, principalmente durante uma curva ou em uma rota de colisão. A ideia é visualmente interessante, mas sua implementação acaba atrapalhando a própria experiência.

As nossas próprias destruições, por outro lado, continuam funcionando melhor. Não podemos simplesmente ignorá-las, e a breve sequência dá tempo para absorver a “raiva” do erro antes de recuperar o controle e tentar retomar as posições perdidas.

O sistema roguelike também influencia diretamente a pilotagem. No início de cada jornada, o veículo está sem melhorias de performance, algo perceptível principalmente nas curvas e nos drifts. Conforme adquirimos upgrades, essas características melhoram significativamente.

Caso sejamos eliminados e precisemos recomeçar, podemos gastar os pontos conquistados para evoluir o veículo antes da próxima tentativa. Os três veículos disponíveis possuem até 15 níveis de upgrade (antes de um novo início), além de podermos desbloquear novas habilidades e recursos, como os Tratos. O de Darius Pax, por exemplo, permite começar o torneio com um League Token adicional. 

Outro destaque absoluto são as pistas, que são extensas, largas e reforçam constantemente a lógica de risco e recompensa, oferecendo caminhos mais curtos por passagens estreitas e curvas mais acentuadas. São rotas que podem economizar tempo, mas aumentam consideravelmente a chance de colisão.

Cada planeta também possui características próprias que afetam a pilotagem. Em um planeta congelado, por exemplo, o veículo pode sofrer um efeito de gelo que reduz sua temperatura mais rapidamente, nos deixando vulneráveis a colisões; no entanto, permite utilizar o Ramjet por mais tempo. Essas particularidades fazem com que cada ambiente tenha pequenas mudanças na forma de correr.

Talvez o maior mérito esteja na maneira como as pistas lidam com tamanha velocidade. O desenho dos circuitos conduz naturalmente o olhar para os caminhos disponíveis, sem depender de elementos invasivos como setas gigantes. É um design aberto, elegante e bonito.

Existe, porém, uma oportunidade perdida. Apesar da qualidade dos circuitos, eles são relativamente serenos. Falta uma sensação maior de que os planetas estão acontecendo ao nosso redor, com eventos dinâmicos no cenário ou no céu que acompanhem a velocidade da corrida. São pistas excelentes como circuitos, mas poderiam ser mundos mais vivos.

Por fim, os três veículos disponíveis realmente apresentam diferenças entre si. Depois de terminar a campanha com meu Landspeeder inicial, testei a Speeder Bike na jornada seguinte e percebi como seu controle exige outra abordagem. Acabei perdendo na última prova, mas a experiência serviu para mostrar que cada veículo possui características, vantagens e desvantagens próprias, sem que nenhum pareça simplesmente uma versão superior dos demais. 

Parte da graça de um roguelike é a formação de builds escolhidas em cada rodada. Aqui, elas alteram dinamicamente o veículo, oferecendo peças que aumentam o uso do Ramjet ou diminuem efeitos adversos. Conforme avançamos, no entanto, a quantidade de upgrades disponíveis vai aumentando exponencialmente, mas muitas opções acabam tendo pouco impacto. Por exemplo, só consegui montar uma build excelente e com múltiplas sinergias em uma das jornadas, mas este ponto está mais atrelado ao RNG intrínseco imposto pelo sistema. 

Técnico, extras e multiplayer

Jogando no PlayStation 5 base, não encontrei problemas de desempenho ou quedas de frames, algo especialmente importante em corridas de alta velocidade, nas quais qualquer instabilidade poderia comprometer a pilotagem.

No aspecto artístico, o maior destaque está no elenco de personagens e na sua variedade de espécies alienígenas. O trabalho de dublagem, as personalidades e o design visual demonstram bastante cuidado e carinho. O mesmo vale para os planetas, pistas grandiosas e cenas, que mantêm um padrão consistente durante toda a experiência, porém pouco interessado em criar grandes rupturas visuais.

Outro detalhe interessante é a construção modular dos veículos. Podemos combinar diferentes peças e estilos para criar máquinas visualmente distintas, o que complementa bem a progressão e a personalização oferecidas pela campanha.

Nos modos extras, temos os Cenários, que são sequências curtas de corridas utilizando outros competidores, e o modo Arcade, que conta com 50 provas de medalhas. Algumas exigem bastante domínio para alcançar o Ouro, seja em disputas contra o tempo ou em outros formatos. É um conteúdo interessante e desafiador para quem quer continuar jogando depois da campanha ou simplesmente testar seus limites.

E, claro, temos o multiplayer. Durante o período de análise, pude testar poucas partidas, mas o pacote se mostrou bastante robusto. O grande destaque é o modo Torneio, no qual até 12 jogadores disputam uma série de corridas e alternam suas posições em um ranking geral.

Assim como na campanha, podemos apostar antes das corridas, mas aqui fazemos isso com base em nosso próprio desempenho. Podemos prever em que posição vamos terminar e, na última rodada, escolher quem acreditamos que vencerá o torneio. Dependendo da nossa colocação, pode ser necessário deixar o ego de lado e apostar em outro piloto com chances de vitória para conseguir mais XP.

Curiosamente, esse sistema de ranking não existe da mesma maneira na campanha. Também competimos contra outros 12 pilotos, mas as posições não se acumulam em uma classificação geral, tendo maior importância apenas no último planeta de cada ato. É uma escolha que torna o multiplayer ainda mais interessante, embora eu tenha sentido falta de uma página de estatísticas mais detalhada para acompanhar nossa evolução e comparar o desempenho com outros jogadores.

Caso o lobby não esteja cheio, os espaços são preenchidos por bots que cumprem bem a função de manter a pista ocupada e oferecer um desafio casual, enquanto os jogadores humanos continuam sendo o principal foco das disputas.

No conjunto, os extras ajudam a transformar Galactic Racer em um pacote mais completo. A campanha concentra sua força na estrutura roguelike e na narrativa, enquanto o Arcade e, principalmente, o multiplayer oferecem motivos diferentes para continuar voltando às pistas.

O resultado do torneio

Star Wars: Galactic Racer é uma surpresa dentro do gênero de corrida arcade, principalmente pela maneira como transforma sua campanha em uma jornada de risco, recompensa e progressão que funciona tão bem quanto sua própria pilotagem. A combinação entre personagens carismáticos, eventos variados, veículos distintos e pistas extremamente velozes cria uma experiência que entende o que torna uma corrida divertida sem abrir mão de experimentar novas ideias. Sua principal fraqueza está justamente depois da primeira jornada, quando a estrutura roguelike não oferece alternativas de rejogabilidade à altura da experiência inicial, que é uma das melhores dentro do mosaico dos jogos da franquia.

Prós

  • Campanha roguelike criativa e bem estruturada, com boa variedade de eventos e escolhas;
  • Pilotagem rápida, responsiva e intuitiva;
  • Personagens carismáticos e campanha bem escrita;
  • Pistas bem construídas e com boas opções de risco e recompensa;
  • Multiplayer robusto para até 12 jogadores, com o modo Torneio oferecendo diversão e competitividade.

Contras

  • Rejogabilidade da campanha abaixo do potencial da estrutura roguelike;
  • Pistas poderiam ter mais eventos dinâmicos nos cenários;
  • Apresentação visual consistente e bonita, mas pouco memorável;
  • Falta de estatísticas multiplayer mais detalhadas.
Star Wars: Galactic Racer — PS5/XSX/PC — Nota: 8.5
Versão utilizada para análise: PlayStation 5
Revisão: Heloísa D’Assumpção Ballaminut
Análise feita com cópia digital cedida pela Secret Mode
OpenCritic
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Matheus Oliveira
Entusiasta de games e cinema, sempre explorando novos gêneros e estilos enquanto acumula um backlog infinito. X e Instagram
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