Nenhum elemento é tão fundamental à identidade de Hellraiser quanto os cenobitas. Não apenas figuras de horror, eles são a representação de uma mitologia que mistura dor, prazer e devoção, sendo personagens que vão além de sua aparência perturbadora. Vamos explorar como Clive Barker’s Hellraiser: Revival aproveita os quatro cenobitas mais icônicos da franquia, preservando suas características e encontrando maneiras de destacá-los tanto na narrativa quanto na jogabilidade.
Recomendo ler este texto após concluir o jogo, além de conferir nossa prévia, na qual exploramos a franquia, e nossa análise completa.
Demônios para uns, anjos para outros, os cenobitas são conhecidos como a Ordem de Gash, fazendo parte de um culto ligado a uma religião que venera Leviathan, o deus das sensações. Não caçam pessoas indiscriminadamente nem escolhem vítimas ao acaso para arrastá-las ao Labirinto, sua dimensão. Eles respondem àqueles que os invocam, oferecendo experiências que dissolvem as fronteiras entre prazer e sofrimento.
Se a franquia permanece relevante até hoje, muito disso se deve ao status icônico de Pinhead. Sua presença, marcada pela interpretação de Doug Bradley nos primeiros filmes, ajudou a estabelecer a identidade de Hellraiser como um todo.
O jogo segue a tradição da saga em não transformar os cenobitas na força maior de todos os acontecimentos. Eles surgem como consequência das escolhas dos protagonistas, e não como vilões convencionais que perseguem suas vítimas por iniciativa própria. No formato de videogame, sua presença funciona como um elemento narrativo marcante, capaz de alterar o rumo da jornada mesmo quando não estão diretamente envolvidos na ação.
Após a abertura da caixa Configuração Gênesis e o consequente rapto de sua namorada, Sunny, Aiden recebe uma proposta de Pinhead: recuperar a jovem do Labirinto e, posteriormente, restaurar sua forma humana completa, em troca de seu “próprio corpo”. A oferta coloca o protagonista em uma posição delicada, obrigado a avançar por um caminho cada vez mais perturbador enquanto tenta alcançar seu objetivo.
A premissa combina elementos dos dois primeiros filmes. Sunny remete a Frank, do longa original, cuja recuperação física depende de ações de outra pessoa. Já a exploração do Labirinto retoma conceitos aprofundados em Hellbound: Hellraiser II. O resultado é uma trama que dialoga diretamente com a mitologia da franquia sem depender apenas da nostalgia.
Pinhead permanece como o arquiteto observador dessa história, uma figura que conduz os acontecimentos sem precisar participar ativamente de cada conflito. Felizmente, o jogo resiste à tentação de transformá-lo em um chefe convencional ou em um simples mecanismo para movimentar a história. Sua força está na posição de ser alguém que oferece caminhos e observa as consequências, sem jamais deixar de parecer que não está no controle.
Deep Throat e sua voz guia
Para quem gosta dos cenobitas secundários, Revival também é um prato cheio. Deep Throat, a presença feminina clássica do grupo, assume um dos papéis mais ativos entre os sadistas e acaba se tornando uma figura importante para o desenvolvimento da jornada.
É ela quem enxerga em Aiden alguém com potencial para se juntar ao seu culto. Durante o jogo, explica as possibilidades da Configuração Gênesis e a manipulação de seus elementos, auxiliando o protagonista em sua progressão.
Sua voz rouca torna cada aparição ameaçadora, mas é a própria aparência que reforça o desconforto, com sua garganta aberta, marca física que define sua identidade visual. Entre os cenobitas clássicos, foi a que mais recebeu desenvolvimento extra, pois, além de preservar os traços que a tornam memorável, o jogo lhe concede uma função narrativa que vai além de sua presença estética — ainda mais no desfecho da história, no qual é ela quem oferece a Aiden as possibilidades dos dois finais, que se torna uma escolha do jogador.
Chatterer e suas brincadeiras
Chatterer é o agente do caos do título. Dentro da mitologia da franquia, ele é conhecido por ter se tornado cenobita ainda muito jovem, aos 14 anos. Essa juventude se reflete em sua representação no jogo, cujas perseguições ganham um caráter quase brincalhão, embora profundamente sádico.
É também o cenobita responsável por boa parte da frustração durante a exploração do Labirinto. Suas sequências de perseguição exigem que o jogador encontre rotas de fuga sob pressão, já que ser alcançado significa a morte. A situação se torna ainda mais punitiva na dificuldade mais alta, que desativa o salvamento automático.
Apesar disso, as perseguições dão ritmo às seções ambientadas na dimensão de Leviathan. Os cenários são visualmente elaborados e mudam durante as fugas, obrigando o jogador a se orientar rapidamente e escolher o caminho certo. Mais adiante, incorporam até mesmo resolução de puzzles de telecinese enquanto Chatterer continuar te perseguindo, combinando resolução de problemas e tensão.
Depois da frustração inicial, o que mais marca o personagem é sua presença sonora. Chatterer não fala e se limita a estalar os dentes enquanto persegue Aiden. O ruído contribui para torná-lo perturbador sem depender de diálogos ou explicações. É uma característica simples, mas eficiente, que preserva a identidade do cenobita e faz de cada perseguição um encontro difícil de se manter calmo.
Butterball e sua presença grotesca
Para os fãs de Butterball, sua participação em Revival é curiosa. Nos filmes, o cenobita originalmente teria falas, mas a maquiagem pesada utilizada na produção dos anos 1980 dificultava a articulação do ator. Seus diálogos acabaram sendo repassados a Deep Throat, o que contribuiu para consolidar o silêncio como parte de sua identidade. O jogo preserva essa característica, sem tentar reinventá-lo.
Butterball é o cenobita clássico com menos tempo de tela na aventura, aparecendo essencialmente em duas cenas. São momentos que eu sequer consigo começar a descrever aqui, tamanha a força de suas imagens e o impacto que provocam.
Sua participação tão limitada pode desapontar os fãs do personagem, mas, quando aparece, Butterball deixa uma marca difícil de ignorar. Seu visual grotesco e sua presença perturbadora reforçam o horror singular da franquia, provando que nem sempre é necessário muito tempo em cena para causar impacto.
A estreia nos videogames
Como já destaquei na análise de Clive Barker’s Hellraiser: Revival, o jogo é um prato cheio para os fãs dessas criaturas bizarras. Mesmo com participações e funções distintas, os quatro cenobitas clássicos encontram espaço para brilhar à sua maneira: Pinhead impõe respeito, Deep Throat ganha relevância narrativa, Chatterer transforma a exploração do Labirinto em sequências de perseguições tensas e Butterball deixa sua marca em aparições breves, mas impactantes.
Levar essas figuras para outras mídias nunca foi uma tarefa simples. Seus designs elaborados e suas características físicas extremas dificultam a reprodução convincente em produções live-action e especialmente em fantasias para o Halloween. Nos videogames, porém, a combinação de modelos detalhados, animações e direção artística oferece novas possibilidades para preservar suas formas e explorar sua iconografia. Em Revival, o cuidado visual da equipe de desenvolvimento ajuda a demonstrar a força desses designs, que continuam tão perturbadores quanto fascinantes.
Revisão: Ives Boitano
Material produzido com cópia digital cedida pela Saber Interactive


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