Análise: Cat Isle entrega um belo visual, mas tropeça no ritmo do gameplay

Com linda pixel art e decorações variadas, o jogo diverte e encanta, mas tropeça em mecânicas ansiosas que quebram o clima cozy.

em 01/10/2026
Durante o século XVII, no Japão, uma ilha chamada Tashirojima produzia seda e dependia do cultivo de bichos-da-seda, que eram frequentemente caçados por ratos. A solução? Trazer gatos para a ilha. Com a eliminação dos roedores, a população felina na ilha foi crescendo e crescendo, até chegar aos mais de 800 gatos hoje. 

Os moradores da ilha, que somam entre 60 e 100 pessoas, acabaram cuidando dos gatos, que vivem livremente. Hoje, a ilha de Tashirojima é uma espécie de santuário dos gatos e virou ponto turístico no Japão. Essa é a história que serve de base para Cat Isle, um cozy game de gerenciamento em pixel art e primeiro jogo da desenvolvedora lituana Tiny Tail.

A Ilha dos Gatos, entre o real e a ficção

Diferentemente da história real, em Cat Isle não há moradores humanos. Mas há alguém responsável por cuidar dos gatos, e esse alguém somos nós: além dos gatos que habitam o lugar, todo dia vem um trem lotado de bichanos para a nossa ilha e devemos oferecer serviços para os nossos turistas e moradores.

A pixel art, além de ser muito bem detalhada, interage muito com o ciclo do dia, sendo um show à parte. As cores escolhidas transmitem uma sensação de paz, principalmente ao raiar do sol, pela manhã. A direção de arte mandou muito bem. 

Loop de gameplay e gerenciamento

A filosofia de jogo em Cat Isle se baseia em um ciclo diário. Tocamos um sino para iniciar o dia e, depois disso, os gatinhos chegam à nossa ilha e vão atrás do que há pra fazer nela. No tutorial, temos o carrinho de sorvetes, que nos ajuda a entender como funciona o gerenciamento das lojas do game.

Basicamente, colocamos quantidades de itens à venda e, depois que os gatos vão embora, podemos acessar relatórios sobre o consumo deles. Se colocarmos muitos itens para vender, eles podem não gostar e devolvê-los, o que gera prejuízo. Assim, precisamos ficar atentos aos gostos deles para maximizar as vendas e evitar desperdício.

Paralelamente a isso, podemos decorar as construções da ilha, pois, dessa forma, a felicidade dos gatos aumenta e recebemos mais por cada venda feita. Para conseguirmos mais decorações para a ilha, gastamos o ouro que ganhamos na máquina Gashapon, um gacha com diversos itens.

Além dessas atividades, também podemos fazer carinho nos gatos e ajudá-los a pegar peixes para ganhar uns trocados a mais. Infelizmente, essa foi uma mecânica que acabei não gostando, pois nos motiva a ficar fazendo carinho sem parar e clicando nos peixes para ajudá-los a pescar, já que o objetivo sempre vai ser ganhar mais dinheiro para evoluir a ilha. Acho que tira um pouco o “cozy” do game.

Progressão e objetivos

Apesar de ter um modo sandbox e um criativo, dos quais falaremos mais daqui a pouco, Cat Isle aposta em um sistema de fases, nas quais são apresentadas mecânicas, decorações e lojas novas a cada nível. Acredito que esse sistema é bem-vindo para apresentar ao jogador o game como um todo, mas como cada nível nos orienta a cumprir certos objetivos, no final, terminar o nível acaba sendo mais importante do que decorar e expandir a ilha. 

Não me entendam mal: todos os jogos de gerenciamento têm objetivos que orientam o jogador, mas no caso de Cat Isle, temos fases e iniciamos uma nova ilha do zero quatro vezes. Assim, enquanto em outros jogos os objetivos vão nos ajudando a evoluir o que gerenciamos, em Cat Isle cumprir os objetivos vai nos dar uma nova ilha vazia, mas com novas lojas para cuidar.

Cada nível (ou ilha) leva cerca de 30 a 50 minutos para ser concluído. Dessa forma, dá até para dizer que os 4 níveis são como um longo tutorial que, no meu caso, durou cerca de 5 horas, pois é no modo sandbox que podemos construir de forma infinita e sem objetivos que nos imponham o que fazer. Mesmo que esse seja o caso, a visão horizontal do jogo pode acabar atrapalhando o gerenciamento de uma ilha muito grande, e fica evidente que o jogo não foi pensado para isso. 

Cozy ou anxiety game?

Cat Isle se apresenta como um cozy game, gênero de jogos focado em ser mais relaxante e tranquilo. Em parte, ele é bem isso: temos uma trilha sonora excelente, um lo-fi bem tranquilo, o visual em pixel art com cores muito bonitas e, claro, os gatos fofinhos. Entretanto, o gacha do Gashapon, os objetivos sempre à espreita e as mecânicas de ajudar os bichanos a pescar e fazer carinho neles para ganhar dinheiro antes que o dia termine acabam exigindo movimentos repetitivos e um cérebro em alerta. 

Some isso à possibilidade de acelerar o tempo no jogo para fazer as coisas mais rápido, e até rolar o feed das redes sociais pode acabar parecendo mais cozy. Tudo bem, eu entendo que quem dá ritmo ao jogo é a pessoa que está jogando, mas o que quero trazer é que Cat Isle possibilita que você jogue como alguém ansioso, e isso não é nada cozy.

Por mais que tenhamos o modo criativo e o modo sandbox, como aprendemos a jogar o game por meio dos níveis, a primeira impressão é a que fica. Acredito que se o modo principal do game fosse o sandbox e aos poucos fôssemos  expandindo nossa ilha e conhecendo novas construções sem qualquer pressão, o jogo seria bem mais relaxante.

No fim, podemos decorar as construções com os itens que ganhamos no gacha e, com isso, ganhamos rios de dinheiro com a felicidade dos gatos. Mas, como disse Adriano Imperador, “E daí? Cadê minha felicidade?”

Dessa forma, fica o meu conselho: se você quer aproveitar mais o game, não se prenda aos objetivos e vá decorando a sua ilha do jeito que quer e só passe para a próxima quando ficar entediado. Felizmente, o jogo dá a possibilidade de escolhermos entre ir para o próximo nível ou continuar jogando no mesmo.

Vale a pena?

Sendo bem direto: sim. Cat Isle só peca em algumas mecânicas, mas ele foi feito com muito capricho e, apesar do tempo de jogo prometido ser de 2 a 4 horas, há bastante conteúdo que pode ser explorado, como as mais de 100 decorações disponíveis.

Prós

  • Direção de arte e pixel art encantadoras;
  • Design de som relaxante e imersivo;
  • Boas opções de personalização;
  • Os modos Sandbox e Criativo disponíveis dão liberdade;
  • Carregamento rápido e prático;
  • Boa localização em português brasileiro.

Contras

  • Mecânicas que conflitam com a proposta cozy, como ganhar ouro ao clicar sem parar para acariciar os gatos;
  • Estrutura de níveis repetitiva;
  • Objetivos que engessam a criatividade no modo principal;
  • A visão de câmera horizontal limita o gerenciamento de ilhas grandes.
Cat Isle — PC — Nota: 7.0
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Camila Sales
Análise produzida com cópia digital cedida pela Tiny Tail
OpenCritic
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Johnnie Brian
Jornalista pela UFC, praticamente um nômade quando o assunto é plataforma de jogos. Gosta de um RPG de ação, mas não abre mão de um RPG de turnos. Pode ficar horas num game de campanha, mas também adora jogar Dota 2 e Overwatch. Tem uma coleção de portáteis da Nintendo e um Charizard tatuado no braço.
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