Impressões: Echoes of Mystralia nos desafia a modificar feitiços em um roguelike promissor

A flexibilidade para criar magias impressiona neste indie, embora o restante da experiência ainda precise evoluir para acompanhar sua melhor ideia.

em 17/08/2026

Echoes of Mystralia é um roguelike de ação que chega em acesso antecipado com uma proposta única: transformar a modificação de feitiços em sua principal mecânica. A liberdade para combinar efeitos e criar magias impressiona, enquanto o restante da aventura segue uma estrutura tradicional, baseada em confrontos e progressão permanente. A base é sólida e deixa evidente seu potencial, mas ainda falta desenvolver melhor suas ideias para se destacar em um gênero tão disputado. Afinal, essa criatividade é suficiente para manter a experiência interessante por muitas horas?

Memórias moldadas pela magia

Em Echoes of Mystralia, acompanhamos Mazarim, um dos guardiões responsáveis por preservar o chamado Ciclo das Memórias. Quando uma enorme fenda rompe esse equilíbrio, lembranças traumáticas voltam a ganhar forma e passam a aprisionar pessoas e regiões inteiras em acontecimentos do passado. Apesar de ser somente um aprendiz, Mazarim recebe a tarefa de restaurar essas memórias, enfrentar criaturas corrompidas e impedir que o mundo sucumba ao esquecimento.


Para isso, o jovem precisa explorar o reino de Mystralia, utilizando seu treinamento de feiticeiro como arma. Na prática, a jornada é um roguelike de ação focado em combate: para avançar para a próxima área, é necessário derrotar todos os inimigos. Pelo caminho, o rapaz adquire Memórias, que tomam a forma de encantamentos elementais capazes de moldar suas habilidades.

O grande diferencial está no sistema de feitiços. O protagonista começa com duas magias básicas que podem ser transformadas de inúmeras maneiras ao longo da partida ao encaixar Memórias em uma árvore de nós. Podemos alterar sua forma, comportamento, trajetória e propriedades, além de adicionar efeitos como atravessar inimigos, ricochetear entre alvos ou deixar rastros elementais pelo cenário. A liberdade é enorme e logo percebemos que pequenas mudanças podem gerar resultados completamente diferentes, criativos e eficientes.


A estrutura restante segue o modelo conhecido do gênero. Cada região é formada por uma sequência de salas conectadas por bifurcações que oferecem diferentes recompensas, eventos e desafios. Ao fim de cada tentativa, retornamos ao templo para investir os recursos obtidos em melhorias permanentes, como aumento da vida máxima, maior chance de evitar ataques e novos espaços para personalizar feitiços. Também desbloqueamos novas formas para as magias básicas e conteúdos que expandem o universo, incluindo elementos inéditos para a criação de feitiços, novos tipos de salas e eventos que passam a aparecer nas próximas partidas.



Usando a experimentação para criar magias impressionantes

A ação de Echoes of Mystralia é bastante competente. Os confrontos são rápidos, exigem movimentação constante e fazem bom uso das esquivas, enquanto os ataques possuem uma sensação agradável de impacto. Nada aqui reinventa a fórmula dos roguelikes modernos, mas a base é sólida o suficiente para tornar as batalhas divertidas durante boa parte da aventura.

A criatividade do sistema de personalização de feitiços é o grande destaque. Em uma partida, consegui criar bolas de fogo que explodiam e criavam estacas de gelo teleguiadas. Em outra, transformei o disco de vento inicial em um projétil circular que deixava um rastro flamejante capaz de eliminar grupos inteiros de inimigos. Já em uma terceira tentativa, canalizava uma enorme estaca de gelo que atravessava vários alvos e, ao atingir o destino, disparava um relâmpago que ricocheteava para adversários próximos.


O mais interessante é que essas combinações podem ser modificadas praticamente a qualquer momento, bastando acessar o menu de criação para reorganizar os componentes e testar novas possibilidades imediatamente. Essa liberdade incentiva a experimentação constante, seja para buscar a build mais eficiente ou simplesmente para descobrir interações curiosas entre diferentes efeitos. Com um pouco de criatividade, podemos construir feitiços extremamente poderosos ou apenas nos divertir vendo combinações improváveis funcionando melhor do que o esperado.

Já a ambientação tem um universo baseado em memórias que possui uma mitologia interessante, enquanto os diálogos dublados ajudam a tornar a jornada mais envolvente, ainda que poucos personagens demonstrem muito carisma além do próprio protagonista. Tematicamente, o jogo segue caminhos bastante tradicionais, com florestas, montanhas, vilas e criaturas conhecidas, como lobos e cavaleiros corrompidos. Não há grande ousadia, mas a direção de arte é agradável e cumpre bem seu papel.



Muito potencial, pouca variedade

Apesar das boas ideias, Echoes of Mystralia ainda transmite a sensação de ser um projeto em estágio inicial. A estrutura funciona, a progressão prende a atenção e o sistema de magia é excelente, mas boa parte do restante da experiência ainda precisa amadurecer. 

O primeiro problema aparece justamente na variedade de situações, que é menor do que eu esperava para um roguelike. Os inimigos se repetem com frequência pelas três regiões disponíveis e, quando mudam, normalmente apresentam apenas pequenas variações de comportamento. Além disso, a maioria possui padrões simples e previsíveis, o que reduz bastante o impacto das inúmeras possibilidades oferecidas pela customização de feitiços. Na prática, passei boa parte da campanha investindo apenas em combinações de alto dano e isso foi suficiente para superar a maior parte dos encontros sem grandes dificuldades estratégicas.


As próprias regiões também poderiam explorar melhor suas identidades: embora existam diferenças visuais, mecanicamente elas se parecem muito. Não só isso, as partidas acabam resumidas a uma sequência quase ininterrupta de arenas de combate, com poucas surpresas, eventos ou objetivos alternativos capazes de quebrar o ritmo. Some isso a um balanceamento irregular — alguns inimigos possuem vida demais e tornam os confrontos cansativos, enquanto outros são capazes de eliminar metade da barra de vida com um único golpe — e o resultado é uma progressão que perde parte do fôlego antes do esperado.

Como lançamento em acesso antecipado, Echoes of Mystralia demonstra uma proposta madura e muito promissora, mas ainda precisa ampliar significativamente seu conteúdo para transformar essa boa ideia em algo realmente memorável. É possível que muito seja alterado durante o período de desenvolvimento, e torço para que essas questões sejam abordadas.



Um futuro promissor para Mystralia

Echoes of Mystralia estreia em acesso antecipado com um dos sistemas de criação de feitiços mais interessantes que já vi em um roguelike recente. A liberdade para experimentar combinações torna cada descoberta divertida e sustenta boa parte da experiência, enquanto o combate ágil e a ambientação de fantasia ajudam a manter a aventura envolvente. 

Ao mesmo tempo, a repetição de inimigos, regiões muito parecidas e a pouca variedade de situações impedem que o jogo alcance todo o potencial de sua principal ideia. Ainda assim, saí desta primeira versão bastante otimista: a fundação já está construída, e basta que a desenvolvedora consiga expandir o conteúdo com a mesma criatividade aplicada ao sistema de magia para que Echoes of Mystralia tenha condições de se destacar entre os grandes nomes do gênero.

Revisão: Beatriz Castro
Texto de impressões produzido com cópia digital cedida pela Borealys Games
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Farley Santos
é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de roguelikes, game music, fotografia e livros. Pode ser encontrado no seu blog pessoal e nas redes sociais por meio do nick FaruSantos.
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