Análise: Resonance: A Plague Tale Legacy mescla mitologias em uma aventura que impressiona em diversos aspectos

Desvende os mistérios de uma ilha amaldiçoada nesta prequel da franquia A Plague Tale.

em 26/08/2026

Em 2019, o estúdio francês Asobo Studio estreou no mundo dos games com o chocante A Plague Tale: Innocence. Nele, os jogadores conheceram a sombria história dos irmãos Amicia e Hugo de Rune, em que o jovem Hugo se mostra portador de um mal misterioso. Nesta aventura, acompanhamos os irmãos em uma jornada angustiante e sangrenta pela França medieval, assolada por uma praga de ratos e pela implacável Inquisição.

O horror cresce em 2022, com A Plague Tale: Requiem. Os poderes de Hugo despertam novamente, e os aterrorizantes enxames de ratos devoradores retornam, forçando os irmãos a fugir mais uma vez para o sul da França, até a região da Provença. Uma sequência de tirar o fôlego, que mostrou aos jogadores o alto preço a se pagar para salvar aqueles que amamos em uma luta desesperada pela sobrevivência.


Em 2026, a franquia traz seu terceiro capítulo, mas desta vez nos leva para o passado. Resonance: A Plague Tale Legacy atua como uma espécie de prequela, mostrando que o mal que amaldiçoou a família de Rune já estava solto e que, de alguma forma, também esteve ligado a alguém próximo de Amicia e Hugo.

A ilha do Minotauro

Resonance se passa quinze anos antes dos eventos vividos pelos irmãos de Rune, ao lado de alguém que conhecemos durante o segundo episódio da franquia. A aventura é protagonizada por Sophia, a Escorpiã do Mar, muitos anos antes de conhecer Amicia e Hugo.


Neste episódio, vemos sua infância, quando viveu anos em um orfanato. Foi ali que a jovem começou a ser usada em estranhos experimentos envolvendo um sangue negro injetado em suas veias, o que a tornou capaz de ter visões de uma ilha. Resgatada pelo pai, líder de um grupo de saqueadores no litoral da Itália, Sophia se viu livre das constantes torturas físicas do orfanato, porém ficou eternamente amaldiçoada com as visões herdadas daquela experiência traumática.

Sophia cresceu tendo visões de uma ilha com um estranho labirinto, a intimidadora figura de um minotauro e sua ligação com o antigo herói Teseu. Desde pequena, a jovem desenhava essas visões em um caderno, e acreditava-se que a ilha guardava um valioso tesouro ligado à antiga civilização minoica. Por isso, durante anos, o grupo de saqueadores liderado por seu pai realizou diversas expedições até a ilha em busca do tal tesouro.


Acredita-se que o lugar seja amaldiçoado, mas pouco se confirmou, já que poucas pessoas conseguiram explorá-lo fundo e retornar com vida. Já adulta, aos 22 anos, Sophia é forçada a ir até ao local depois que um dos membros do grupo de saqueadores os trai, entregando-os à Inquisição, que dizima o bando. Restando como única alternativa para escapar, a jovem segue rumo à ilha para descobrir a ligação do local com suas visões e entender qual sua ligação com o lugar.

Mistério, ação e astúcia

Resonance: A Plague Tale Legacy nos coloca no papel de Sophia na exploração da misteriosa ilha. Uma esfera que funciona como chave é o principal instrumento usado por ela em sua jornada. Por meio dela, a personagem consegue acessar as câmaras mais profundas e desvendar engenhosos quebra-cabeças com a manipulação da luz.

A trajetória de Sophia nos leva a momentos intrigantes sobre a ligação de suas visões com figuras que, para nós, são apenas personagens mitológicos. A forma como o Asobo Studio escreveu o roteiro, mesclando as mitologias da franquia com o mito de Teseu e do Minotauro, ressoa de maneira impressionante em determinado momento, fazendo as duas linhas históricas se encontrarem perfeitamente.


Claro, para quem já jogou os títulos anteriores da série — Innocence e Requiem —, a dúvida sobre como esta história se conecta às outras só é respondida no final. Mas até lá, a jornada reserva uma experiência para um jogador única e envolvente, que cresce a cada passo dado rumo à conclusão.

Em termos de gameplay, Resonance aprimora um pouco mais o combate visto em Requiem. O fato de Sophia ter sido treinada nas artes do combate com lâminas desde pequena serve como pano de fundo para uma jogabilidade mais livre nos combates.


Se em Requiem era mais interessante adotar uma abordagem voltada à furtividade, em Resonance a proposta é o oposto: algo mais ostensivo e direto. Sophia é capaz de desferir golpes rápidos e letais com sua espada e sua adaga, podendo finalizar inimigos, algumas vezes, com um único golpe. No entanto, dominar essa arte, embora relativamente simples, exige prática e estratégia para desferir os golpes certos no momento adequado.

Além das barras de vida, os inimigos possuem barras de atordoamento que, ao se esgotarem, permitem um ataque crítico e um abate mais rápido. Conforme encontra pontos de ressonância, que fazem o papel de pontos de habilidade, Sophia pode desbloquear novas técnicas para deixar seu combate ainda mais feroz, como ataques que causam mais atordoamento, golpes em área e a capacidade de defletir ataques antes impossíveis. Diferente de Requiem, aqui temos mais liberdade para escolher as técnicas de combate de Sophia, redistribuindo os pontos quando achar necessário. Ainda assim, de modo geral, o combate não é o maior destaque de Resonance, mas cumpre bem seu papel nos momentos em que é a atividade principal.


Os quebra-cabeças ambientais, estes sim, roubam a cena em muitos momentos. A ilha conta com diversos dispositivos e mecanismos que precisam de interação com a luz para serem ativados. A esfera-chave de Sophia é o principal instrumento usado para isso. Conforme avança na história, o objeto recebe aprimoramentos que mudam a forma como Sophia interage com o ambiente por meio da luz.

Seja para revelar pistas, acionar mecanismos ou até auxiliar em combate contra entidades sobrenaturais que começam a aparecer na segunda metade da história, a esfera é, literalmente, a chave para muita coisa na aventura.

Outros enigmas são solucionados com a ajuda do caderno de Sophia, que reúne desenhos feitos por ela na infância e anotações de expedições passadas. Essas anotações trazem pistas sobre o que fazer e qual rumo seguir, além de registros momentâneos — como descobertas recentes — que se mostram úteis no momento certo.

Uma franquia que sempre busca a perfeição

Resonance pode ser classificado como um genuíno jogo para um público dos moldes atuais. Tal qual demais títulos da franquia, o nível de qualidade apresentado aqui é muito alto. Por ter jogado os anteriores, é possível dizer também que a equipe do Asobo Studio alcançou um novo ápice de qualidade visual na apresentação da produção.

Os cenários são visualmente deslumbrantes, assim como os modelos dos personagens — em especial os do elenco principal —, com uma qualidade que aumenta ainda mais a imersão no mundo da obra. Destaque também para a iluminação que, além de cumprir sua função básica, tem papel importante na narrativa e na jogabilidade.


A trilha sonora é outro ponto alto, que ajuda a dar uma identidade ainda maior ao título. São composições que remetem à época retratada no game e à mitologia grega, principal pano de fundo da narrativa.

Alguns clichês do gênero, entretanto, não ficaram de fora. Os tradicionais troféus e conquistas ligados a colecionáveis e desafios de combate mantêm a fórmula clássica dos jogos do gênero, assim como as marcações de tinta nas superfícies que indicam o caminho a seguir. Discretas, admito, mas ainda existem e quebram um pouco a imersão. Neste caso, em particular, é estranho ver cenários tão detalhados e um “rastro” propositalmente colocado para indicar uma rota.

Tecnicamente, Resonance é uma das melhores produções da geração, repetindo o mesmo tipo de elogio que fiz a Requiem. Apesar das ressalvas feitas em 2022, Resonance já traz os ajustes de desempenho e qualidade no PS5, onde jogamos nas duas ocasiões, que faltaram em Requiem. Em modo desempenho, com meta de 60 FPS, a experiência foi excelente.

Uma nova luz em uma franquia já brilhante

Resonance: A Plague Tale Legacy cumpre com méritos a missão de expandir o universo da franquia sem parecer um capítulo dispensável. Ao trocar os irmãos de Rune por Sophia, o Asobo Studio arrisca uma nova protagonista e um tom mais ostensivo no combate, mas mantém o que sempre definiu a série: uma narrativa densa, personagens bem construídos e uma direção de arte impecável.

A costura entre a mitologia própria da franquia e o mito de Teseu e do Minotauro é o grande trunfo do roteiro, dando à ilha um propósito narrativo que vai muito além do cenário bonito. Os quebra-cabeças ambientais construídos em torno da esfera-chave são o ponto alto da jogabilidade, enquanto o combate, mais livre e menos voltado à furtividade que em Requiem, cumpre seu papel sem se tornar o carro-chefe da experiência.

Some-se a isso um dos melhores acabamentos técnicos e visuais da geração, e o resultado é uma prequela que não apenas justifica sua existência, como também amplia a curiosidade sobre o que ainda está por vir na trilogia original — sem, no entanto, deixar de funcionar como uma jornada única para quem nunca encostou nos jogos anteriores.

Prós

  • Roteiro que costura com inteligência a mitologia da franquia com o mito de Teseu e do Minotauro;
  • Quebra-cabeças ambientais engenhosos, com a esfera-chave sendo mais que um elemento narrativo da campanha;
  • Direção de arte e iluminação de altíssimo nível, com papel ativo na narrativa e na jogabilidade;
  • Trilha sonora que reforça a identidade do jogo e a ambientação mitológica;
  • Maior liberdade de combate em relação a Requiem, com sistema de progressão que permite redistribuir pontos;
  • Desempenho técnico sólido no PS5, corrigindo ressalvas deixadas por Requiem.

Contras

  • Combate cumpre seu papel, mas segue sendo o elo de menor destaque da experiência;
  • Clichês recorrentes do gênero, como colecionáveis, desafios de combate e marcações de tinta indicando rotas quebram a imersão.
Resonance: A Plague Tale Legacy — PC/PS5/XSX — Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: PlayStation 5
Revisão: Thomaz Farias
Análise produzida com cópia digital cedida pela Focus Entertainment
OpenCritic
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Alexandre Galvão
Produtor do BlastCast. Entusiasta da era 16-bit, fã declarado do PS2 e apreciador de jogos de cartas e de tabuleiro. Jogador casual de muitos e hardcore em poucos. Também conhecido como @XelaoHerege
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