Análise: Mistfall Hunter entrega um ARPG de extração corpo a corpo competente, mas que tem alguns tropeços

Escolha um papel e explore dois vastos mapas, sozinho ou em trio, enfrentando monstros e outros jogadores.


Os jogos de extração têm se tornado o novo “queridinho” da indústria, e a recente leva de novos projetos totalmente focados no gênero, como Arc Raiders, ou com modos dedicados a ele, como o DMZ aprimorado que Call of Duty MW4 terá, só reforçam isso. Mas, destacando-se daqueles focados em armas de fogo, surge Mistfall Hunter, um ARPG de extração cujo diferencial são combates fantasiosos com magos, guerreiros e assassinos. 


Após uma beta aberta que despertou minha curiosidade, o jogo foi finalmente lançado em 29 de julho, o que me permitiu agora testá-lo em sua melhor versão. Adianto que muitos dos problemas citados antes, como a interface poluída, alguns bugs e problemas com servidores, foram arrumados, mas alguns novos surgiram.

Um mundo de deuses e monstros

A trama nos ambienta em um mundo que passou por uma guerra entre deuses verdadeiros e deuses comuns. A consequência disso foi o surgimento de uma névoa que contamina tudo que encosta. Para reverter a situação, a deusa Orvália revive guerreiros, transformando-os em Caçadores Áureos, e os envia em expedições pelos reinos, agora cobertos pela fumaça mortífera, com monstros e outros caçadores.


A história não é o foco do jogo; ela repete aquele clássico caso de existir como um contexto que justifique o ciclo de gameplay, para não parecer que falta uma razão para o jogador estar fazendo as expedições, matando criaturas e outros campeões.

Porém, para não dizer que não há tentativa, o título oferece uma “campanha” por meio de algumas missões simples, como coletar objetos ou matar adversários específicos, que revelam mais detalhes desse universo, mas sua principal função é liberar novas mecânicas.


Mas essas tarefas não aprofundam muito bem os NPCs, que acabam sendo todos esquecíveis e desinteressantes, nem expandem bem o próprio universo, o que é uma lástima, pois a premissa de uma guerra entre divindades e suas consequências é bastante promissora. 

Penso que poderiam ter dado um pouco mais de atenção a esse ponto; pelo menos, o título está disponível em português, o que facilita o entendimento das missões secundárias, embora não tenha achado todas as traduções bem-sucedidas. Todavia, vale ressaltar que, como estamos falando de uma obra live service, existe chance de esse cenário atual mudar com o passar das temporadas.

Um acampamento para chamar de lar

Antes de se aprofundar nas incursões, é necessário falar de uma das etapas mais importantes: a preparação no acampamento. O local funciona como um lobby; é possível convidar outros jogadores, treinar com cada uma das especializações, comprar ou fabricar equipamentos, guardar itens, criar vinhos com buffs temporários e alterar tanto a aparência quanto as especializações dos personagens, com a Orvália.

Todos, ou quase todos os estabelecimentos que mencionei, podem ser aprimorados utilizando dinheiro e recursos, ambos adquiridos durante as incursões. No entanto, para agilizar esse processo (pois alguns produtos são difíceis de adquirir rapidamente, por serem de raridade alta), existe o leilão gerenciado por Pip, uma exótica criatura peluda e baixa. 

A loja serve como um mercado virtual, em que jogadores podem vender equipamentos e recursos por moedas do próprio jogo. A funcionalidade é excelente e oferece uma maneira fácil de adquirir dinheiro, bem como dá uma função aos objetos repetidos que podem ser coletados. 


No entanto, eu sinto que ela tira o propósito de outras coisas, como a forja e o comerciante, já que é mais fácil comprar no leilão do que criar objetos na metalurgia. Consequentemente, isso acaba também desmotivando o jogador a gastar itens valiosos para fazer aprimoramentos no acampamento.

Visualmente, a base também não chama atenção, não existindo até o momento muitas formas de personalizar o local, e os NPCs que habitam nele carecem de carisma, o que dificulta se importar com algumas missões que eles passam na campanha. Também existem microtransações que são possíveis de acessar por esse local.


Características como um passe de batalha, uma loja paga recheada de skins bonitinhas, estão presentes; embora a promessa da desenvolvedora seja que nenhum desses itens será pay to win, ou seja, não dão nenhuma vantagem durante as partidas, apenas mudanças nos visuais. Contudo, achei os valores para aquisição do dinheiro pago um pouco elevados demais, o que me dá certo receio de que essa promessa não vá realmente se manter.

O assentamento também possui o corvo Soekja, que é responsável por nos enviar às jornadas; entretanto, elas estão limitadas a partidas solo ou em trio, o que impossibilita partidas justas em dupla, e não é possível alternar o servidor livremente, o que atrapalhou muito minha experiência. O estranho é que, na beta, era possível escolher qualquer um.

As expedições em busca de ouro e glória

Após finalizar a preparação no assentamento, é o momento de falar sobre o carro-chefe do título: sua jogabilidade. Mistfall Hunter apresenta uma mescla de elementos soulslike com RPG de ação. O personagem, independentemente das especializações, é lento, sempre se movendo pesadamente e não podendo correr, apenas esquivar.


Em contrapartida, os golpes também são fortes, provocando muito dano, principalmente em outros campeões, sendo possível utilizar ataques básicos e combiná-los com habilidades especiais únicas que os papéis possuem. Por sinal, cada um deles é gratificante de jogar, ainda mais pela maioria sempre ter duas opções diferentes de armas para usar e uma vasta árvore de habilidades que permite a criação de diversas builds.

Isso torna satisfatória a atividade de dominar o uso dos papéis, e faz com que enfrentar outros Caçadores Áureos seja muito divertido, principalmente porque, por não existir uma trava de mira, os confrontos acabam sendo imprevisíveis, mas também estratégicos, já que cada golpe conta e cada erro pode ser fatal.


Assim, aos poucos, deveria ficar viciante o ciclo de gameplay: coletar recursos, matar adversários ou perecer. Todavia, a obra sofre de uma característica comum de projetos online com o PvP: o desbalanceamento entre as classes. 

Ele dificulta que os embates sejam justos; por exemplo, na minha jogatina, notei que os arqueiros, denominados Flecha Negra, estão muito fortes em confrontos 1x1, tornando frustrante tentar acertá-los utilizando um combatente corpo a corpo, pois eles possuem talentos que grudam o caçador no chão.


Também sinto esse problema nos Sombrastrix, que são os assassinos. Além de poderem ficar invisíveis, têm ataques em áreas que também prendem você no chão. Como de costume, acabei utilizando um arquétipo voltado para o corpo a corpo. Mesmo usando as habilidades dele, era praticamente impossível acertar o alvo, o que transforma os duelos individuais em experiências frustrantes, nas quais o que importa não é habilidade ou estratégia.

A situação melhora um pouco nas partidas com grupos cheios, ou seja, com três membros, mas problemas como a falta de uma forma justa de dividir o loot desmotivam a querer jogar em grupo; principalmente porque é relativamente comum o time ter algum “fominha” por espólios, pegando mais do que deveria.


Contudo, se as lutas contra pessoas reais são desafiadoras, o mesmo não se pode dizer dos chefes e inimigos controlados pela IA; além do fato de possuírem uma variedade muito baixa, a ponto de existirem os mesmos adversários nos dois mapas disponíveis. Os inimigos comuns são bastante esponja de dano, comportando-se às vezes como uma parede, o que vai tornando o confronto contra eles monótono e repetitivo.

Consequentemente, os chefes também compartilham essas mesmas características, com a diferença de que são mais agressivos, mas também previsíveis, e rapidamente se tornam monótonos, principalmente pela sua baixa variedade.

Invadindo dois reinos distintos, mas muito similares

Por fim, além dos confrontos, existem dois mapas: o Bosque Santo e Brandrgarde, que são um ponto de destaque. Desde a demonstração, em termos de estrutura, não mudaram, mas visualmente estão muito mais polidos e otimizados, com iluminação e texturas mais bem trabalhadas. Sua interface também melhorou muito, ficando menos poluída.


Sua direção artística é voltada para a atmosfera nórdica, com estátuas e uma árvore que parece fazer referência a Yggdrasil; entretanto, as duas regiões são um pouco pequenas. Mesmo isso sendo proposital para incentivar os combates entre guerreiros, acaba também ajudando a deixar cada mapa um pouco repetitivo.

Em contrapartida, eles conseguem ter muitos caminhos alternativos, com correntes de vento que jogam os combatentes para o alto, mini-chefes e chefões que dão baús com chance maior de itens com raridade alta, o que impede as incursões de ficarem muito repetitivas rapidamente.


O mapa de Brandrgarde, em específico, apresenta dinâmica diferente: a névoa que se espalha por ele funciona igual a um battle royale, diminuindo os espaços disponíveis com o tempo e mudando a forma de escapar com vida. 

Normalmente, é necessário invocar uma criatura em formato de sino para fugir, mas, nessa região em específico, o monstrinho aparece mais raramente e só consegue levar um caçador em vez do grupo todo, o que traz uma experiência diferente e mais desafiadora.

Um ARPG de extração competente com potencial


Mistfall Hunter
consegue ser um ARPG com potencial para se diferenciar das demais opções do gênero no mercado, conseguindo ter um bom combate, visuais atrativos e uma boa variedade de classes, o que o torna uma ótima escolha para quem deseja começar no gênero com algo mais “único”.

Entretanto, a narrativa fraca, microtransações duvidosas, desbalanceamento entre os arquétipos e a trava de região, que impede de trocar de servidores livremente, podem afastar potenciais jogadores; mas problemas como esses são facilmente resolvidos com atualizações.

Prós:

  • Uma boa variedade de classes únicas, tornando a experiência diversificada;
  • Legendas e tradução em português;
  • O combate contra outros jogadores é desafiador e imprevisível;
  • Os dois mapas disponíveis são atualmente divertidos de explorar e possuem um bom número de atividades disponíveis;
  • O leilão facilita a aquisição de itens e dispõe de uma maneira fácil de adquirir dinheiro;
  • Os visuais dos mapas são muito belos, conseguindo entregar paisagens épicas deslumbrantes.

Contras:

  • A trava de região, que impede o jogador de escolher qual servidor é melhor para ele, torna algumas partidas sofríveis devido ao ping alto, principalmente em trio;
  • Algumas funções não são tão bem utilizadas, o que as torna “inúteis”;
  • O balanceamento entre os papéis não está equilibrado, desmotivando a utilização de alguns deles e tornando o PVP frustrante;
  • A possibilidade de poder escolher apenas entre jogar solo ou em trio, não existindo modo em dupla, limita consideravelmente as opções que os jogadores possuem;
  • Inimigos comuns são bastante repetitivos, tornando os confrontos contra eles monótonos;
  • As batalhas contra chefes são previsíveis e monótonas.
Mistfall Hunter – PS5/PC/XSX – Nota: 7.5
Plataforma: PlayStation 5
Revisão: Julia Loffreda Costa
Análise produzida com cópia digital cedida pela Skystone Games
OpenCritic
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Thiago da Silva e Silva
É um universitário se formando em engenharia na UFRRJ,apaixonado por jogos desde a infância, principalmente RPGs.
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