Todo mundo já deve ter se perguntado: “Como seria Bloodborne no Game Boy Color?”. Não? Essa questão nunca passou pela sua cabeça? Não se preocupe. Você não precisa mais dela. Algo parecido a uma resposta já existe: Tearscape.
Criado pelo desenvolvedor solo da Nerds Take Over, o game tem uma clara inspiração no título da FromSoftware que foi lançado em 2015 e já tem tudo para ser considerado um clássico — ele até é preso a uma plataforma do passado, uma vez que a única versão disponível é a do PS4. Se não temos Bloodborne no PC, ao menos os fãs podem criar suas versões do pesadelo de Yharnam, como Nightmare Kart (é gratuito no Steam e vale a pena; confira na nossa análise) e Yarntown (gratuito em itch.io).
Agora é a vez de Tearscape.
A caçada começa
É claro que os direitos autorais não permitem que o título seja uma adaptação direta de sua referência famosa, mas o parentesco já é óbvio no design de personagem, cujo protagonista ostenta o conjunto de lenço de rosto com o típico chapéu de caçador com grandes abas que lembram asas.
Também é notável que o protagonista seja um caçador que, empunhando uma combinação de lâminas e armas de fogo, deve abater feras e pessoas transformadas em monstros, mantendo semelhança ao tema central de Bloodborne. A história é vaga — tem em português brasileiro —, falando sobre como certas instituições místicas enxergam o equilíbrio do mundo e o preço que é pago para mantê-lo. Aqui, as lágrimas substituem o sangue como o elemento quintessencial.
Há poucos diálogos e textos extras, então as explicações do mundo ficam no básico, sem aprofundar muito. Fiquei desapontado que não há um fechamento de verdade para a história; a caçada acaba e pronto: tela preta, “obrigado por jogar”. Dessa forma, o esforço maior para construir e manter uma aura de mistério recai sobre a arte.
O que temos em Tearscape é uma pixel art em estilo 8 bits e visão de cima, lembrando muito os jogos de Zelda lançados para o Game Boy Color nos idos da década de 1990. É bem simples, porém eficiente ao usar a paleta de cores limitada dessa estética e também ao fazer com que cada área seja distinta das demais.
Mesmo que o resultado careça de momentos mais chamativos e memoráveis, e que recorra mais à repetição de inimigos e puzzles do que eu gostaria, o conjunto da obra é bastante agradável e cumpre seu papel.
Além disso, a inspiração em Bloodborne e a presença de monstros antagonistas não tornam o game macabro. A morbidez é diluída pelo baixo detalhamento, sem recorrer a exageros de violência gráfica, o que o torna um jogo visualmente comedido e talvez acessível até para crianças. Afinal, o tom é de aventura sombria, não de horror.
Tem cara de Zelda, mas o resto é de metroidvania
Ainda que lembre os jogos de Link no portátil da Nintendo, Tearscape se aproxima muito mais do formato metroidvania do que de The Legend of Zelda. Isto é, em vez de progredirmos em um mundo central incrustado de portões para masmorras isoladas, em Tearscape as várias áreas são costuradas em um todo interconectado e gradualmente explorado com o auxílio de novas habilidades que permitem alcançar lugares antes inacessíveis.
O movimento da gameplay não muda muito, pois as tais habilidades adquiridas são integradas ao combate. Por exemplo, as armas de fogo podem acionar alavancas distantes e, com isso, abrir caminho para novos locais. A mesma vantagem da função dupla de causar dano a inimigos e abrir caminhos trancados acompanha a bomba, o ataque carregado e mais alguns poucos truques aprendidos.
Para ajudar na exploração e no retorno, temos mecânica de viagem rápida disponível desde o início e um mapa com marcadores personalizáveis, o que ajuda muito na hora de traçar as rotas.
Ainda que a construção no todo seja bem-feita, ela também segue o caminho da simplicidade e os elementos de cenário e perigos não são aprofundados nem surpreendem. Até os dois tipos de puzzles principais são repetidos em todos os biomas. Eles são bons, mas não conseguem evitar o ar de repetição.
É como a diferença entre o eficaz, que cumpre o objetivo, e o eficiente, que cumpre o objetivo da melhor maneira: Tearscape é eficaz em praticamente tudo — e eficiente em um ponto, que veremos a seguir.
Caçada a dois
Um grande acerto dessa caçada é ter um modo cooperativo para dois jogadores. Eu o usei do começo ao fim e joguei com meus filhos, que se alternaram no controle. A opção combina muito bem com a estrutura do jogo de transitar entre telas fixas, seguindo uma dinâmica prática que não deixa que um jogador seja empecilho para o outro. Eu gostaria que mais jogos desse tipo oferecessem essa possibilidade.
Como Tearscape tem a mecânica de RPG de aumentar atributos ao passar de nível, ambos os participantes desfrutam das mesmas estatísticas e acessórios equipados, mas podem escolher suas próprias armas separadamente.
Por sinal, os acessórios só podem ser usados até três ao mesmo tempo, o que é um número reduzido para a quantidade que encontramos e tira um pouco da sensação de progressão de força. Seria uma boa recompensa se pudéssemos aumentar esse número de acordo com os frutos da exploração.
Vale dizer que os inimigos não são modificados quando há dois jogadores. Isto é, estar acompanhado naturalmente fará a coisa toda parecer mais fácil do que na campanha solitária, mas não chega ao ponto de tornar o desafio trivial, já que os chefes têm montantes de vida consideráveis e ainda precisamos prestar atenção para aprender os momentos certos para fugir e atacar. Já os inimigos comuns têm fileiras reduzidas, sem muita variedade deles, sendo que alguns causam muito dano e podem dar trabalho. Para atenuar a repetição, cada área tem um ou dois tipos de inimigos novos.
Em vez de aumentar a dificuldade para o co-op, a intenção foi proporcionar a experiência de uma jornada acompanhada para os que assim quiserem.
Um bom “soulsvania” retrô para jogar sozinho ou em dupla
Tearscape segue o caminho da simplicidade eficaz em vários aspectos: no agradável visual de Game Boy Color, no pano de fundo de aventura sombria, nos elementos de cenário e na concisa variedade de inimigos e de puzzles. Em tudo isso ele se sai bem, mas não impressiona nem surpreende.
Os principais diferenciais, portanto, estão em transmitir a inspiração direta, porém moderada, em Bloodborne e na possibilidade de curtir a campanha inteira no modo cooperativo para dois jogadores, um atrativo que combina muito bem com o gênero e que mais títulos deveriam considerar oferecer.
Prós
- Visual agradável de Game Boy Color, com áreas distintas entre si;
- Mundo de metroidvania bem construído e divertido de explorar;
- O modo cooperativo para dois jogadores combina com a experiência e a enriquece;
- Textos em português brasileiro.
Contras
- A simplicidade geral é eficaz, mas impede que o jogo impressione ou surpreenda, faltando aprofundamento em alguns aspectos, como na história e na variedade de inimigos, puzzles e elementos de cenários.
Tearscape — PC — Nota: 8.0
Revisão: Ives Boitano
Análise produzida com cópia digital adquirida pelo redator














