Gráficos, sonoridade e história
À primeira vista, Hell Clock é um jogo bizarro e aterrorizante. A temática de morte e guerra cria um clima sinistro, que beira o terror. Os itens, os nomes, os elementos visuais, a trilha sonora... tudo remete àquelas coisas que assustavam na infância e que, de alguma forma, estavam esquecidas na memória. Especialmente a dublagem, que é extremamente competente e teatral, transmite muito bem o estado emocional do protagonista. Há uma amargura constante em sua voz que, depois de terminar a campanha, faz todo sentido.
A trilha sonora acompanha o clima pesado e nos deixa ambientados com o cenário do sertão nordestino. Aliada à arte belíssima do jogo, constrói uma atmosfera realmente tensa, perturbadora e sobrenatural.
Escolher a Guerra de Canudos como tema central foi uma decisão extremamente interessante. É um episódio que muitos conheceram apenas pelos livros de História, sempre apresentado como um dos acontecimentos mais brutais do Brasil. Ver esse contexto servir de base para um jogo foi uma surpresa muito positiva.
As figuras históricas, o motivo da jornada existir e a forma como cada ato conduz a narrativa se encaixam perfeitamente. Hell Clock aproveita uma temática rica e a transforma em uma aventura que desperta curiosidade, sem desrespeitar o peso dos acontecimentos reais. É uma maneira honesta de apresentar esse período a um público que talvez nunca tenha se interessado pelo assunto.
Jogabilidade e mecânicas
Aqui temos combate e movimentação excelentes. O combate de tiro é satisfatório e prazeroso nos efeitos, com resposta e reação muito polidas, além de leveza e retorno visual excelentes. Tanto os efeitos sonoros de mortes, acionamento de skills, combate e impacto quanto a resposta às ações são bem encaixados e entregam uma sensação de precisão. O trabalho primoroso da desenvolvedora, aqui, mostra primazia e excelência.
Também é verdade que não existe uma variedade enorme de classes ou estilos de jogo. A sensação é que o próprio jogo acaba incentivando quase sempre o mesmo caminho: investir em ataques de longo alcance, algumas proteções, como escudo e resistência, e, opcionalmente, invocações para dividir a atenção dos inimigos. Funciona, mas limita um pouco a criatividade na construção das builds.
Em relação às incursões em si, o jogo é fácil no começo, mas não faz muita questão de explicar seus sistemas. Logo nas primeiras investidas começam a surgir almas, relíquias, ferramentas, fragmentos disso, fragmentos daquilo... uma quantidade enorme de recursos, enquanto o jogador ainda está tentando entender o básico do funcionamento. Incluo aqui uma observação: um bestiário ou compêndio faz falta. A arte belíssima e a narrativa pedem uma olhada com calma nos monstros e objetos; do início ao fim, a ausência de algum tipo de consulta realmente foi sentida.
Atenção, pois dá pra melhorar
Jogadores acostumados com roguelikes provavelmente vão entender boa parte desses sistemas rapidamente. Mas quem não tem tanta familiaridade pode acabar deixando passar mecânicas importantes. Pode facilmente acontecer de alguém chegar ao ato 3 sem ter compreendido a dinâmica das relíquias ou sem notar que todas as skills são melhoradas até um limite, desbloqueado em outra árvore de melhorias. São “mesas” nas quais o jogador precisa levar Pajeú e interagir separadamente. Essa dinâmica diferente é pouco sinalizada e pode levar o jogador a avançar sem os upgrades disponíveis, o que torna o gameplay muito difícil e a progressão bastante desbalanceada.
Felizmente, a campanha consegue equilibrar muito bem a diversão e dificuldade, mantendo a atenção do jogador nos detalhes de distribuição de melhorias. Caminhar pelo mapa, atirando, eliminando grupos de inimigos e vendo tudo explodir é extremamente satisfatório. O combate tem impacto, boa resposta aos comandos, game juice muito polido e sonoplastia agradável, além de uma progressão de dificuldade que acompanha bem o desenrolar da história, forçando o jogador a sempre recomeçar para fazer ajustes. Mesmo quando o desafio aumenta nos atos finais, ele continua parecendo justo, exigindo mais sem tirar a diversão.
O DLC Guerra Maldita
Lançado no dia 9 de julho de 2026, após aproximadamente um ano do lançamento oficial de Hell Clock, a desenvolvedora Rogue Snail apresenta a primeira grande expansão, intitulada Guerra Maldita. A continuação da história segue o desenvolvimento de Pajeú, mostrando seu passado controverso como combatente da Guerra do Paraguai. Agora, o desafio é enfrentar seus próprios demônios e resgatar, das profundezas do inferno, seus companheiros que, assim como ele, sofreram terríveis traumas e estão com as almas perdidas.
Uma nova campanha é adicionada ao final da história principal, ambientada no universo do jogo e focada em explorar o passado do protagonista. Há a introdução de mais de 80 novos itens e habilidades, expandindo as opções de build. Considerando isso, a narrativa adicionada é relativamente curta, o que, particularmente, eu acharia ótimo se houvesse outro ato ou até outros locais de exploração. Porém, a adição não é cansativa nem curta demais.
Para falar de mudança de jogabilidade, o quarto ato traz algumas opções interessantes de skins novas, que podem dinamizar bastante o gameplay, pois dão ao jogador a possibilidade de combinar a pistola principal com outra skill de dano elétrico em área, por exemplo. Uma transformação e uma lança maneiríssima também entram nas opções de dano novos, entre outras que são tão interessantes quanto. É um ponto positivo, já que o jogo principal acabou ficando meio limitado nas possibilidades.
Em se tratando de novidade, além da continuação da história, o endgame foi ampliado, adicionando os biomas e os chefes da nova campanha ao modo Pesadelo, além do modo focado em mapas, onde o jogador cria Pesadelos personalizados.
Para quem joga no modo Normal apenas para conhecer a história de Pajeú, Hell Clock é uma experiência bastante satisfatória. A campanha é interessante, bem contada e ainda desperta um certo orgulho por ver uma produção brasileira abraçando sua própria história, sem tentar internacionalizar sua identidade. A adaptação das figuras históricas é muito bem realizada e, ao terminar a campanha, a sensação é de ter vivido uma ótima aventura. É um jogo que eu recomendaria sem dificuldade a qualquer pessoa interessada em ação e narrativa.
O contratempo começa quando a campanha termina
Infelizmente, o modo Abismo representa uma queda muito grande na qualidade da progressão. A impressão é que os desenvolvedores simplesmente multiplicaram todos os números do jogo. Os inimigos deixam de ser desafiadores para se tornarem enormes esponjas de dano. Em vários momentos, a sensação é de estar arremessando tomates contra estátuas de mármore.
A dificuldade, em si, não seria um problema; o defeito é que a evolução do jogador não acompanha esse crescimento. Conseguir pontos para fortalecer as habilidades exige repetir o modo Normal inúmeras vezes. As árvores de evolução são enormes, principalmente quando entram em cena as constelações de santos e orixás, mas a quantidade de pontos recebida por ato é muito pequena. A recompensa pelo tempo investido simplesmente não acompanha o esforço exigido.
Vontade de "quero mais"
O resultado é que o jogo é excelente no modo Normal, se o jogador ficar atento às melhorias disponíveis, mas o pós-jogo deixa de testar a habilidade do jogador e passa a testar sua paciência.
Isso apaga todas as qualidades de Hell Clock? De forma alguma. Até o fim da campanha, ele é um jogo muito gostoso de jogar. A ambientação é excelente, o combate é divertido e a maneira como utiliza a Guerra de Canudos merece muitos elogios. O DLC mostra uma continuidade honesta da jornada de Pajeú e garante uma boa experiência de combate. O obstáculo é que o conteúdo pós-jogo acaba destoando bastante dessa qualidade.
No fim das contas, Hell Clock é um título que eu recomendo. Sua campanha entrega uma experiência marcante e muito bem construída. Só fica a ressalva de que, depois dos créditos, a progressão perde o equilíbrio e pode afastar justamente quem gostaria de continuar jogando.
Alguns problemas técnicos
A versão jogada foi a de PS5, com opções visuais de dano na tela e números no HUD ativados. Em vários momentos de ataques avassaladores, nos quais estive soterrado de inimigos, pude observar muito lag, chegando a sofrer cinco frustrantes crashes nessas 35 horas de gameplay, do início ao final da expansão. Foram momentos de raiva e de frustração, pois, ao meu ver, foi vergonhoso ver o Play5 falhar assim. Mas fica o registro.
Outro detalhe é que o jogo base recebeu críticas pelo abismo que existe entre o final da campanha e o modo pós-game. Aparentemente, a desenvolvedora não tentou corrigir o balanceamento, e as mesmas observações sobre a dificuldade absurda permanecem, o que é uma pena, pois a comunidade poderia abraçar ainda mais o título e alavancar o sucesso desse game incrível.
Prós
- Temática e ambientação culturais: excelente escolha da Guerra de Canudos como pano de fundo, retratando a história do Brasil com peso e respeito;
- Atmosfera de terror eficiente: o clima de morte e guerra no sertão baiano cria uma atmosfera tensa, perturbadora e sobrenatural;
- Dublagem e sonoplastia primorosas: dublagem teatral muito competente, que transmite perfeitamente a amargura e o estado emocional do protagonista;
- Combate e game juice polidos: a jogabilidade de tiro é extremamente prazerosa, com comandos leves, respostas precisas, ótimos efeitos visuais de impacto e explosões satisfatórias;
- DLC de qualidade: a expansão Guerra Maldita traz uma história honesta sobre o passado de Pajeú na Guerra do Paraguai, adicionando mais de 80 itens e habilidades, além de novos modos ao endgame;
- Novas possibilidades de combate: a DLC adiciona opções alternativas para as skills do jogo base.
Contras
- Falta de sinalização e explicação dos sistemas: o jogo não explica bem suas mecânicas no início; a quantidade enorme de recursos pode confundir;
- Progressão difícil se o jogador não dominar as melhorias: o sistema de aprimoramento de skills nas mesas com Pajeú é pouco sinalizado, o que pode fazer o jogador avançar sem os upgrades necessários e desbalancear o jogo;
- Ausência de compêndio ou bestiário: pela riqueza da arte e da lore, faz muita falta um menu de consulta para apreciar os monstros e objetos com calma;
- Pós-jogo frustrante (modo Abismo e seguintes): o equilíbrio se perde após os créditos; a dificuldade é inflada artificialmente, transformando inimigos em "esponjas de dano" e exigindo repetição excessiva (grind) do modo Normal para avançar;
- Problemas técnicos no PS5: mesmo rodando em um console de nova geração, o jogo apresentou lentidão (lag) severa em momentos de tela cheia de inimigos e sofreu cinco fechamentos inesperados (crashes) durante as 35 horas de gameplay.
Hell Clock: Guerra Maldita — PS5/XBOX SERIES X e S/PC — Nota: 8.0Versão utilizada: PlayStation 5
Revisão: Mariana Marçal
Análise produzida com cópia digital cedida pela Rogue Snail



