Quando pensamos em RPGs de ação com dificuldade elevada, provavelmente vêm à mente títulos como Dark Souls, Remnant From The Ashes ou Wo Long. Mas, antes de esses títulos existirem, um jogo já se destacava: Gothic, um RPG de fantasia sombria que ficou conhecido pela sua dificuldade elevada e progressão lenta.
Após anos na geladeira, a franquia retorna com Gothic 1 Remake, que consegue manter a essência do clássico ao mesmo tempo que o aprimora com um combate mais fluido, novas acessibilidades como legendas em português e uma repaginada nos visuais, que acarretou em uma que deixou a desejar otimização.
Uma prisão, de onde é impossível escapar
Gothic 1 Remake nos ambienta em um mundo de fantasia sombria no qual o reino de Myrtana está em conflito contra os Orcs e, para continuar sua campanha e vencer o conflito, o Rei Rhobar II ordena que todo prisioneiro, independentemente do crime, seja levado para a ilha de Khorinis, com o objetivo de extrair o minério mágico que cresce no subterrâneo. Assim, o monarca poupa seus soldados e consegue a matéria-prima para vencer a guerra.Para garantir que nenhum preso escapasse, ele ordenou que magos criassem uma barreira mágica para impedir isso. Entretanto, enquanto os feiticeiros estavam selando a ilha, algo dá errado e os carcereiros ficam aprisionados. Agora o local é dominado pelos criminosos e é nessa situação em que o protagonista, chamado apenas de herói, é jogado, com o objetivo de entregar uma carta a um mago de fogo.
A narrativa começa de maneira lenta e, conforme as missões avançam, vai se engrandecendo até se transformar em um épico de fantasia digno de um RPG. Fiquei surpreso com a qualidade da trama, que consegue ter reviravoltas muito boas e apresenta bem as principais ideias que tornam esse universo único, mesmo para quem não jogou a versão clássica.
Um desses elementos são os acampamentos, que funcionam como guildas. O protagonista terá que escolher um para se juntar, e cada um possui uma cultura, hierarquia social e estrutura completamente diferentes, incentivando o fator rejogabilidade. Um exemplo é o acampamento do Pântano, voltado para o culto a uma divindade antiga chamada O Adormecido, que poderá libertá-los no encerramento.
Outra questão é o protagonista, embora a ideia seja que o personagem é um “cara comum” que acabou se deparando com algo maior que ele. Devido a isso, ele não possui nenhuma habilidade útil no começo da aventura. Acredito que a incorporação dessa ideia foi exagerada, o que acabou moldando um protagonista com personalidade e aparência muito esquecíveis, deixando-o desinteressante.
O caminho do guerreiro é árduo e lento
Gothic Remake, como um bom RPG de ação, possui uma jogabilidade simples com bastante possibilidade de interpretar papéis diferentes. É possível ser um guerreiro versado em armas de uma ou duas mãos, utilizar magias poderosas de fogo ou arco e flechas. O diferencial está em sua curva de evolução; no início da jornada, o protagonista sequer consegue empunhar uma espada corretamente. Esse aspecto transforma cada enfrentamento inicial em uma disputa injusta, visto que as feras selvagens, criminosos e orcs que habitam a colônia penal superam drasticamente o jogador.
Para mudar essa situação, é necessário treinar com um mestre que cobrará por cada lição ensinada um valor em minérios, que funciona como moeda de troca, e de pontos de habilidades adquiridos ao derrotar monstros e fazer tarefas; mesmo assim, demora bastante para juntar tais recursos, visto que a economia da ilha é bem desbalanceada, com algumas coisas tendo valores exorbitantes. Tudo isso fez minha experiência ser bem árdua, ainda mais porque mecânicas como marcadores de objetivos e bússolas não existem, tornando essencial prestar atenção nos diálogos e nas anotações feitas no glossário disponível no menu.
No entanto, embora esses fatores sejam cansativos e afastem o público mais casual, essa evolução demorada me ajudou a ver com clareza como, a cada nível alcançado, técnica aprendida e armamento adquirido, o amadurecimento do herói se torna mais claro. É exatamente nesse ciclo de superação que reside o brilho da jogabilidade de Gothic.
Porém, mesmo o jogador se fortalecendo, os adversários continuam sendo um desafio, graças à sua inteligência artificial. Oponentes como humanos e orcs conseguem esquivar com precisão, aparar golpes e fingir ataques, enquanto os animais, como lobos, atacam em bando, cercando o jogador, exigindo sempre atenção e estratégias para vencer os confrontos.
Uma prisão sombria e suja
Além dos embates, outro destaque da obra é seu mundo aberto, marcado por tons acinzentados que dão um aspecto de sujo e sombrio aos vários biomas, como pântanos, bosques e as minas de minério. Esses detalhes são realçados graças à Unreal Engine 5, que realça a vegetação, luz e sombras.
Os modelos dos personagens também ficaram muito bons; é possível ver detalhes como suor, sujeiras e sangue grudado nos rostos. No entanto, achei que algumas expressões ficaram um pouco estranhas e, como de costume, o novo motor trouxe problemas corriqueiros, como bugs.
Embora uma boa parcela deles tenha sido arrumada durante a produção desta análise, ainda é possível ver texturas sumindo, missões bugadas em que às vezes o diálogo não acontece e raramente quedas de fps ou travamentos. Além disso, no PlayStation 5, só está rodando a 30 fps. Mesmo tendo sido adicionado um modo 60 fps recentemente, ele ainda é experimental e não funciona tão bem.
Para finalizar, existe uma boa quantidade de atividades a serem feitas, desde pescaria, lutas em arenas, alquimia, forjamento de armas, entre outras. Mas o que mais se sobressai é a exploração, que recompensa com ferramentas, experiência e baús, porém eles possuem um minigame de lockpick bastante frustrante. É necessário alinhar cinco mecanismos em uma linha reta, porém sempre exige tanto tempo que acaba sendo desinteressante continuar. Mesmo aprendendo com um mestre especializado nisso, mantém-se o mesmo problema.
Um remake que honra o clássico.
Gothic 1 Remake consegue honrar o legado deixado por sua versão clássica ao manter e aprimorar seus princípios; alicerçar sua progressão é uma tarefa que se mantém lenta, mas recompensa o jogador com uma evolução mais clara do herói, seu combate permanece desafiador e sua ambientação sombria consegue se destacar ainda mais no novo motor gráfico.
No entanto, ao utilizar a Unreal Engine 5, acarretaram-se alguns bugs e quedas de fps que ainda precisam ser arrumados, e o minigame de arrombamento dos baús é exageradamente complicado até mesmo para a proposta do game.
Prós:
- Ambientação do jogo faz jus à temática de fantasia sombria, conseguindo transmitir a sensação de um ambiente sujo e repleto de perigos;
- Cada acampamento (guilda) difere em estrutura física, hierarquia e cultura, tornando cada um único e incentivando o fator rejogabilidade;
- A obra tem um desenvolvimento lento, porém isso ajuda a destacar a evolução do herói;
- Os combates são árduos, mas oferecem uma ampla possibilidade de builds diferentes que mudam a forma como se joga.
Contras:
- A Unreal Engine 5 entrega gráficos bonitos; no entanto, o título precisa de uma otimização melhor; problemas como quedas de fps e bugs ainda ocorrem com frequência;
- A falta de algumas mecânicas, como uma bússola no mapa, marcador de quest e uma evolução mais rápida, vai afastar jogadores mais casuais;
- Mesmo que a proposta seja o protagonista ter aparência de alguém comum, ele se torna muito esquecível e pouco carismático;
- O minigame de arrombamento de baús é exageradamente chato de resolver e, mesmo melhorando o talento, mantém-se frustrante.
Gothic 1 Remake — PS5/PC/XSX — Nota: 7.5Versão usada para análise: PlayStation 5
Revisão: Vitor Tibério
Análise produzida com cópia cedida pela THQ Nordic












