Desde seu lançamento original, em 2023, Dave the Diver trilhou um
caminho próprio bastante interessante, desde se esgueirando na premiação de
Melhor Indie do The Game Awards do Geoff Keighley até mesmo ganhando algumas
atualizações em colaboração com outras marcas, como é o caso dos crossovers
com DREDGE e Godzilla, além de um DLC pago com a série Like a Dragon. Agora, a
Mintrocket retorna com In the Jungle, um pacote de conteúdo próprio e
totalmente original, que traz um novo cilindro de oxigênio para quem já
esgotou todas as possibilidades do cativante jogo base.
Do Buraco Azul a uma lagoa nem tão azul assim
Ambientada após os acontecimentos da campanha principal, a expansão acompanha
Dave e toda a sua trupe em uma viagem até a remota vila de Utara. Da mesma
forma que acontecia com o Buraco Azul, o local vem enfrentando fenômenos
estranhos que alteram o ecossistema local. Como era de se esperar, o
mergulhador acaba se envolvendo mais profundamente (viram o que eu fiz aqui?)
na situação, não apenas investigando os mistérios escondidos no novo local,
como também se relacionando com os habitantes da vila de um jeito único.
A estrutura central do título é basicamente a mesma, bem reconhecível pelos
veteranos. Durante o dia, há a exploração dos ambientes submarinos, em que o
jogador precisa coletar vários tipos de recursos (como os próprios peixes e
outros ingredientes) enquanto avança, aos poucos, nos meandros daquele novo
cenário.
À noite, por sua vez, o game assume um formato de gerenciamento que, aqui, foi
recontextualizado, saindo da administração de um sushi bar para a de uma
churrascaria, o Bancho’s Grill, especializada nos peixes de água doce e mais
adequada para a região. Embora o funcionamento básico permaneça o mesmo, a
perspectiva vetorial ganha uma dimensão a mais, já que a visão lateral dá
lugar a uma perspectiva diferenciada, sendo necessário circular entre as
mesas.
As próprias incursões subaquáticas também recebem algumas novidades. O lago
funciona de maneira semelhante ao Buraco Azul, oferecendo novas espécies e
áreas que vão sendo gradualmente desbloqueadas conforme a campanha avança. A
principal diferença está na introdução da Jungle Gun, uma arma multifuncional
desenvolvida por Muna, que substitui boa parte da progressão de equipamentos
do original.
Com a Jungle Gun, Dave pode alternar rapidamente entre diferentes modos de
disparo, incluindo rifle, escopeta, rede e mira de precisão. É uma solução que
simplifica bastante o modelo anterior, que dependia da fabricação e evolução
das armas e outros utilitários de forma individual.
Bem-vindo à selva, temos diversão e (mini) games
A principal novidade de In The Jungle, entretanto, é a exploração da
superfície, uma vez que o assentamento no qual Dave e sua turma estão
alojados, a vila de Utara, funciona como um hub explorável. É a partir dele
que o jogador progride em missões secundárias que envolvem atividades
paralelas e estabelecem vínculos com os personagens presentes. Colocando
dessa forma, com esses termos, aliás, a impressão que fica é que a relação
com Like a Dragon deixou de ser uma colaboração simples para inspirar
diretamente alguns elementos práticos dessa nova atualização.
Por exemplo, cada habitante tem seus próprios interesses específicos, e é
possível estabelecer vínculos de acordo com a forma como interagimos com
eles, bem como ao cumprirmos suas solicitações pontuais, o que remete a um
simulador qualquer de fazendinha, como Story of Seasons ou Stardew Valley.
Isso porque há um sistema de afinidade para cada habitante, que vai
evoluindo de acordo com essas tarefas que, por mais que ofereçam recompensar
práticas, são bem bacanas de acompanhar pela variedade de perfis distintos
dos personagens em questão.
Isso faz com que o modelo de jogabilidade vá além de um ciclo de gameplay,
transformando-se em um verdadeiro ecossistema ao trazer uma liberdade maior
para que o jogador estabeleça seu próprio itinerário de uma maneira mais
livre do que o jogo base, cuja rotina é um pouco mais engessada.
Além do vilarejo, a exploração da selva também ocupa um papel de destaque na
campanha. Trata-se de uma experiência completamente diferente daquela
oferecida pelos ambientes submersos, já que os sistemas aqui se moldam ao
redor de um gênero completamente distinto, uma vez que o jogo assume o
formato de um RPG de turnos.
Na prática, porém, o resultado funciona surpreendentemente bem. Dave, Cobra
e o resto da trupe participam de confrontos que envolvem habilidades
especiais, efeitos de status, gerenciamento de recursos e progressão de
atributos de maneira bem tradicional. Existe até mesmo um componente de
tempo de reação durante determinadas ações, recompensando jogadores que
executam comandos com precisão — e aí eu vou ser chato e insistir que,
novamente, a parceria com Like a Dragon realmente parece ter inspirado o
time de desenvolvimento da Mintrocket para além da colaboração.
Ao mesmo tempo em que o gênero parece passar por uma crise de audiência, o
que faz com que essa inclusão possa não ser tão bem aceita por parte do
público cativo de Dave the Diver, chega a ser louvável como ela conseguiu se
inserir com tanta naturalidade dentro do próprio ecossistema geral do
título. Isto é, o original é uma espécie de amálgama de gerenciamento,
roguelike e vários outros microgêneros que operam sob o guarda-chuva da
narrativa aventuresca do mergulhador; então, um a mais ou a menos não
destoaria do conjunto, desde que trabalhado com a competência aqui
apresentada.
Aliás, a capacidade que o jogo tem de absorver várias mecânicas diferentes e
contextualizá-las é um dos maiores méritos dele. A campanha dura umas quinze
horas, mas há um amontoado considerável de atividades adicionais que podem
ser do proveito do jogador, como um sistema de pescaria tradicional ou
batalhas de insetos, por exemplo. Eu iria até falar, novamente, de como isso
remete à IP do Ryu Ga Gotoku, mas agora acho que seria apenas chover no
molhado.
Talvez o único obstáculo enfrentado por In The Jungle seja justamente a
sombra que o jogo original ainda projeta sobre o DLC. Quando ele saiu, lá
atrás, em 2023, era uma experiência que oferecia uma originalidade bacana
dentro desse espaço dos jogos de gerenciamento e aventura. Daí, embora a nova
campanha tenha seu frescor e se esforce bastante para isso, parte desse
encanto parece ter se esvaído um pouco.
Dave, o Explorador
De um modo geral, Dave the Diver: In the Jungle é uma experiência
sólida, que consegue ser bem-sucedida em seu propósito de mostrar que aquele
universo tem uma boa margem de crescimento, seja em nível narrativo,
expandindo sua mitologia, seja em nível mecânico, aventurando-se por
outros gêneros, como é o caso do RPG de turnos. Apesar de ser apenas um
mergulhador, Dave conseguiu se virar muito bem em terra firme.
Prós
- Novo cenário consegue transmitir identidade própria, em vez de parecer apenas um mapa adicional;
- Excelente variedade de minigames e atividades paralelas;
- A troca de ambientação traz um frescor bem-vindo ao título.
Contras
- Os segmentos de RPG por turnos podem não agradar a uma parcela da audiência cativa;
- A narrativa dificilmente alcança o mesmo senso de descoberta e mistério da campanha original.
Dave the Diver: In the Jungle — PC/PS4/PS5/XSX/NS/NS2 — Nota: 8.0Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Mariana Marçal
Análise produzida com cópia digital cedida pela MINTROCKET


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