Análise: Dave the Diver: In the Jungle faz bonito para provar que não é só um peixe fora d’água

Expansão do título de sucesso da Mintrocket aproveita o escopo reduzido de um DLC para fazer experimentações.

em 24/06/2026


Desde seu lançamento original, em 2023, Dave the Diver trilhou um caminho próprio bastante interessante, desde se esgueirando na premiação de Melhor Indie do The Game Awards do Geoff Keighley até mesmo ganhando algumas atualizações em colaboração com outras marcas, como é o caso dos crossovers com DREDGE e Godzilla, além de um DLC pago com a série Like a Dragon. Agora, a Mintrocket retorna com In the Jungle, um pacote de conteúdo próprio e totalmente original, que traz um novo cilindro de oxigênio para quem já esgotou todas as possibilidades do cativante jogo base.

Do Buraco Azul a uma lagoa nem tão azul assim

Ambientada após os acontecimentos da campanha principal, a expansão acompanha Dave e toda a sua trupe em uma viagem até a remota vila de Utara. Da mesma forma que acontecia com o Buraco Azul, o local vem enfrentando fenômenos estranhos que alteram o ecossistema local. Como era de se esperar, o mergulhador acaba se envolvendo mais profundamente (viram o que eu fiz aqui?) na situação, não apenas investigando os mistérios escondidos no novo local, como também se relacionando com os habitantes da vila de um jeito único.




A estrutura central do título é basicamente a mesma, bem reconhecível pelos veteranos. Durante o dia, há a exploração dos ambientes submarinos, em que o jogador precisa coletar vários tipos de recursos (como os próprios peixes e outros ingredientes) enquanto avança, aos poucos, nos meandros daquele novo cenário.

À noite, por sua vez, o game assume um formato de gerenciamento que, aqui, foi recontextualizado, saindo da administração de um sushi bar para a de uma churrascaria, o Bancho’s Grill, especializada nos peixes de água doce e mais adequada para a região. Embora o funcionamento básico permaneça o mesmo, a perspectiva vetorial ganha uma dimensão a mais, já que a visão lateral dá lugar a uma perspectiva diferenciada, sendo necessário circular entre as mesas.




As próprias incursões subaquáticas também recebem algumas novidades. O lago funciona de maneira semelhante ao Buraco Azul, oferecendo novas espécies e áreas que vão sendo gradualmente desbloqueadas conforme a campanha avança. A principal diferença está na introdução da Jungle Gun, uma arma multifuncional desenvolvida por Muna, que substitui boa parte da progressão de equipamentos do original.

Com a Jungle Gun, Dave pode alternar rapidamente entre diferentes modos de disparo, incluindo rifle, escopeta, rede e mira de precisão. É uma solução que simplifica bastante o modelo anterior, que dependia da fabricação e evolução das armas e outros utilitários de forma individual.



Bem-vindo à selva, temos diversão e (mini) games

A principal novidade de In The Jungle, entretanto, é a exploração da superfície, uma vez que o assentamento no qual Dave e sua turma estão alojados, a vila de Utara, funciona como um hub explorável. É a partir dele que o jogador progride em missões secundárias que envolvem atividades paralelas e estabelecem vínculos com os personagens presentes. Colocando dessa forma, com esses termos, aliás, a impressão que fica é que a relação com Like a Dragon deixou de ser uma colaboração simples para inspirar diretamente alguns elementos práticos dessa nova atualização.




Por exemplo, cada habitante tem seus próprios interesses específicos, e é possível estabelecer vínculos de acordo com a forma como interagimos com eles, bem como ao cumprirmos suas solicitações pontuais, o que remete a um simulador qualquer de fazendinha, como Story of Seasons ou Stardew Valley. Isso porque há um sistema de afinidade para cada habitante, que vai evoluindo de acordo com essas tarefas que, por mais que ofereçam recompensar práticas, são bem bacanas de acompanhar pela variedade de perfis distintos dos personagens em questão.

Isso faz com que o modelo de jogabilidade vá além de um ciclo de gameplay, transformando-se em um verdadeiro ecossistema ao trazer uma liberdade maior para que o jogador estabeleça seu próprio itinerário de uma maneira mais livre do que o jogo base, cuja rotina é um pouco mais engessada.




Além do vilarejo, a exploração da selva também ocupa um papel de destaque na campanha. Trata-se de uma experiência completamente diferente daquela oferecida pelos ambientes submersos, já que os sistemas aqui se moldam ao redor de um gênero completamente distinto, uma vez que o jogo assume o formato de um RPG de turnos.

Na prática, porém, o resultado funciona surpreendentemente bem. Dave, Cobra e o resto da trupe participam de confrontos que envolvem habilidades especiais, efeitos de status, gerenciamento de recursos e progressão de atributos de maneira bem tradicional. Existe até mesmo um componente de tempo de reação durante determinadas ações, recompensando jogadores que executam comandos com precisão — e aí eu vou ser chato e insistir que, novamente, a parceria com Like a Dragon realmente parece ter inspirado o time de desenvolvimento da Mintrocket para além da colaboração.




Ao mesmo tempo em que o gênero parece passar por uma crise de audiência, o que faz com que essa inclusão possa não ser tão bem aceita por parte do público cativo de Dave the Diver, chega a ser louvável como ela conseguiu se inserir com tanta naturalidade dentro do próprio ecossistema geral do título. Isto é, o original é uma espécie de amálgama de gerenciamento, roguelike e vários outros microgêneros que operam sob o guarda-chuva da narrativa aventuresca do mergulhador; então, um a mais ou a menos não destoaria do conjunto, desde que trabalhado com a competência aqui apresentada.

Aliás, a capacidade que o jogo tem de absorver várias mecânicas diferentes e contextualizá-las é um dos maiores méritos dele. A campanha dura umas quinze horas, mas há um amontoado considerável de atividades adicionais que podem ser do proveito do jogador, como um sistema de pescaria tradicional ou batalhas de insetos, por exemplo. Eu iria até falar, novamente, de como isso remete à IP do Ryu Ga Gotoku, mas agora acho que seria apenas chover no molhado.




Talvez o único obstáculo enfrentado por In The Jungle seja justamente a sombra que o jogo original ainda projeta sobre o DLC. Quando ele saiu, lá atrás, em 2023, era uma experiência que oferecia uma originalidade bacana dentro desse espaço dos jogos de gerenciamento e aventura. Daí, embora a nova campanha tenha seu frescor e se esforce bastante para isso, parte desse encanto parece ter se esvaído um pouco.

Dave, o Explorador

De um modo geral, Dave the Diver: In the Jungle é uma experiência sólida, que consegue ser bem-sucedida em seu propósito de mostrar que aquele universo tem uma boa margem de crescimento, seja em nível narrativo, expandindo  sua mitologia, seja em nível mecânico, aventurando-se por outros gêneros, como é o caso do RPG de turnos. Apesar de ser apenas um mergulhador, Dave conseguiu se virar muito bem em terra firme.

Prós

  • Novo cenário consegue transmitir identidade própria, em vez de parecer apenas um mapa adicional;
  • Excelente variedade de minigames e atividades paralelas;
  • A troca de ambientação traz um frescor bem-vindo ao título.

Contras

  • Os segmentos de RPG por turnos podem não agradar a uma parcela da audiência cativa;
  • A narrativa dificilmente alcança o mesmo senso de descoberta e mistério da campanha original.
 
Dave the Diver: In the Jungle — PC/PS4/PS5/XSX/NS/NS2 — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Mariana Marçal
Análise produzida com cópia digital cedida pela MINTROCKET

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João Pedro Boaventura
É jornalista formado pelo Mackenzie e pós-graduado em teoria da comunicação (como se isso significasse alguma coisa) pela Cásper Líbero. Tem um blog particular onde escreve um monte de groselha e também é autor de Comunicação Eletrônica, (mais um) livro que aborda história dos games, mas sob a perspectiva da cultura e da comunicação.
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