Moonsigil Atlas aposta em uma ideia única para um roguelike de construção de baralhos: em vez de usar pontos de ação ou energia para executar movimentos, encaixamos formas em um tabuleiro. O resultado é um sistema que mistura planejamento espacial, combinações elaboradas e uma sensação constante de improviso durante as batalhas. Há profundidade e possibilidades escondidas em seus sistemas, mas a experiência também revela algumas limitações ao longo do caminho.
Entre cartas, símbolos e constelações
O universo está ameaçado pelo despertar de Titãs que se alimentam de vida e luz, o que coloca toda a existência em risco. Um ser chamado Agrilhoado, aprisionado por essas entidades, pede auxílio para derrotá-las em troca de uma recompensa valiosa. A partir daí, três indivíduos decidem aceitar essa proposta e iniciam uma jornada repleta de criaturas hostis e perigos espalhados pelo caminho.O funcionamento das batalhas é o principal diferencial do jogo. Em cada turno, recebemos um conjunto de cartas, e cada uma delas representa uma forma composta por triângulos que precisam ser encaixados em um tabuleiro. Diferente de outros representantes do gênero, não existe uma barra de energia determinando quantas ações podem ser executadas: enquanto houver espaço disponível, podemos continuar posicionando cartas e ativando efeitos.
Além do formato geométrico, as formas também possuem propriedades que modificam seu comportamento dentro da batalha. Algumas ativam efeitos ao serem posicionadas próximas umas das outras, outras permanecem no tabuleiro por vários turnos ou deixam símbolos capazes de fortalecer ações futuras. As runas presentes em algumas peças adicionam outra camada estratégica, já que alteram atributos e criam novas interações.
A campanha segue a estrutura tradicional dos roguelikes, com rotas ramificadas que apresentam batalhas, eventos para alterar formas, remover cartas ou receber melhorias. Entre uma tentativa e outra, novos conteúdos são desbloqueados para futuras jornadas, ampliando gradualmente as possibilidades disponíveis.
Geometrias do caos e da tática
A primeira impressão que Moonsigil Atlas transmite é a de estar tentando algo diferente sem parecer complicado de propósito. Sua principal mecânica é bastante intuitiva: observar uma peça, encontrar um espaço adequado e tentar aproveitar cada área livre do tabuleiro. O interessante é que, após alguns minutos, percebemos que existe uma profundidade muito maior escondida nessa simplicidade inicial.As batalhas criam uma mistura interessante entre planejamento e posicionamento. Com um pouco de perícia e também alguma sorte nas compras de cartas, podemos preencher praticamente toda a área disponível, criando sequências longas de ações. Existem muitas possibilidades dentro dos sistemas: cartas que permanecem ativas por vários turnos, habilidades capazes de limpar o tabuleiro inteiro, efeitos que permitem comprar novas mãos e diferentes formas de manipular a ordem das ações.
As próprias criaturas ajudam a tornar os confrontos mais movimentados. Algumas criam regiões perigosas que não devem ser ocupadas, outras bloqueiam espaços ou alteram o formato do cenário ao destruir partes do tabuleiro. Isso impede que as batalhas se transformem apenas em exercícios repetitivos de encaixe, forçando-nos a readaptar as estratégias constantemente.
Os três personagens disponíveis também mudam bastante a forma de pensar de cada tentativa. O mago Feldryn fortalece efeitos especiais das formas; a feiticeira Aladara trabalha ao redor do descarte e recuperação de cartas, podendo ativar habilidades extras ao preencher completamente o tabuleiro; enquanto o guerreiro Tark’thul aplica condições negativas e utiliza cartas que permanecem presentes por mais tempo. Mesmo dentro dos arquétipos dos heróis, há espaço para criar baralhos com táticas distintas.
A variedade de combinações entre cartas e artefatos acaba sendo uma das maiores qualidades da experiência. Em uma partida, foquei em descartar cartas constantemente, fortalecendo suas propriedades antes de recuperá-las todas de uma vez. Em outra, construí uma estratégia baseada em suportar ataques enquanto acumulava efeitos de queimadura e redução de defesa até destruir inimigos com poucos golpes. Experimentar novas ideias é divertido e gera aquela sensação agradável de descobrir algo inesperado por conta própria. E, para quem dominar seus sistemas, ainda existem vários níveis adicionais de dificuldade para prolongar a experiência.
Quando as estrelas param de surpreender
Moonsigil Atlas oferece uma boa gama de situações ao mesclar seus diferentes elementos. No entanto, mesmo com personagens distintos e uma boa quantidade de cartas, comecei a sentir certa limitação após várias partidas. Existem combinações distintas, mas faltam mais relíquias e efeitos realmente transformadores capazes de mudar drasticamente as abordagens. Depois de algum tempo, algumas construções começam a parecer próximas demais umas das outras.A estrutura também contribui para essa sensação. As partidas possuem foco quase absoluto nos combates e oferecem poucas surpresas pelo caminho. Existem eventos ocasionais para modificar as formas ou o baralho, mas a progressão acaba seguindo padrões muito semelhantes entre uma tentativa e outra. Falta variedade capaz de gerar momentos inesperados ou alterar significativamente o ritmo.
A interface apresenta uma situação parecida. Ela é limpa, organizada e funciona bem na maior parte do tempo, mas algumas decisões atrapalham a leitura estratégica. Em determinados momentos, é difícil identificar rapidamente quais efeitos especiais estão ativos nas formas posicionadas no tabuleiro, algumas descrições poderiam ser mais objetivas e a ferramenta que permite testar encaixes antes de confirmar uma jogada nem sempre oferece segurança suficiente, especialmente quando entram em cena cartas que mudam de forma durante sua utilização.
Também senti falta de uma identidade mais marcante na ambientação: os inimigos, em sua maioria, são criaturas sombrias relativamente parecidas entre si; os cenários mudam pouco além de pequenas alterações de cor; e a trilha sonora é composta de músicas de fantasia competentes, mas sem grande personalidade. A história é praticamente inexistente, o que dificulta nossa conexão com esses personagens. O resultado é um universo funcional, mas sem muita personalidade.
Por sorte, como outros jogos do estilo, há espaço para evolução aqui por meio de atualizações futuras. A base já funciona muito bem, mas um pouco mais de variedade de conteúdo e ajustes na interface podem tornar a experiência ainda melhor.
Uma constelação de bom brilho
Moonsigil Atlas apresenta uma proposta criativa que consegue justificar sua existência em um gênero cheio de ideias parecidas. Seu sistema de encaixar formas no tabuleiro adiciona uma camada estratégica muito interessante, as possibilidades de combinações são amplas e os personagens conseguem alterar significativamente a forma como encaramos cada tentativa.Mesmo que algumas limitações apareçam ao longo das partidas, como a repetição estrutural e uma ambientação que poderia ter mais personalidade, a experiência mantém qualidades suficientes para se tornar envolvente. Se futuras atualizações ampliarem a variedade, refinarem alguns sistemas e acrescentarem mais conteúdo, Moonsigil Atlas tem tudo para se tornar uma experiência ainda mais memorável.
Prós
- Sistema de combate criativo baseado em encaixe de formas no tabuleiro;
- Grande variedade de combinações entre cartas, runas e artefatos;
- Personagens com estilos de jogo distintos e estratégicos.
Contras
- Estrutura das partidas pode se tornar repetitiva com o tempo;
- Interface apresenta problemas de leitura em algumas situações;
- Ambientação e identidade visual têm pouca personalidade.
Moonsigil Atlas — PC — Nota: 8.0
Revisão: Vitor Tibério
Análise produzida com cópia digital cedida pela Twin Sails Interactive
Análise produzida com cópia digital cedida pela Twin Sails Interactive











