Mina the Hollower é o novo trabalho da Yacht Club Games, estúdio conhecido por Shovel Knight, e rapidamente mostra que não está tentando apenas repetir uma fórmula já conhecida. A aventura nos leva por uma ilha extensa e repleta de segredos, combinando uma estética que remete aos jogos portáteis dos anos 1990 com ideias modernas de exploração e progressão. Mesmo apresentando alguns problemas de ritmo e certas decisões que podem causar frustração, a experiência consegue se sustentar com muita personalidade e um mundo surpreendentemente intrincado.
Ecos de caos sob a Ilha Tenebrosa
Mina, uma inventora e integrante da guilda dos Escavadores, trouxe progresso à Ilha Tenebrosa ao criar torres capazes de gerar energia. Dez anos depois, ela recebe um pedido de ajuda de Lionel, o prefeito da principal cidade: um grupo está sabotando os geradores e comprometendo a paz do local. A ratinha decide atender ao apelo imediatamente, mas chegando lá a situação se revela mais complicada, pois há monstros e outros perigos ameaçando a ilha. Diante disso, Mina decide consertar os geradores ao mesmo tempo que tenta descobrir qual é a origem das criaturas corrompidas.Na prática, a aventura combina ação, exploração e resolução de desafios em um mundo amplo e interconectado. Mina possui um conjunto pequeno de movimentos, mas cada um deles recebe bastante atenção durante a jornada. Podemos atacar utilizando sua arma principal, saltar e também mergulhar no solo com a habilidade de escavar, que funciona tanto para atravessar obstáculos quanto para evitar ataques ou alcançar locais escondidos.
Além disso, existem sistemas complementares que ampliam as possibilidades. As armas secundárias possuem usos limitados e costumam ser encontradas durante a exploração, fazendo com que troquemos constantemente de ferramentas dependendo da situação. Também há os Apetrechos equipáveis, itens que oferecem efeitos diversos: alguns reforçam características da heroína enquanto outros modificam a forma como interagimos com os desafios, abrindo possibilidades que mudam significativamente a maneira de avançar.
Um mundo que recompensa a curiosidade
À primeira vista, Mina the Hollower parece seguir uma estrutura simples, mas rapidamente mostra uma escala muito maior do que a aparência inicial sugere. O que começa como uma aventura aparentemente modesta se transforma em algo extenso e envolvente, com um ritmo que constantemente alterna entre combate, exploração, plataformas e quebra-cabeças.A transição entre essas atividades acontece de maneira muito natural. Em um momento estamos empurrando plantas especiais para utilizá-las como trampolins e alcançar lugares distantes; pouco depois, precisamos escavar passagens para conduzir fluxos de lava até cristais para destruí-los; em outra situação, o desafio muda completamente e exige saltos precisos enquanto criaturas voadoras circulam pelo cenário. A variedade é impressionante.
Fiquei particularmente surpreso com a criatividade empregada nos poucos movimentos de Mina. O ato de escavar, principalmente, vai muito além de uma habilidade curiosa. O jogo reaproveita essa mecânica constantemente, sempre apresentando novas aplicações. Mesmo após várias horas, ainda surgiam situações inéditas que utilizavam ideias já conhecidas de formas inesperadas.
A ilha transborda de conteúdo. Existem segredos escondidos em praticamente todos os cantos com áreas opcionais, confrontos extras e caminhos alternativos espalhados pelo mundo. A progressão oferece bastante liberdade, permitindo resolver determinadas situações em ordens diferentes — como a campanha raramente exige itens específicos para avançar, muitas vezes podemos experimentar alternativas. Particularmente, me diverti bastante testando diferentes combinações de armas e apetrechos para encontrar soluções ou descobrir atalhos.
Apesar disso, a exploração apresenta alguns problemas. Os recursos de viagem rápida são custosos de usar e muito espalhados pela ilha, tornando necessário repetir trajetos complicados ao revisitar áreas. A ausência de um mapa tradicional também dificulta lembrar pontos importantes para retornar depois ou identificar regiões ainda não exploradas. Como quase todas as telas possuem algo acontecendo, voltar constantemente por locais já visitados pode se tornar cansativo. Com o tempo aprendemos a contornar essas limitações, mas acredito que ajustes nessas áreas tornariam o ritmo da aventura ainda melhor.
Entre golpes, armadilhas e insistência
O combate de Mina the Hollower exige atenção constante. Posicionamento, observação dos ataques inimigos e escolha do momento certo para agir fazem bastante diferença, e a estrutura lembra certos conceitos presentes em jogos mais punitivos. Aqui a desatenção é punida fortemente, então quase toda vitória exige alguma dose de cuidado e perícia.Ao longo da campanha encontramos diferentes armas principais, incluindo chicotes, martelos, facas e até mesmo um caixão. Cada uma delas altera significativamente o ritmo das batalhas, incentivando abordagens diferentes. Há também armas secundárias temporárias, como machados arremessados em arco, recipientes capazes de drenar energia dos inimigos e lâminas que retornam como bumerangues. Combinando essas opções, é possível montar diferentes táticas para dar conta dos monstros.
A esquiva depende principalmente do movimento de escavar, mas sua execução exige um pequeno preparo antes da ativação, tornando importante antecipar movimentos adversários. A recuperação de vida segue uma lógica semelhante: primeiro precisamos atacar inimigos para acumular Plasma e apenas depois a cura passa a funcionar. Além disso, ao morrer é necessário retornar ao local da derrota para recuperar recursos perdidos.
Somado à agressividade dos inimigos e à quantidade de ameaças presentes simultaneamente, o resultado são confrontos que podem se tornar bastante intensos. Há muitos chefes pela aventura e eles se destacam com confrontos bem distintos, às vezes apresentando elementos de puzzle, às vezes exigindo domínio de técnicas diferentes — a variedade e o alto desafio deles são um dos pontos altos da jornada.
No entanto, nem tudo funciona perfeitamente. Mina possui movimentos um pouco engessados, podendo atacar somente em quatro direções, enquanto alguns inimigos se movimentam com muita agilidade. Certas áreas ainda contam com buracos e armadilhas que punem qualquer erro com severidade, e algumas áreas de dano de inimigos parecem maiores do que deveriam. O resultado são momentos frustrantes em que parecemos que não estamos completamente no controle.
Ainda assim, conforme a aventura se desenrola, fui percebendo uma melhora significativa na experiência. Os aprimoramentos reduzem a punição dos erros e mudar equipamentos pode transformar completamente situações difíceis. Houve momentos em que consegui superar obstáculos apenas alterando minha configuração de equipamentos e, mais tarde, até derrotar alguns chefes inesperados logo na primeira tentativa. Há uma curva de aprendizado significativa e é necessário ter um pouco de insistência, mas uma vez entendidas as nuances, os embates fluem muito melhor.
Em um universo curioso e cheio de personalidade
A primeira impressão causada por Mina the Hollower vem do visual. O jogo utiliza pixel art de baixa resolução e trilha sonora chiptune para recriar a aparência dos portáteis antigos, especialmente do Game Boy Color. Entretanto, isso não significa abrir mão de recursos modernos: as animações são fluidas, a interface é organizada e tudo parece muito mais refinado do que a inspiração inicial faria imaginar.Mesmo seguindo limitações visuais específicas, a aventura esbanja personalidade. Mina possui animações muito expressivas, os personagens apresentam comportamentos marcantes e existe uma enorme quantidade de indivíduos interessantes espalhados pela campanha. O texto ajuda bastante nesse aspecto ao manter diálogos leves e agradáveis, algo ainda melhor graças à localização completa para português.
A própria temática também chama atenção. A mistura entre tecnologia, elementos góticos e animais antropomórficos cria uma identidade bastante peculiar. Ao longo da ilha encontramos catacumbas, praias cobertas por areia roxa, cidades impulsionadas por tecnologia a vapor e pântanos dominados por criaturas que parecem ter saído de histórias de horror cósmico. Cada região possui características próprias, tanto em mecânicas quanto em cores e identidade visual.
Em alguns momentos a leitura dos cenários pode causar certa confusão, especialmente ao identificar alturas diferentes, mas são situações pontuais. Já a trilha sonora cumpre bem seu papel ao reforçar a atmosfera da aventura, embora poucas melodias se destaquem. Ainda assim, a quantidade de conteúdo impressiona, com uma jornada que facilmente ultrapassa dezenas de horas, além de incluir New Game+ e modificadores que incentivam novas partidas.
Uma escavação que vale a pena
Mina the Hollower reúne exploração extensa, um mundo cheio de personalidade, grande variedade de situações e sistemas capazes de surpreender constantemente. Alguns problemas aparecem durante a jornada, especialmente envolvendo deslocamento entre áreas, certas limitações do combate e pequenos momentos de frustração, mas nenhum deles é suficiente para diminuir a força do conjunto.Poucos jogos conseguem transformar mecânicas aparentemente simples em algo tão criativo e envolvente. Entre segredos espalhados por todos os lados, confrontos memoráveis e uma ilha que parece guardar novas descobertas a cada canto, Mina the Hollower mostra que existe muito mais escondido sob a superfície do que a aparência retrô inicialmente sugere.
Prós
- Exploração ampla repleta de segredos e áreas opcionais;
- Mecânica de escavar criativa e muito versátil;
- Grande variedade de situações e desafios;
- Mundo carismático com forte identidade visual;
- Progressão aberta com boas opções de customização.
Contras
- Viagem rápida limitada e ausência de mapa tornam a exploração cansativa;
- O combate pode parecer engessado em certos trechos;
- Problemas de clareza visual atrapalham em momentos pontuais.
Mina the Hollower — PC/PS5/XSX/Switch/Switch 2 — Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Vitor Tibério
Análise produzida com cópia digital cedida pela Yacht Club Games
Análise produzida com cópia digital cedida pela Yacht Club Games















