gamescom latam 2026: David Wise, lendário compositor da indústria de jogos, bate um papo sobre sua carreira com o GameBlast

Pioneiro da game music também explicou sua parceria com os Game Boys, banda com quem se apresentou em dois dias do evento.

em 06/05/2026


Durante a gamescom latam 2026, o GameBlast conversou com David Wise, lendário compositor que marcou gerações com seu trabalho na Rare em clássicos como Donkey Kong Country e Battletoads. Presente no evento como convidado especial, Wise falou sobre sua apresentação ao lado dos Game Boys, relembrou os bastidores de sua entrada na indústria, refletiu sobre a evolução da música nos videogames, de suas limitações técnicas no passado à competitividade e sofisticação atuais, além de temas como o impacto de sua obra na cultura de fãs. Confira na íntegra:


GameBlast: Primeiro de tudo, é uma honra poder bater esse papo contigo, de verdade. Toda vez que começavam a especular convidados estrangeiros da indústria para virem para o Brasil, eu pensava "David Wise seria um cara incrível!"

David Wise: Brilhante!

GameBlast: Então, vamos lá. Assisti ao show ontem, foi uma experiência maravilhosa. Como surgiu essa parceria com os Game Boys? 

Wise: Rica, o guitarrista, veio falar comigo há uns dez anos e sugeriu para que nós fizéssemos algo juntos. Aí foram dez anos tentando fazer as coisas darem certo até que, finalmente, dez anos depois, vieram agora o Rico, e o tecladista, Wilson. Então foi um tempão em produção. 

GameBlast: Rolou uma grande sinergia ontem, vocês foram incríveis.

Wise: Obrigado! E tenho certeza que seremos ainda mais fluidos hoje. Tivemos um pequeno problema com o som ontem, e espero que dessa vez sejamos um pouco mais fluidos! Mas fico feliz que tenha gostado!




GameBlast: Falando um pouco da sua carreira, você começou compondo lá atrás para o NES. Como é ser pioneiro e compor música de videogame numa época que não se ligava muito para esse conceito de "game music"?

Wise: Eu comecei a compor quando eu tinha de uns doze para treze anos. Meus pais tinham um piano em casa, meu irmão tinha aulas de piano e eu também queria fazer essas aulas, mas não tínhamos como pagar aulas para os dois. Então meu irmão ia para a aula e eu só ficava aprendendo e acompanhando o que ele fazia no piano de ouvido. Foi uma forma de treinar e quando aprendi a compor. Foi o começo de tudo.

Certo dia, teve uma vez que eu estava trabalhando em uma loja de instrumentos e um senhor veio até mim. Foi quando ele me ofereceu um trabalho em uma empresa de videogame que se chamava Rare. Foi quando eu comecei a compor. 

GameBlast: E agora todo mundo todo mundo conhece a música do Donkey Kong Country, da Rare, mas e agora? Como você vê agora a evolução da música nos videogames? É mais fácil? mais difícil? Ou só diferente?

Wise: É só diferente. Já era difícil naquela época por causa do hardware, e é difícil agora porque tem muito mais competição. Tem um monte de novas técnicas de produção que precisamos seguir aprendendo de forma contínua, o que é ótimo, mas se continuar fazendo o mesmo que no passado, as coisas vão ficar meio chatas, então é uma evolução constante, o que eu gosto.

É como o lado psicológico de uma pessoa, que vai querer se tornar melhor a cada dia. O mesmo acontece com a música, você tenta seguir em frente. Evoluir com a música. 




GameBlast: Agora sobre o carro chefe, que acaba sendo Donkey Kong Country, como é ter o prestígio de compor bastante pela Rare, aí a Nintendo assume a IP e ainda assim te chamou pra fazer música nova para o Tropical Freeze? Eu adoro Homecoming Hijinx, aliás!

Wise: Obrigado! E foi ótimo! Eu soube que ia trabalhar com a Nintendo no dia que deixei a Rare. Quando eu estava prestes a deixar a Rare, alguns meses antes, eu recebi uma ligação e perguntaram se eu tinha interesse em trabalhar para a Nintendo, mas de forma direta. Aí eu fiquei um ano sem compor e, quando voltei, eu estava lá em Austin, Texas, trabalhando com o time do Tropical Freeze. 

GameBlast: Pensando de um jeito mais amplo, qual série você nunca trabalhou e adoraria participar de alguma forma? 

Wise: Ah, tem várias! Não vou nomear nenhuma em específico porque senão vão querer forçar "David Wise quer trabalhar na série blá, blá, blá", mas qualquer coisa com profundidade que me oferecerem é algo que com certeza eu me interessaria. Então tem vários jogos no momento que seriam excelentes títulos para trabalhar.

GameBlast: E com filmes? Televisão? Já teve alguma proposta?

Wise: Já considerei alguns filmes, mas é algo que ainda falta se concretizar, então nunca se sabe.



GameBlast: Sua música virou objeto de remix, estudo e é embala um monte de memes na internet... como você vê essa relação com fãs? 

Wise: É uma grande honra, obviamente. As pessoas usam as minhas músicas porque cresceram com ela. Usam elas em memes porque as adoram, o que é ótimo. É excelente saber que a música que você cria significa tanto para tantas pessoas. Ver esses memes todos, então, é um sentimento incrível. 

GameBlast: Quais seriam as composições favoritas? Pergunto isso porque todo artista geralmente tem algum trabalho que é menos popular, mas ainda tem um apego muito específico a ele. 

Wise: Eu não consigo me lembrar do título original de dessa música, mas ela agora é a Seashore War e é do Tropical Freeze. Eu realmente adoro aquela lá. Ela foi originalmente composta para a fase da savana e as adaptamos para a fase do gelo. Mas me refiro à composição original, que é a que eu gosto, e meu amigo, um guitarrista do Reino Unido chamado Phil Jordan, era o guitarrista na gravação original, então essa daí eu a considero especial. 


GameBlast: Se você tivesse que definir o “som David Wise” em uma frase, qual seria?

Wise: Se voltarmos lá atrás para o Super Nintendo, tínhamos que incorporar um tipo de som atmosférico na trilha do ritmo. Então eu tinha que botar o som dos pássaros, dos sapos, e fazê-los parte trilha da percussão. E é isso o que veio a definir o som de David Wise. Então é a escolha de usar sons atmosféricos, ambientais, como parte da trilha.

GameBlast: Então é a questão atmosférica, a ambiência...

Wise: Ambiência rítmica. Essa faz sentido. 

GameBlast: Para encerrar: o David Wise lá atrás imaginaria que chegaria a esse ponto?

Wise: É engraçado, porque quando eu tinha 17, 18 anos, eu queria ser uma estrela do rock e meu músico favorito naquela época era o Phil Collins. E eu queria ser um cara do mesmo jeitão do Phil Collins. Isso não deu muito certo, apesar de nós dois termos o mesmo cabelo [risos]. Mas então foi muito bom... Nunca imaginei viajar pelo mundo e tocar em diferentes lugares assim. É meio doido, mas eu adoro!

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João Pedro Boaventura
É jornalista formado pelo Mackenzie e pós-graduado em teoria da comunicação (como se isso significasse alguma coisa) pela Cásper Líbero. Tem um blog particular onde escreve um monte de groselha e também é autor de Comunicação Eletrônica, (mais um) livro que aborda história dos games, mas sob a perspectiva da cultura e da comunicação.
Este texto não representa a opinião do GameBlast. Somos uma comunidade de gamers aberta às visões e experiências de cada autor. Você pode compartilhar este conteúdo creditando o autor e veículo original (BY-SA 4.0).