Final Fantasy XII e o excelente retorno a Ivalice

Lançado há 20 anos, o ambicioso décimo segundo título da franquia da Square Enix oferece uma experiência robusta e muito divertida.

em 08/05/2026
O início dos anos 2000 marcou um período de transição turbulento para a Square. Após o fracasso do filme Final Fantasy: The Spirits Within, a empresa enfrentou dificuldades financeiras significativas, culminando em uma série de reestruturações internas e, em 2003, na fusão com a Enix. Nesse cenário de incertezas, cada novo projeto passou a carregar um peso ainda maior do que o habitual, especialmente dentro de sua principal franquia de RPGs, cujo último título, apesar dos bons números, havia sido uma experiência completamente online.

Felizmente, em 2006, após um longo período de cinco anos de desenvolvimento, Final Fantasy XII chegou ao PlayStation 2 trazendo ousadia tanto em seus sistemas quanto em sua abordagem narrativa, ao mesmo tempo em que preservava elementos clássicos da série. Como resultado, o jogo alcançou grande sucesso comercial e se consolidou como uma das entradas mais robustas da franquia e do gênero.

Ivalice e sua densidade política

Final Fantasy XII é ambientado no mundo de Ivalice, onde os impérios de Archadia e Rozarria estão em constante disputa por influência militar e política. Entre essas duas grandes potências encontram-se reinos menores, como Dalmasca e Nabradia, cujas localizações os tornam especialmente vulneráveis às ambições expansionistas de seus vizinhos.

Na tentativa de fortalecer suas defesas diante dessa ameaça, Dalmasca e Nabradia estreitam seus laços por meio de uma aliança selada pelo casamento entre a princesa Ashe e o príncipe Rasler. Infelizmente, com a invasão e o domínio de Nabradia pelo Império Archadiano, o jovem Rasler é morto em combate, e sua capital é destruída.

Para piorar a situação, o rei Raminas, de Dalmasca, é assassinado durante as negociações de rendição, em uma conspiração orquestrada por Vayne Solidor, herdeiro do Império Archadiano. Pouco depois, a falsa notícia espalhada pelos invasores sobre a suposta morte da princesa Ashe extingue qualquer esperança de continuidade da família real, consolidando a ocupação de Dalmasca por Archadia.

Dois anos após esses acontecimentos, a história passa a acompanhar Vaan, um dos vários jovens órfãos que carregam as marcas deixadas pela guerra, como a perda de seu irmão. Ao se infiltrar no palácio real, ele acaba se envolvendo em uma operação de um grupo de resistência de Dalmasca, além de cruzar o caminho do pirata dos céus Balthier e de sua parceira Fran.

Depois de uma série de eventos, o grupo encontra e se une a Basch, acusado injustamente de assassinar o rei, além de Penelo, amiga de infância de Vaan, e da própria Ashe, que lidera a resistência em prol da soberania de Dalmasca. Embora cada um tenha motivações próprias no início, todos acabam convergindo para o mesmo objetivo: a libertação do reino. Vale destacar ainda que, embora Vaan seja apresentado como protagonista, é a princesa viúva quem possui o arco narrativo mais significativo, sendo suas ações e objetivos os principais guias da jornada.

É importante mencionar também que, até meados de 2005, durante boa parte do desenvolvimento de Final Fantasy XII, Yasumi Matsuno (que já havia criado e explorado Ivalice em Final Fantasy Tactics, spin-off lançado para o PlayStation original em 1997) atuou como diretor e principal responsável pela história. 

Isso se reflete diretamente no tom da narrativa, pois, assim como naquele game, Final Fantasy XII apresenta um mundo onde intrigas políticas, disputas de poder e interesses de grandes nações têm um peso muito maior do que as ações individuais de seus protagonistas. Em razão disso, temos uma trama de alto nível e mais densa do que a da maioria dos demais títulos principais, na qual os personagens frequentemente são conduzidos pelos acontecimentos, em vez de moldá-los.

Um mundo fascinante

Ambientado em uma versão de Ivalice situada em eras anteriores aos eventos de Final Fantasy Tactics, Final Fantasy XII retrata um período em que o mundo ainda contava com uma tecnologia altamente avançada, além de uma convivência mais ampla entre diferentes raças. Aqui, humanos dividem espaço com povos como Viera, Bangaa, Seeq e Moogles, seres já conhecidos por suas aparições em Final Fantasy Tactics Advance, lançado em 2003 para o Game Boy Advance.

Além de tornar o mundo visualmente mais rico por meio dessa pluralidade, o jogo também reforça sua densidade narrativa através da construção de suas regiões, evidenciando os impactos da guerra no cotidiano da população. Em Rabanastre, por exemplo, é possível perceber a presença constante das forças de ocupação e o clima de tensão entre os habitantes. Esse cenário se reflete também na grande quantidade de crianças órfãs, muitas das quais sobrevivem graças a pequenos trabalhos oferecidos por comerciantes locais.

A exploração desse mundo se dá por meio de uma perspectiva em terceira pessoa, com câmera livre, em áreas amplas e interconectadas, com cada região apresentando características próprias, tanto visuais quanto geográficas e, em algumas situações, até variações climáticas. Embora o título conte com um mapa que facilite bastante a navegação, há uma quantidade absurda de segredos, tesouros e caminhos alternativos que recompensam os jogadores mais curiosos.

Um novo nível para o combate

O sistema de combate de Final Fantasy XII se integra diretamente à proposta ambiciosa de seu mundo e pode ser entendido como uma evolução do clássico sistema Active Time Battle (ATB), utilizado em boa parte de seus antecessores. Aqui, o jogo adota o chamado Active Dimension Battle, que abandona os encontros aleatórios e apresenta inimigos circulando livremente pelo cenário, fazendo com que os confrontos ocorram sem qualquer tipo de transição.

Essa abordagem não apenas contribui para a sensação de um mundo mais vivo, já que muitos monstros possuem comportamentos distintos, como também torna a jogabilidade extremamente dinâmica. Durante as lutas, o jogador pode optar por executar manualmente ações como ataques, magias, técnicas e uso de itens sempre que a barra de tempo é preenchida, ou recorrer ao sistema de automatização conhecido como Gambits, que permite programar previamente o comportamento dos heróis.

O nível de customização dos Gambits é muito elevado e, ao menos para mim, representa um dos elementos mais divertidos de Final Fantasy XII. Por meio dessa mecânica, é possível definir diversas condições e ações correspondentes. Para citar exemplos básicos, podemos programar o uso de um antídoto sempre que um aliado estiver envenenado, lançar magias de cura quando a vida de um parceiro cair abaixo de determinada porcentagem ou utilizar Phoenix Down em membros do grupo derrotados.

Aliado a isso, a enorme quantidade de habilidades e magias disponíveis faz com que o sistema de combate se torne cada vez mais personalizável ao longo da jornada. Vale ressaltar que o jogo também acerta ao propor desafios que exigem domínio de suas mecânicas. Isso não se limita apenas aos chefes em momentos mais avançados da campanha, mas se estende principalmente ao conteúdo opcional, com destaque para as Hunts, que são caçadas envolvendo dezenas de criaturas com níveis de dificuldade progressivamente maiores.

Muitos desses inimigos mais complexos fazem uso de uma ampla variedade de efeitos negativos e contam com diferentes tipos de resistência e fraqueza, incentivando o jogador a compreender cada vez mais todas as mecânicas e a adaptar suas configurações estrategicamente. Nesse sentido, vale ressaltar que conseguimos alterar os Gambits, os membros do grupo e os equipamentos a qualquer momento durante os confrontos, desde que o personagem não esteja executando alguma ação.

Outro ponto que torna as batalhas recompensadoras em Final Fantasy XII é o fato de que os inimigos não derrubam dinheiro diretamente, mas sim itens que podem ser vendidos. Ao comercializar determinados conjuntos de loot, o jogador desbloqueia inúmeros equipamentos especiais nas lojas, o que nos incentiva a sempre conferir o que as criaturas têm a oferecer. Além disso, o jogo conta com um sistema de acúmulos, no qual derrotar seres da mesma espécie em sequência aumenta as chances de obter itens mais raros e valiosos.

Dessa forma, graças à ampla liberdade proporcionada pelo sistema de Gambits, às batalhas que acontecem de forma contínua e às recompensas significativas por vencer oponentes, é difícil não se sentir motivado a entrar constantemente em confrontos enquanto nos aventuramos por Ivalice.

O que é bom pode, sim, melhorar

O aprimoramento de personagens em Final Fantasy XII é baseado no chamado License Board, um sistema que determina quais equipamentos, habilidades, magias e melhorias cada herói pode utilizar. Em vez de evoluírem por classes fixas, todos compartilham o mesmo grande tabuleiro, no qual desbloqueamos licenças utilizando pontos adquiridos em batalha.

Esse modelo oferece uma liberdade considerável, já que não há limites rígidos para o que cada combatente pode usar. No entanto, na versão original, essa liberdade também trazia um efeito negativo: como todos compartilham o mesmo tabuleiro, as diferenças entre os membros da equipe acabam sendo ínfimas, tornando-os, na prática, bastante similares ao longo do jogo.

Essa questão foi alterada em Final Fantasy XII International Zodiac Job System, lançado apenas no Japão em 2007. Essa versão reformulou completamente o sistema ao introduzir 12 classes, com cada personagem passando a seguir um tabuleiro específico de acordo com o job selecionado. Assim, a customização da equipe ficou mais focada, permitindo que cada combatente tenha uma função definida e aproveite melhor suas vantagens inatas. Outros acréscimos notáveis incluem mais Gambits e habilidades, além da possibilidade de controlar diretamente os Espers (summons), algo que não era possível na versão original.

Posteriormente, essa ideia foi refinada na remasterização Final Fantasy XII: The Zodiac Age, lançada inicialmente para PlayStation 4 em 2017 e posteriormente portada para outras plataformas. Essa versão expandiu ainda mais o sistema de classes ao permitir que cada personagem utilize dois jobs simultaneamente. Com essa nova abordagem, somos capazes de utilizar todas as classes em uma campanha, já que o grupo conta com seis heróis jogáveis. Outro acréscimo importante é a possibilidade de resetar e alterar as especializações.


Um dos pontos mais altos da franquia

Final Fantasy XII apresenta um dos universos mais interessantes da franquia e um dos sistemas de combate mais divertidos dos RPGs. Como se não bastasse sua qualidade original, o jogo ainda recebeu versões aprimoradas que expandiram e refinaram seus sistemas, tornando sua proposta ainda mais eficiente. Mesmo 20 anos após seu lançamento, o game permanece como um dos capítulos mais sólidos da série e uma obra obrigatória para qualquer fã do gênero.

Revisão: Heloísa D'Assumpção Ballaminut
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Lucas Oliveira
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