Análise: Prime Monster – fazendo política com as próprias garras

Com uma ambientação única e mecânicas diferentes, o título da Cavalier Game Studios tem um potencial subaproveitado devido à sua complexidade.

em 28/05/2026

O conceito de política pode ser definido como um processo de organização, tomada de decisões e distribuição de poder. É por meio dela que ações, leis e negociações são empregadas para administrar recursos, harmonizar interesses conflitantes e garantir a convivência pacífica entre os indivíduos de uma sociedade.

E quando essa sociedade é formada por monstros? Será que debates e acordos ficam de lado para que tudo se resolva com base em garras e mordidas? Bom… em parte, sim! Em Prime Monster, somos convidados a conhecer uma sociedade monstruosa que optou por resolver seus assuntos de forma mais democrática, sem abrir mão de sua natureza animalesca e sobrenatural. O resultado disso você confere na análise a seguir.

Uma distopia democrática

O mundo como o conhecemos não existe mais. Bom... em parte. Na verdade, foram os humanos que bateram as botas. Agora, o planeta é dominado por monstros dos mais variados tipos. Isso, porém, não os impediu de conviver com os mesmos problemas sociais que a humanidade enfrentou durante os milênios em que dominou a Terra.


A sociedade monstruosa se organizou e reviveu alguns dos antigos costumes humanos — dentre eles, a política. Como representante maior dos interesses públicos, está a figura do Prime Monster, ou “Primeiro Monstro”, em tradução literal.

Neste jogo, nossa função é assumir essa complicada posição de poder e usar argumentos para convencer os membros do parlamento monstro a apoiarem nossas causas em debates furiosos — literalmente — contra líderes opositores que desejam aprovar seus próprios projetos de lei. E tudo isso sem abrir mão de outros assuntos importantes, como a opinião popular, nossa reputação e, principalmente, os eleitores.

Ganhando apoio no grito ou nas… cartas?

Prime Monster toma emprestado elementos dos deck builders para construir sua jogabilidade. Os debates são sua principal dinâmica, conduzidos por meio de cartas que ditam as ações do jogador na partida e são usadas em turnos alternados entre ele e o atual líder da oposição.

O funcionamento do debate é o seguinte: cada lado possui membros do parlamento que devem ser convencidos a votar pela sua causa. Esse convencimento se dá por meio de pontos chamados Unity. Ao atingir uma determinada quantidade, um parlamentar é convencido e passa a apoiar sua causa — ou seja, você marca um ponto. A filiação de cada membro é indicada pela cor da base de sua peça. Caso ela não tenha cor definida, o parlamentar se absteve e não vale pontos para nenhum dos lados.


O objetivo é ter a maioria a seu favor, isto é, ter mais parlamentares apoiando sua causa do que a do opositor. As cartas disponíveis oferecem diferentes ações: fornecer Unity a si mesmo ou removê-la do oponente, fazendo-o perder influência no parlamento e conquistar menos apoio.

Acima do avatar do personagem adversário, ícones indicam o que ele pretende fazer no turno seguinte — um ataque, algum mecanismo de defesa, adição de Unity para ganhar apoio parlamentar e assim por diante. Isso nos dá uma pequena vantagem para preparar a próxima jogada e não sermos totalmente surpreendidos.

Paralelamente, algumas ações que consomem Political Points podem ser usadas para oferecer vantagens específicas, como fornecer defesa aos membros do parlamento, conceder bônus de dano ou impedir que parlamentares recebam determinados efeitos, entre diversos outros. Esses pontos podem ser obtidos nas etapas de intervalo entre os debates ou descartando uma carta em troca deles.


Por fim, cada um dos três personagens disponíveis possui uma habilidade especial única e bastante poderosa, capaz de dar uma bela ajuda durante o debate, mas que depende de ações do jogador para ser carregada e usada.

Em caso de vitória, o jogador pode escolher uma de suas cartas para ser aprimorada, além de receber dinheiro e outras recompensas para ajudar em sua escalada política. Em caso de derrota, a partida não termina, mas as perdas podem dificultar o processo, tornando a aquisição de melhorias — feitas no intervalo entre as partidas — mais difícil e limitada.

A verdadeira derrota pode ocorrer de duas formas. A primeira é perder a eleição, o que acontece quando o jogador não obtém apoio popular suficiente ao longo da run — indicado no medidor na parte superior central da tela. Caso tenha perdido algum debate no processo, mas ainda apresente bons números no fim do ano, você continua no cargo e bola pra frente.


A segunda maneira de ser derrotado em Prime Monster é a mais humilhante: perder muitos debates — geralmente mais de um — cria um clima de desconfiança junto aos membros do partido, e você é obrigado a enfrentar uma partida contra eles. Suas cartas, porém, não podem ser usadas; o jogador depende apenas de habilidades ativadas por poder político. Se tiver boas habilidades e pontos suficientes para resolver a situação, ótimo. Caso contrário, a derrota já ocorre no primeiro turno.

Complexo, porém viciante

A princípio, Prime Monster é um título bem atípico dentro do gênero de deck building — embora eu não o considere exatamente um deck building tradicional — por utilizar mecânicas peculiares e não depender exclusivamente das cartas para executar ações. É possível, apesar de bastante difícil, vencer sem usar diretamente o efeito de nenhuma carta, queimando todas em troca de pontos para ativar habilidades. Não é a estratégia ideal, nem recomendável, mas funciona.


Levei algum tempo para entender com mais clareza como o jogo funciona, já que boa parte da experiência gira em torno das escolhas feitas nos intervalos entre as partidas. Nessas etapas, o jogador pode comprar itens para usar durante a campanha, contratar funcionários que atuam como modificadores de jogo ao adicionar habilidades passivas especiais e escolher quais debates deseja enfrentar. A exceção fica para a primeira rodada, quando ainda não ocupamos o cargo de Primeiro Monstro e os debates são pré-determinados.

Escolher quem enfrentar no parlamento tem vantagens e desvantagens. Por um lado, é possível optar por pautas menos complexas — ou seja, partidas mais fáceis —, mas com recompensas menos atrativas. Por outro, desafios maiores costumam oferecer prêmios melhores, como dinheiro, opinião popular e outros bônus mais valiosos. As pautas representadas por cartas pretas são as mais difíceis e, geralmente, precisamos enfrentar pelo menos uma delas antes da eleição.


Um dos pontos que prejudicaram minha experiência em Prime Monster foi o desequilíbrio de poder de alguns líderes opositores. Certos personagens possuem habilidades extremamente fortes, capazes de impedir algumas ações do jogador e até causar prejuízos extras, como perda de dinheiro e de opinião popular.

Isso torna a tomada de decisão ainda mais complexa. Qual deve ser a prioridade na próxima jogada: reduzir o dano que vou receber ou tentar evitar alguma ação inesperada que possa comprometer ainda mais a partida? Causar dano ao oponente é necessário, mas, em alguns casos, isso pouco surte efeito contra adversários tão poderosos.

Prime Monster é um jogo complexo por causa de suas dinâmicas, que exigem o gerenciamento constante de diversos parâmetros. Depois de várias partidas, fica claro que não basta apenas montar um conjunto equilibrado de cartas entre ataque e defesa; também é preciso criar estratégias capazes de anular as ações dos oponentes. Mesmo que isso nem sempre funcione como esperado, entender esse processo é fundamental para avançar o máximo possível nessa curiosa forma de fazer política.

Com potencial para encarar um segundo turno

Prime Monster apresenta uma proposta bastante criativa ao misturar política, monstros e mecânicas inspiradas em deck builders em uma experiência estratégica pouco convencional. Sua ambientação ajuda a sustentar a identidade do jogo, enquanto os debates são transformados em confrontos com cartas e habilidades especiais que conseguem dar personalidade às partidas e criar situações imprevisíveis ao longo da campanha.


Apesar disso, a complexidade de algumas mecânicas e o desequilíbrio de determinados opositores acabam dificultando a experiência, principalmente nas primeiras horas. A sensação de progresso existe, mas exige dedicação para compreender sistemas que nem sempre são apresentados de forma clara ao jogador, o que demanda experimentação e aprendizado constantes.

Ainda assim, é evidente que há potencial em sua estrutura. A liberdade para criar estratégias, gerenciar recursos políticos e adaptar a abordagem conforme cada debate faz com que Prime Monster conquiste destaque dentro do gênero, mesmo sem seguir totalmente as convenções tradicionais dos jogos de deck building e criando algo único, tanto no bom quanto no mau sentido.

No fim, Prime Monster entrega uma experiência diferente e desafiadora, sustentada por boas ideias e uma temática carismática. Embora alguns ajustes de balanceamento e acessibilidade fossem bem-vindos, o jogo consegue oferecer partidas envolventes para quem estiver disposto a encarar sua natureza complexa e aprender a sobreviver nesse caótico parlamento monstruoso.

Prós

  • Ambientação criativa e carismática;
  • Mecânicas estratégicas diferenciadas;
  • Boa variedade de estratégias;
  • Progressão que incentiva a experimentação.

Contras

  • Curva de aprendizado elevada;
  • Desequilíbrio em alguns opositores;
  • Complexidade excessiva em certos momentos;
  • Balanceamento inconsistente.
Prime Monster — PC — Nota: 7.0
Revisão: Mariana Marçal
Análise produzida com cópia cedida por Cavalier Game Studios
OpenCritic
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Alexandre Galvão
Produtor do BlastCast. Entusiasta da era 16-bit, fã declarado do PS2 e apreciador de jogos de cartas e de tabuleiro. Jogador casual de muitos e hardcore em poucos. Também conhecido como @XelaoHerege
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