Análise: 007 First Light dá ao famoso espião um magnífico retorno ao mundo dos games

Conheça as origens de James Bond em um dos melhores jogos do ano.

em 28/05/2026

James Bond é um dos personagens mais famosos da cultura pop. Criado pelo escritor Ian Fleming, o agente secreto britânico do MI6 (Serviço Secreto de Inteligência do Reino Unido) é conhecido pelo codinome 007 e pela famosa licença para matar. Sua primeira aparição vem do livro Casino Royale, lançado em 1953.

Bond teve como inspiração figuras reais da inteligência britânica durante o período pós-Segunda Guerra Mundial, quando espionagem, tecnologia militar e tensão internacional foram alguns dos pilares da guerra de inteligência que surgiu após o conflito. Nos livros e filmes, o personagem é retratado combatendo organizações criminosas, terroristas e ameaças globais. Um de seus principais destaques é o charme, a inteligência e as boas doses de sorte para lidar com as mais diversas situações.
Ian Flemming
007 First Light
representa um marco importante para o personagem no mundo dos games. Após um hiato de mais de uma década sem novos títulos estrelando Bond, a IO Interactive — a mesma por trás dos excelentes jogos da série Hitman para as gerações atuais de consoles — ficou responsável por trazer o espião mais famoso do mundo de volta com uma história totalmente nova.

Toda lenda tem um começo

007 First Light é uma reimaginação das origens de James Bond no mundo da espionagem. Em vez de intrigas políticas pós-Segunda Guerra, a história desta nova versão do personagem se passa nos dias atuais. Aqui, Bond é um aviador da Marinha britânica que sofre um atentado com seu batalhão durante uma missão e acaba envolvido em uma conspiração de nível global.


Por conta de seu desempenho singular durante o incidente — que desmantelou a operação de um grupo terrorista na Islândia —, Bond é convidado a participar do programa de treinamento 00, antes extinto pelo governo britânico e recém-reativado com novos recrutas promissores. James é o sétimo membro do grupo e, sem muito a perder, aceita o convite.

Em First Light, temos a oportunidade de acompanhar como Bond ascendeu de prodígio a homem de confiança da chefia da MI6. A história conta com personagens memoráveis: os rivais que se tornaram melhores amigos de James, Cressida e Monroe; John Greenway, o instrutor que nunca deu o braço a torcer até reconhecer o valor de Bond em campo; e os vilões, que trazem aquele ar único de antagonistas da franquia, esbanjando comportamento egocêntrico e megalomaníaco.


Um destaque negativo fica para Lenny Kravitz, revelado como um dos nomes do elenco no papel de vilão cuja aparição não altera em nada o curso da trama. Tudo indica que o cantor foi escalado como estratégia de promoção do jogo, ou simplesmente resolveu participar por iniciativa própria.

O destaque maior fica para Patrick Gibson. O ator de 31 anos, conhecido pelo papel de Dexter Morgan na série Dexter: Pecado Original, entrega o melhor James Bond da atualidade. Enquanto muitos questionavam, à época do anúncio, se um Bond jovem com ego inflado seria um problema, First Light prova que é justamente o contrário. A escolha foi certeira, e o que recebemos foi o melhor James Bond que o cinema ainda não tem — Hollywood, fique de olho nesse cara.


Cheiro de Uncharted, rostinho de Hitman, sabor James Bond

O fato de a IO Interactive ser responsável pela série Hitman não é um mero registro. Por ser uma franquia bem recebida por crítica e público, boa parte do DNA daqueles jogos se mostra bem-vindo na concepção de First Light.

Por ser um título em que o foco é a espionagem, a dinâmica de Hitman se encaixa como uma luva na proposta do jogo. Uma das principais mecânicas envolve a interação em cenários grandiosos, populados de NPCs e com diversos objetivos a cumprir. Por ser algo mais narrativo e linear, porém, não há tanta liberdade quanto no papel de um assassino profissional — afinal, aqui somos espiões a serviço de Vossa Majestade.


Um dos melhores exemplos dessa dinâmica está na primeira missão de campo de James após o treinamento com a MI6. Bond e os demais recrutas são designados para rastrear um agente renegado que pode estar presente durante um torneio de xadrez em um majestoso hotel-castelo na Eslováquia.

A dinâmica de jogo nesta e em outras operações resume-se em se infiltrar no local para colher informações de forma furtiva. James pode usar seus dispositivos para hackear eletrônicos, criar distrações e incapacitar indivíduos que possam impedir seu progresso. Outras ações incluem se misturar à multidão para evitar ser visto, ouvir conversas em busca de pistas sobre como acessar determinados locais e furtar objetos, como chaves, para entrar em áreas restritas.

Essa dinâmica é envolvente a tal ponto que o tempo passa sem que o jogador perceba, tamanha a dedicação em rastrear cada pista para alcançar determinado objetivo. A variedade de dispositivos disponíveis também pode influenciar nas decisões de abordagem, mas vale lembrar que sempre há mais de um caminho para alcançar um objetivo — seja pela porta da frente, pelos fundos ou pela claraboia. Os dispositivos de Bond também são úteis para criar distrações que criam janelas de oportunidade.


James conta ainda com a velha lábia para se livrar de situações inesperadas. Ao ser flagrado em um local restrito, ele pode simular uma rendição para surpreender o inimigo e neutralizá-lo, ou simplesmente contar uma mentira convincente para ganhar alguns segundos antes de precisar realmente dar no pé. Vale ressaltar que alguns inimigos não caem no papo de Bond, e o que sobra é resolver a situação de forma menos amigável.

O combate corpo a corpo entrega bons momentos, principalmente pela forma como o ambiente pode ser usado durante as brigas. James pode lançar objetos para atordoar inimigos antes de partir para cima, ou agarrá-los para golpeá-los em mesas, paredes e até lançá-los de bordas, como o parapeito de uma varanda. O maior problema nestes momentos é a câmera, que insiste em assumir ângulos pouco amigáveis e atrapalha mais do que ajuda.

Com uma arma em mãos, a situação muda de figura. James não está autorizado a usá-las a menos que o estado de Licença para Matar esteja ativo — condição acionada apenas quando o inimigo representa uma ameaça real à vida do agente, permitindo o uso de meios letais para controlar a situação.


O estado é indicado na parte superior central da tela e, no PlayStation 5, também pelo LED do controle DualSense, que muda de cor conforme a condição de alerta, oferecendo um apoio extra na leitura do momento.

Ainda assim, James pode neutralizar inimigos sem precisar matá-los. Tiros nas mãos, para desarmá-los, ou nas pernas, para imobilizá-los, são exemplos de abordagens violentas, porém menos letais, para quem quiser se desafiar. Os dispositivos também têm papel relevante nessas situações, permitindo atordoar inimigos diretamente ou usar elementos do ambiente para lidar com grupos numerosos.

Treinando para ser um agente melhor

Um modo paralelo disponível em 007 First Light é o Simulador Tático, ou TacSim. Trata-se de um modo extra desbloqueado a partir do momento em que Bond inicia seu treinamento avançado na MI6. O modo traz uma série de missões simuladas em localidades da campanha principal, abrangendo situações de ataque, furtividade e outras operações que rendem pontos para desbloquear conteúdo cosmético adicional.

O melhor momento para acessar o TacSim é após o término da campanha, quando todas as missões já estão disponíveis, funcionando como um generoso conteúdo pós-jogo. O modo exige conexão com a internet, pois os resultados são registrados em um ranking online para quem quiser medir suas habilidades com outros jogadores.


O TacSim já conta com uma quantidade generosa de missões e conteúdo para desbloquear, mas a IO Interactive informou que novos conteúdos — incluindo atividades com pilotagem de carros — serão disponibilizados regularmente após o lançamento. Após cerca de 12 horas na campanha principal, vale investir mais algumas horas no modo para aproveitar o jogo ao máximo, especialmente para quem busca todos os troféus e conquistas.

Desempenho exemplar em uma época de desenvolvimento conturbado

Vale dedicar um espaço para destacar o excelente desempenho de 007 First Light no PlayStation 5, plataforma usada para esta análise. O jogo utiliza o motor gráfico Glacier, o mesmo de Hitman: World of Assassination. Quem já jogou na pele do Assassino 47 sabe o que esperar: cenários grandiosos, super detalhados e populados por inúmeros NPCs.

Em First Light, o primeiro vislumbre do potencial da Glacier no console da Sony aparece durante a missão na Eslováquia mencionada anteriormente. Mesmo com grande volume de personagens não jogáveis e alto nível de detalhe, o desempenho é exemplar. A taxa de 60 quadros por segundo se mantém estável em praticamente todo o tempo, com exceção de ocasiões muito pontuais — como no capítulo do resort no Vietnã, onde os cenários ao fundo são deslumbrantes e exigem mais do hardware.




Feitas todas as considerações, com roteiro e elenco primorosos, jogabilidade envolvente e desempenho exemplar, 007 First Light não merece menos do que figurar entre os melhores títulos do ano. Foi um enorme prazer servir ao lado desta lenda em nome de Vossa Majestade.

O nome é Bond, Bond mais!

007 First Light não é apenas um bom jogo de James Bond — é um lembrete de que a franquia sempre teve muito mais a oferecer do que o cinema conseguiu entregar nas últimas décadas. A IO Interactive não se limitou a adaptar uma licença famosa: construiu, com cuidado e ambição, uma origem crível, emocionante e, acima de tudo, genuinamente divertida para o espião mais icônico da cultura pop.

Patrick Gibson carrega o jogo com uma presença que equilibra a personalidade ímpar que mistura o charme e a arrogância do personagem, além de vulnerabilidade de um jeito que poucos Bonds conseguiram — na tela grande ou pequena. A jogabilidade, que bebe tanto do faro calculista de Hitman quanto da energia cinematográfica de Uncharted, encontra sua própria identidade ao colocar o jogador no centro de uma espionagem que recompensa paciência, criatividade e, quando necessário, um bom direto na mandíbula.


Não faltam tropeços pontuais — a câmera traiçoeira no combate corpo a corpo e a participação decorativa de Lenny Kravitz são os mais evidentes —, mas nenhum deles é grande o suficiente para comprometer o conjunto. O que a IO entregou é sólido, polido e cheio de personalidade.

Num ano em que grandes lançamentos frequentemente chegam quebrados ou sem alma, 007 First Light se destaca por fazer o básico extraordinariamente bem: contar uma boa história, apresentar personagens que importam e deixar o jogador com vontade de mais. Se este é o começo de uma nova era para Bond nos games, o futuro parece muito promissor.

Prós

  • Roteiro sólido com uma origem crível e envolvente para James Bond;
  • Elenco memorável, com destaque para Patrick Gibson no papel principal;
  • Dinâmica de espionagem furtiva bem executada, com múltiplas abordagens para cada objetivo;
  • DNA de Hitman bem aproveitado na concepção da jogabilidade;
  • Uso criativo do ambiente no combate corpo a corpo;
  • Sistema de Licença para Matar adiciona tensão e variedade nas abordagens;
  • Motor gráfico Glacier bem otimizado no PlayStation 5, com taxa de quadros estável na maior parte do tempo;
  • Modo TacSim oferece conteúdo generoso e rejogabilidade após a campanha.

Contras

  • Câmera problemática durante o combate corpo a corpo;
  • Escalação de Lenny Kravitz é pura decoração no elenco;
  • Liberdade de tomadas de decisões mais limitada em comparação a Hitman;
  • Modo TacSim exige conexão constante à internet;
  • Quedas pontuais de desempenho em cenários mais exigentes, mas que não comprometem a experiência geral.
007 First Light — PC/PS5/XSX — Nota: 9.5
Versão utilizada para análise: PlayStation 5
Revisão: Johnnie Brian
Análise produzida com cópia digital cedida pela IO Interactive
OpenCritic
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Alexandre Galvão
Produtor do BlastCast. Entusiasta da era 16-bit, fã declarado do PS2 e apreciador de jogos de cartas e de tabuleiro. Jogador casual de muitos e hardcore em poucos. Também conhecido como @XelaoHerege
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