O tempo pode avançar décadas e mais décadas, mas o charme cartunesco dos anos 1930 ainda irá perdurar. Se Cuphead reviveu essa época com cores vibrantes e ação veloz, chegou a hora de adicionar uma pitada da melancolia monocromática no estilo noir e vestir o manto do detetive Jack Pepper em Mouse P.I. for Hire.
O crime espreita a cada esquina
Jack Pepper é um antigo herói de guerra, que tenta se adaptar ao novo mundo como detetive particular. Entre idas e vindas, ele acaba se deparando com alguns casos estranhos envolvendo o desaparecimento de determinadas pessoas. Um mistério leva a outro e logo Jack se vê envolto por um problema bem mais complexo, cheio de intrigas, gangues e corrupção. Ou seja, uma clássica história de detetive.
A ação acontece toda em primeira pessoa e a movimentação traz o básico dos jogos de tiro. Jack pode pular, agachar e usar o direcional para baixo para ter uma ajuda quando se sentir meio perdido. Pelo caminho coletamos dinheiro e munição, além de alguns colecionáveis, como cartões de beisebol, tirinhas de quadrinhos e exemplares de jornais antigos.
As armas são um destaque à parte. Além de modelos tradicionais, como pistolas, metralhadoras e espingardas, há exemplares mais exóticos, que disparam rajadas de veneno, ondas cerebrais, raios congelantes e até uma serra elétrica vinda das profundezas. Todas elas podem ser melhoradas nas lojas locais com a progressão da história.
Também há uma parte voltada para a investigação, mas essa é bem mais simples, pois encontrar as pistas de fato se resume basicamente a ir a um lugar do mapa, resolver a questão no local, que pode ser desde encontrar um laboratório secreto até impedir um crime contra um político, e então conseguir uma informação em um bate-papo. No mais, achar um ou outro trecho de carta por aí.
Acredito que poderia ter um investimento maior na parte de encontrar esses detalhes ou até inserir uma mecânica de dedução, já que se trata de um detetive veterano em um tempo marcado por crimes. Outro ponto que também merece uma leve calibrada é a mira durante as ondas de inimigos. É fácil acertar todo mundo de perto, seja com socos ou balas, mas à distância parece que fica mais difícil dar aquele tiro no alvo. Isso nos leva a gastar muitas balas sem necessidade.
Fora esses detalhes, não dá para negar que é bem divertido testar as diferentes armas nos bandidos que tentam nos pegar. E ainda podemos utilizar objetos no cenário para nos ajudar, como barris explosivos ou que congelam quem estiver por perto.
Beleza em dois tons e muito jazz
Escolher uma escala monocromática, toda baseada em preto, branco e tons de cinza, pode parecer meio controverso em meio ao tanto de artifícios coloridos que temos com as tecnologias de hoje, mas é exatamente isso que confere um carisma único à Mouse P.I. for Hire.
Quem gosta de desenhos antigos, vai perceber que além da inspiração em clássicos como Betty Boop e Steamboat Willie — também conhecido como Mickey do Barco a Vapor — algumas referências bem bacanas foram inseridas. Só para citar duas: Jack fica extremamente forte ao comer uma lata de espinafre; e ao tomar uma xícara de café, começa a disparar tiros com os próprios dedos. Sacaram? Tudo isso desenhado à mão, para passar uma maior naturalidade em relação ao material-base.
Outro elemento cultural interessante daquela época são os colecionáveis. Naqueles tempos, o jornal era o principal meio de informação. A cada esquina haviam pessoas lendo a mesma edição e discutindo o conteúdo que estava ali enquanto esperavam pelo bonde ou só sentavam na praça. E as tirinhas funcionam como um alívio cômico em meio às notícias — vale lembrar que era um período pré Segunda Guerra Mundial, então havia muita tensão internacional e as informações demoravam para chegar.
Se o jornal era o entretenimento adulto, os cartões de beisebol trazem uma cultura mais leve. O colecionismo deste tipo de item tem data de meados de 1860, e eles eram comercializados dentro de pacotes de cigarro ou chicletes. Colecioná-los faz menção a um hobby que hoje movimenta até milhões, mas que antigamente era uma diversão simples e até familiar.
Para amarrar todos os elementos imersivos dos anos 1930, a trilha sonora inteira é calcada no jazz, com seu estilo suave e misterioso, que combina perfeitamente com os filmes de investigação. E, por falar da parte sonora, vale dar o devido crédito à mais um ótimo trabalho vocal de Troy Baker como Jack Pepper, dando uma personalidade ácida e inteligente ao rato detetive.
Todos esses fatores em conjunto contribuem para uma ambientação praticamente perfeita. Mouse P.I. for Hire surpreende com uma narrativa que dura pouco mais de 10 horas, e mesmo assim é difícil se sentir cansado ou estagnado, pois cada conversa e cada descoberta acaba alimentando nossa curiosidade para saber o final da história.
Um rato que merece sua contratação
Mouse P.I. for Hire entrega uma ótima narrativa em conjunto com boa jogabilidade e uma ambientação impecável. Existem algumas pequenas falhas que ainda podem ser reparadas, mas é o tipo de jogo que irá prender sua atenção do começo ao fim sem exageros ou apelos.
Prós
- Excelente trabalho artístico que combina estilo noir e catoon dos anos 1930;
- A narrativa evolui de maneira envolvente, fazendo valer sua duração;
- A jogabilidade não tem segredos e traz armas variadas e com um leve toque de humor;
- Ótimo trabalho sonoro, tanto das músicas quanto da dublagem em inglês.
Contras
- A mecânica de encontrar pistas poderia ser mais criativa;
- A mira tem momentos de imprecisão.
Mouse P.I. for Hire — PC/PS5/Switch 2/XSX — Nota: 8.5Versão utilizada para análise: PS5
Revisão: Juliana Piombo dos Santos
Análise feita com cópia digital cedida pela PlaySide











