Yoshitaka Amano é um dos nomes mais influentes no universo gamer. Seu trabalho como designer de personagem nos seis primeiros títulos de Final Fantasy, e depois em colaborações esporádicas com a série ao longo dos anos (o logo de cada jogo ainda é criado por ele, por exemplo), trouxe um glamour barroco aos RPGs de fantasia e mudou para sempre a apresentação do gênero.
Agora, todo o peso do nome do artista é trazido pela terceira vez para o Brasil. O Rio de Janeiro recebeu em 22 de abril a exposição gratuita Yoshitaka Amano – Além da Fantasia, que também já passou por São Paulo em 2024 e Belo Horizonte entre o fim de 2025 e o início de 2026.O GameBlast teve a oportunidade de visitar a exposição antes de sua abertura, além de conversar com o próprio Amano-sensei por meio de uma tradutora. Entre você também no universo de sonho e beleza de Yoshitaka Amano!
A exposição
Mais de 200 obras produzidas pelo artista entre a década de 1970 e a atualidade estão expostas na unidade do Rio do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), onde permanecerão até 22 de junho. Estão divididas em segmentos: em ordem de aparição, são Angel’s Egg, Final Fantasy, Candy Girl, Vampire Hunter D, Colaborações, Tatsunoko e Devaloka.
Cada um é dedicado a uma fase diferente de sua carreira, que começou em 1967, quando tinha apenas 15 anos e conseguiu um estágio no estúdio Tatsunoko (conhecido por Speed Racer); ali ficou até 1982. Em 1983, se juntou à Square, que estava ainda a duas décadas da fusão com a Enix, na qual começou seu agora icônico trabalho com Final Fantasy. (A título de curiosidade, o “Final” no nome vem da ideia de que poderia ser o último jogo da à época quase falida Square. Bem…)
Pessoalmente, não tenho muito contato com a franquia Final Fantasy (ainda). Descobri a arte de Yoshitaka Amano por meio de uma série documental sobre a história dos games chamado GDLK, disponível na Netflix; foi amor à primeira vista. A estética suave, feminina e bastante atrelada ao mundo da moda (a exposição inclui algumas obras feitas para a revista Vogue, por exemplo) traz à lembrança outro de meus artistas favoritos: Hirohiko Araki, autor do mangá JoJo’s Bizarre Adventure.Como nativa de São Paulo, já havia visitado a versão da exposição que passou por aqui em 2024, no Farol Santander. Na época, achava que já sabia de tudo que iria ver — e estava enganada. Foi ali que conheci vários outros modos de expressão de Amano, entre eles a belíssima série Candy Girl, que, diferentemente de muito de seu trabalho, não está atrelada a nenhuma marca.
São painéis de alumínio pintados com tinta automotiva, retratando garotas no estilo pop art, desde sempre muito admirado pelo artista. “[É] algo que só pode ser plenamente apreciado ao ver o trabalho original, pessoalmente”, disse à imprensa; é verdade. O mesmo, é claro, vale para todos os núcleos. É uma coisa inenarrável se ver na presença de uma tela shoji pintada por Amano, tão próxima e tão bela.
Fui surpreendida novamente quando viajei ao Rio para esta matéria e conferi as obras expostas no CCBB: várias são novas adições, incluindo a da imagem acima, e algumas foram produzidas depois da passagem por São Paulo. Se os leitores tiverem a mesma chance abençoada que eu tive de estar na presença do trabalho de Amano-sensei uma segunda vez, peço encarecidamente que o façam. E por falar nisso…A cerimônia de abertura
Depois do tour da exposição, realizado pelo curador Antonio Curti (que levou o artista por um verdadeiro tour do Rio de Janeiro, incluindo um jogo do Flamengo no Maracanã), fomos convidados à abertura oficial, com direito a um coquetel muito bem servido. Naquela noite, jantei um poke com salmão cru, abacate, manga, quinoa e arroz japonês, acompanhado de uma caipirinha de saquê. Bom demais.
O verdadeiro destaque, contudo, foi uma sessão de pintura ao vivo, realizada pelo artista e por seu filho, Yumihiko Amano, que pintou o Sephiroth de Final Fantasy VII (cujo icônico design é de Tetsuya Nomura).
O Amano pai, por sua vez, criou uma bela pintura retratando um(a) guerreiro(a) em cima de um monstro de duas cabeças com aparência de cavalo. Foi uma verdadeira aula: o rascunho foi, praticamente, uma série de rabiscos para ditar a estrutura, que foi lentamente tomando forma. Amano-sensei usou tinta direto da bisnaga, deixou a aquarela pingar pela tela, e chegou até mesmo a usar a própria mão para misturar as cores.
Assistindo a tudo aquilo, fiquei ali, pensando: “eu estou mesmo aqui, neste momento, vendo esse talento fenomenal pintar um quadro na minha frente? Quantas pessoas podem dizer que já viveram o mesmo?”.
Outro pensamento que tive, um pouquinho mais egoísta, foi “poxa, teria sido legal também ter visto o mestre pintar uma de suas famosas moças bonitas, que tanto aparecem nas suas obras” (claro, não foi tão polido quanto o que escrevi agora). O plano, segundo a organização do evento, era que cada artista pintasse apenas uma tela; entretanto, meus desejos foram praticamente realizados de última hora!
Talvez eu soe um pouco hiperbólica agora, porém, no calor daquele momento, foi praticamente uma experiência religiosa. Uma coisa foi ter visto as artes finalizadas no pavilhão de exposição; outra, completamente diferente, foi a oportunidade de ver parte do processo dos artistas.
Foi, com certeza, a maior porta já aberta para mim nessa jornada sofrida de jornalista de games até agora. Só tem uma coisa que eu diria que se compara:
A entrevista
Por fim, tivemos a grande honra de nos sentarmos com o próprio Amano-sensei para uma curta sessão de perguntas e respostas, mediadas por uma tradutora (meu japonês ainda não carrega uma entrevista). Conversar com o artista favorito é uma tarefa que poucos recebem; logo, eu estava tão nervosa que sequer percebi muita coisa ao meu redor.
Apesar de tudo, fomos tratados com muita gentileza e atenção pelo mestre, que respondeu às nossas perguntas de maneira bastante solícita e chegou até a autografar as capas de Dissidia, spin-off de Final Fantasy para o PSP, que meu colega e co-entrevistador Leandro Alves, do Nintendo Blast, trouxe.
Também consegui entregar um pequeno desenho de Amano-sensei e da personagem Coralina, skin do Fortnite cujo design foi feito por ele (ele disse: “kawaii!”, e eu nunca vou me esquecer disso), além de um pacote de matcha cultivado no Brasil. Foi um momento muito agradável de uma noite já marcada para sempre na história da minha curta carreira. A seguir, apresento nossa conversa.
Observação: as perguntas e respostas foram levemente editadas para clareza.
Equipe GameBlast/Nintendo Blast: Essa é a terceira vez que essa exposição acontece no Brasil. Como foi sua recepção por aqui? Conseguiu se sentir inspirado pelo cenário?
Yoshitaka Amano-sensei: Minha primeira vinda ao Brasil foi para um evento, não para uma exposição. A segunda foi a São Paulo, em 2024. Depois disso eu fui para Milão e Roma, na Itália, e agora voltei para o Brasil, então, o tamanho da exposição e o número de obras aumentou.
Esse evento do Rio de Janeiro é o maior se comparado com os anteriores. Quanto à inspiração que você perguntou, está acontecendo agora, então ainda não sei responder.
Equipe GB/NB: Qual é outro artista com quem o senhor se identifica ou cujo trabalho admira, especificamente no mundo dos games?
Amano-sensei: Hironobu Sakaguchi! Começamos juntos com Final Fantasy. É estranho dar Sakaguchi como resposta, mas foi com ele que eu comecei a trabalhar nos games. Tenho boas recordações.
Equipe GB/NB: Qual a sua obra favorita do seu acervo e quanto à sua concepção?
Amano-sensei: O primeiro Final Fantasy, pois, sem ele, não teríamos um próximo. Foi o meu primeiro trabalho nos games, fazendo designs de personagem e mundo. Final Fantasy faz 40 anos no ano que vem — eu nunca pensei que iria tão longe na época. Tenho recordações muito fortes.
Quanto ao conceito, no Final Fantasy I tivemos espadas e magia, porém a partir de Final Fantasy VI passamos também a ter equipamentos diferentes, máquinas e tecnologia. A partir daí, ficou mais interessante.
Equipe GB/NB: Como se manter criativo numa era de imagens criadas por IA? Como os artistas podem mostrar para as pessoas a necessidade de se fazer arte com as próprias mãos?
Amano-sensei: A inteligência artificial está tirando o trabalho de muitas pessoas. Pessoalmente, eu não consegui usar a inteligência artificial, gosto de ilustrar à mão, mesmo. Ao mesmo tempo, a IA está substituindo o trabalho humano. Alguns copiam os trabalhos dos outros com o uso dela, mas tudo bem, eu continuo fazendo como eu faço.
A IA é um descobrimento através da tecnologia. Eu fico pensando, apontando para essa mesa, existem duas formas de criação: um vem da natureza, que é a madeira, e o outro vem do humano, que criou a forma. Então, o que um humano criou com a imaginação é muitas vezes melhor do que a inteligência artificial.
Conseguimos entender o que foi criado por humano e o que foi criado por IA, porém a IA foi criada por um humano porque foi necessário. Acho que tudo bem artistas que criam com IA, mas acredito que, quando começa a usar, não vai mais conseguir parar e vai sentir falta de como era. Eu fico me perguntando se, daqui a dez anos, com o desenvolvimento da IA, será que os artistas vão usar bem? Eu tenho minhas dúvidas.
A exposição Yoshitaka Amano – Além da Fantasia estará em exibição no CCBB Rio de Janeiro até 22 de junho de 2026, das quartas às segundas, entre 9h e 22h. A entrada é gratuita.
Revisão: Thomaz Farias
Agradecimentos a Leandro Alves, Beatriz Caillaux e Ana Lúcia de la Vega









