Análise: Pragmata mistura ação e hacking em uma aventura sci-fi singular

Apesar de ser conservador e limitado em algumas áreas, a nova aventura da Capcom cativa com criatividade e qualidade técnica.

em 13/04/2026

Anunciado há alguns anos e finalmente lançado após um longo período de desenvolvimento, Pragmata chega com uma proposta que desperta curiosidade ao combinar ação com um sistema de hacking integrado aos combates. A ambientação sci-fi e a relação entre seus dois protagonistas ajudam a dar forma a uma experiência que parece apostar tanto na interação entre mecânicas quanto na construção de atmosfera, ainda que nem todas as ideias apresentadas ao longo da jornada se desenvolvam com a mesma consistência.

Aprisionado na Lua em um drama espacial

Na Lua, a humanidade descobre um minério que, quando refinado, permite criar praticamente qualquer coisa com impressoras 3D. Batizado de lunafilamento, o material passa a ser estudado em uma grande estação de pesquisa lunar.

Sem aviso, a instalação corta suas comunicações com a Terra. Uma equipe é enviada para averiguar a situação, mas, chegando lá, um terremoto lunar acontece, infligindo ferimentos fatais nos membros do grupo. Um dos sobreviventes é Hugh, que é salvo por Diana, uma androide com aparência de garotinha. Ela revela ser uma Pragmata, um ser artificial criado por lunafilamento. Não demora para perceberem que a estação está nas mãos de IDUS, uma IA fora de controle que usa robôs para caçar humanos. Diante disso, a dupla se une para tentar escapar e descobrir o que desencadeou o caos na estação.


A premissa pode soar familiar dentro do sci-fi, e ainda assim consegui me envolver com ela. O grande destaque em Pragmata é a sinergia entre Hugh e Diana: ele é sério e prático, já ela é brincalhona e travessa. Conforme a trama avança, eles se aproximam cada vez mais, em uma relação quase paternal. Os personagens não são muito profundos, no entanto, os diálogos são envolventes e divertidos, e aos poucos passamos a nos importar com eles. Destaco, inclusive, a ótima dublagem em português, pois consegue trazer personalidade aos protagonistas.

A trama em si é simples, com uma ou outra reviravolta notável. Apesar disso, o enredo acaba caindo um pouco em alguns clichês do gênero, especialmente no que diz respeito às origens de Diana e a real causa dos principais conflitos. Mesmo assim, a história não tenta ser pretensiosa em nenhum minuto, o que a torna prazerosa do início ao fim — me senti dentro de um filme de ficção científica que alterna bem entre momentos de ação e narrativa.



Tiro e hacking como forma de sobrevivência

Na prática, Pragmata é uma aventura de tiro e ação que conta com uma mecânica única que altera significativamente a dinâmica dos combates. Hugh usa diferentes armas de fogo para atacar, mas os inimigos têm blindagem densa que praticamente nulifica o dano. É aí que Diana entra em ação, hackeando os inimigos para expor seus pontos vulneráveis. 


O mais curioso é que tanto atirar quanto hackear acontecem simultaneamente. Ao mirar em um inimigo, aparece um painel no qual é necessário conectar pontos de início e fim com os botões do controle enquanto evitamos investidas e perigos. Com isso, somos forçados a dividir nossa atenção constantemente, alternando entre resolver o puzzle, atirar e esquivar. De início parece confuso, porém rapidamente tudo se encaixa.

Conforme avançamos na jornada, os sistemas recebem camadas de complexidade, como robôs cuja matriz de hackeamento tem formato grande ou complicado, inimigos com padrões de ataque intrincados ou arenas com perigos. Por sorte, há equipamentos que oferecem opções táticas, como armas, módulos de hackeamento e chips com diferentes efeitos passivos. A dupla descansa em um abrigo no qual é possível utilizar o lunafilamento coletado para melhorar características dos protagonistas, desbloquear habilidades, imprimir itens ou acessar dados de oponentes anteriormente enfrentados.



No caos imersivo de uma jornada multitarefa

Pode parecer complicado, mas o sistema de atirar e hackear ao mesmo tempo é mais intuitivo do que parece, bastando poucas batalhas para alternar com facilidade entre as duas ações. Um dos pontos altos está na diversidade de inimigos, cada qual exigindo uma estratégia distinta: um robô humanóide é capaz de proteger parte de sua matriz com antenas que precisam ser destruídas; um pequeno drone ataca com mísseis, que podem ser lançados de volta; pequenas rodas com lâminas precisam primeiro serem interrompidas para que possamos atacá-las.


Os combates contra inimigos individuais costumam ser banais, sendo o grande destaque o enfrentamento de grandes grupos. Nesses momentos, as coisas ficam muito frenéticas, com ataques vindo de todos os lados e robôs que exigem ações distintas para serem derrotados. Aqui, tudo o que aprendemos é colocado em prática, nos forçando a esquivar constantemente, hackear com rapidez e usar diferentes armas para lidar com os grupos, como granadas que derrubam oponentes ou usar um campo eletromagnético paralisante. Esses embates são caóticos e tensos, porém é muito recompensador dar conta de tudo e sair vitorioso.


A dificuldade é balanceada, exigindo tanto destreza quanto pensamento tático. Fui derrotado algumas vezes e consegui superar os desafios em novas tentativas ao mudar meu equipamento ou ao dar prioridade para outros inimigos. Os chefes, em especial, impressionam com batalhas de escala aumentada e padrões complexos, demandando muita observação para conseguir acertar os pontos fracos nos momentos corretos.

Apesar de tudo isso, o sistema de batalha do jogo acaba se tornando cansativo com o tempo. A repetição do minigame de hacking ao longo dos combates acaba nos desgastando, especialmente por causa da variação mínima do puzzle, que praticamente não evolui do início até o fim da jornada. Outro problema está em inimigos com grande quantidade de vida, o que torna alguns embates desnecessariamente arrastados. Diferentes armas e alguns efeitos extras de hackeamento ajudam, mas não são suficientes para acabar com a sensação de mais do mesmo.


Alta tecnologia aplicada em ideias contidas

A estrutura da jornada alterna momentos de combate e de exploração por áreas temáticas distintas. A progressão é bem linear na maior parte do tempo, pois a estação consiste basicamente de corredores de caminho único, contudo há rotas alternativas e segredos que nos instigam a investigar esses locais. Alguns locais só podem ser acessados após obter certos itens ou habilidades, servindo como incentivo para revisitar áreas.

Os mapas cumprem seu papel, embora raramente surpreendam: na maior parte do tempo só andamos e abrimos portas com algumas variações leves. Há alguns momentos de plataforma e uns puzzles básicos, porém seu impacto é pequeno por causa da simplicidade. Apesar disso, essa escolha de design funciona pelo foco na ação, no entanto, confesso que fiquei decepcionado com a ausência de puzzles ou situações que exigissem hackeamento de maneiras interessantes — Diana destranca portas e só.
 

Além disso, existe um modo opcional com desafios variados de diferentes níveis de dificuldade que exploram as possibilidades das mecânicas. Alguns focam em plataforma e velocidade, outros exigem enfrentar inimigos sob certas condições, todos eles com mais de um objetivo. Essas atividades são interessantes e elaboradas, funcionando como um ótimo complemento para aqueles que desejam mais desafios dentro desse universo.


A campanha é enxuta e levei por volta de dez horas para chegar ao final, sendo que boa parte desse tempo foi gasta revisitando áreas, procurando segredos e completando alguns desafios. Explorar todo o conteúdo pode levar fácil o dobro do tempo, ou até mais caso seja do interesse encarar os outros modos de dificuldade.


À deriva na beleza espacial

Na ambientação, Pragmata aposta no sci-fi tradicional com cenários limpos, tecnológicos e com uso pontual de cor em meio ao branco e cinza. A trilha sonora é minimalista, apostando em faixas eletrônicas nos momentos de ação e pouca música no momento de exploração — o trabalho de som complementa essas lacunas e traz imersividade com frequência.

O conceito de que o lunafilamento pode ser utilizado para imprimir qualquer coisa é explorado em localidades marcantes, como uma representação fraturada de Nova York e até mesmo uma densa floresta. Isso cria um mundo que chama atenção e rende momentos bem memoráveis, uma mistura de ficção científica com toques de surreal — é uma pena que essas ideias diferentes não sejam mais frequentes pela aventura.


Já o universo em si é desenvolvido por meio de gravações e documentos espalhados pela estação espacial. É impressionante o cuidado empreendido nesses itens e julgo que é essencial conferi-los para ter a experiência completa do que aconteceu ali, como a fictícia tecnologia de lunafilamento foi desenvolvida e como as pessoas viviam na base lunar.

O jogo foi anunciado em 2020 junto com o PlayStation 5 e só foi lançado de fato agora em 2026. Apesar de tanto tempo, o título impressiona na parte técnica com modelos extremamente detalhados, cenários ricos em detalhes e iluminação dinâmica que reforça o visual de cada sala. Além disso, algumas áreas, como a reprodução de Nova York, impactam com sua escala e expansividade. No geral, explorar esse universo é uma experiência bastante agradável. 


Testei a versão PC e fiquei impressionado com a performance estável e o amplo suporte à tecnologias gráficas modernas, como geração de quadros, path tracing e DLSS4. A maior parte das configurações pode ser alterada individualmente, permitindo que a experiência seja customizada de acordo com o hardware disponível.


Um sci-fi inventivo e notável

Pragmata apresenta ideias criativas, especialmente na forma como mistura tiro e hacking em tempo real, criando momentos intensos e exigindo atenção constante. A relação entre Hugh e Diana também contribui para manter o interesse, com interações leves e carismáticas que ajudam a sustentar a narrativa mesmo quando ela recorre a elementos já conhecidos da ficção científica. O combate, principalmente em confrontos mais caóticos, consegue entregar situações empolgantes, reforçadas por uma boa variedade de inimigos e opções táticas.

Mesmo com algumas limitações perceptíveis, como a repetição de certos elementos e uma estrutura mais guiada, a aventura ainda se mantém envolvente graças ao ritmo consistente e às boas ideias. O universo construído, aliado ao cuidado técnico e à proposta diferenciada, faz com que a jornada permaneça interessante até o fim. No fim, Pragmata se destaca como uma experiência com identidade própria, que pode não explorar todo o seu potencial, mas, no geral, oferece uma aventura marcante.

Prós

  • Combate único que mistura tiro e hacking de forma interessante;
  • Boa variedade de inimigos e situações que exigem estratégias diferentes;
  • Relação carismática entre Hugh e Diana, apesar dos clichês;
  • Conteúdo opcional notável;
  • Ambientação sci-fi visualmente marcante;
  • Desempenho técnico sólido e customizável.

Contras

  • Minigame de hacking se torna repetitivo ao longo da campanha;
  • A estrutura da aventura é bastante linear e sem muitas surpresas;
  • Alguns combates têm problema de ritmo e são desnecessariamente longos;
  • Os sistemas de jogo pouco evoluem durante a jornada.
Pragmata — PC/PS5/XSX/Switch 2 — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Thomaz Farias
Análise produzida com cópia digital cedida pela Capcom
OpenCritic
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Farley Santos
é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de roguelikes, game music, fotografia e livros. Pode ser encontrado no seu blog pessoal e nas redes sociais por meio do nick FaruSantos.
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