O mito grego do minotauro ganha uma nova interpretação em Minos. No jogo, montamos labirintos com armadilhas mortais para impedir que heróis ceifem a vida do homem-touro, em uma experiência que mistura tower defense, puzzle e ação. O título se destaca com sua campanha de dificuldade intensa e narrativa que coloca o minotauro no centro, mas a variedade limitada de situações impede que esse conto se torne lendário.
O homem-touro e sua jornada por salvação
A narrativa de Minos usa como inspiração a mitologia grega com algumas alterações. Na versão mitológica, o rei Minos pediu a Poseidon um sinal de legitimidade. Com isso, ele recebeu um touro sagrado para sacrificar, mas desobedeceu ao deus ao poupar o animal. Como punição, Poseidon fez com que Pasífae, esposa de Minos, se apaixonasse pelo touro, e dessa união nasceu Astério. Envergonhado, Minos mandou Dédalo construir o Labirinto de Creta para aprisionar a criatura.É nesse cenário que acompanhamos Astério e Dédalo, que exploram o Labyrinthos, uma caverna mutável que é constantemente atacada por guerreiros que desejam acabar com a fera. O protagonista começa com uma forma mais humana. Conforme avança pelas profundezas em busca de poder, torna-se cada vez mais bestial e descontrolado, até se tornar o mítico Minotauro. Mensagens deixadas pelos deuses indicam que essa forma pode ser revertida, então a dupla vai explorar as profundezas do Labyrinthos em busca de redenção.
A proposta de colocar o Minotauro no centro da experiência é um dos pontos mais interessantes do jogo, especialmente pela tentativa de explorar seu lado mais humano por meio da relação com Dédalo. Há uma base narrativa que sugere conflito e redenção, mas essa ideia acaba sendo pouco desenvolvida, já que a história surge de forma pontual e sem grande aprofundamento ao longo da jornada.
Moldando labirintos para sobreviver
Em cada estágio, o objetivo é impedir que os heróis derrotem o Minotauro. Para isso, montamos um labirinto construindo caminhos repletos de perigos mortais. Há todo tipo de armadilha, como placas que revelam espinhos ao serem pisadas, balestras, portas que esmagam aventureiros e muito mais. Com um pouco de astúcia, é possível eliminar os invasores antes que cheguem até Astério.O Minotauro é o alvo, mas ele não é indefeso, pelo contrário. O homem-touro pode ser controlado diretamente para atacar inimigos, ativar dispositivos ou rearmar armadilhas. Ele constantemente está em desvantagem numérica, então é importante utilizá-lo com cuidado, principalmente por causa da cura muito limitada.
Entre os estágios, utilizamos experiência e joias para melhorar atributos do Minotauro, desbloquear habilidades e criar novos tipos de armadilhas. Pelo caminho, aparecem também talismãs com efeitos diversos, o que oferece opções estratégicas. Ser derrotado significa perder todas as armadilhas e recomeçar a jornada do início, mas as melhorias são permanentes — com isso, mesmo morrendo, há um senso de progressão. Cada tentativa reorganiza os desafios, como esperado do formato roguelike.
Entre armadilhas, guerreiros e desafios complicados
A mistura de tower defense e ação de Minos me instigou desde o início, no entanto o que me surpreendeu de fato foi a sua profundidade e as possibilidades proporcionadas pelas mecânicas.No início, as fases são simples: basta construir paredes para forçar inimigos a seguirem para caminhos com diversas armadilhas, sem pensar muito. Porém, com o tempo, sobreviver se revelou um desafio e tanto com a introdução de inimigos complexos, quanto aventureiros que desarmam dispositivos ou guerreiros que se fortalecem quando estão em grupos. Os mapas também se tornam maiores, com equipes avançando simultaneamente de diferentes pontos.
Com tantas variáveis em jogo, precisei repensar completamente minha abordagem. Com o tempo, comecei a montar rotas sinuosas que me permitiam lidar com grandes grupos, aprendi a usar dispositivos para dividir equipes e fui capaz de lidar com situações complicadas, como estágios com poucos espaços para armadilhas. Além de observação, há um pouco de experimentação com combos: nuvem de gás com fogo cria explosões devastadoras, um gancho bem posicionado separa inimigos enquanto ativa todas as armadilhas pelo caminho, entre outras opções.
Entender essas nuances é essencial, pois Minos é um jogo difícil. Na maior parte das vezes, estamos em grande desvantagem, então pensar com cuidado a estratégia é a única maneira de avançar. No começo, as derrotas são frequentes enquanto se entende as nuances e desbloqueia algumas habilidades, mas logo chega o ponto em que a tática flui naturalmente — é muito recompensador conseguir sair vitorioso de algum estágio especialmente complicado.
Os comandos são intuitivos, sendo possível alternar entre o controle do Minotauro e edição do labirinto com o toque de uma tecla. A clareza visual, no entanto, deixa a desejar: a paleta com poucas cores escuras diminui a visibilidade de alguns elementos, especialmente as armadilhas. Uma opção permite destacar visualmente certos objetos, mas o ângulo da câmera atrapalha a visibilidade mesmo assim. Além disso, certos elementos da interface são problemáticos, como acessar a ordem e os tipos dos inimigos. Esses problemas dificultam a tomada de decisões e nos induzem a erros em muitos momentos.
Preso na maldição da repetição
Mesmo com essa base criativa, Minos acaba escorregando em um dos grandes problemas de roguelikes: a diversidade limitada. Com o tempo, a repetição fica evidente nos estágios, o que deixa as coisas cansativas. Há algumas variações, como diferentes inimigos, certas restrições (áreas muito pequenas, fases em que as armadilhas não podem ser reposicionadas, labirintos com mais ondas), mas não são suficientes para deixar a experiência mais diversa.Essas limitações também se estendem às ferramentas disponíveis. A quantidade de armadilhas é pequena, o que acaba restringindo as opções estratégicas. Existem versões diferentes dos dispositivos, inimigos com resistências específicas e alguns combos para descobrir, no entanto são recursos de impacto limitado.
A estrutura das partidas incomoda, com estágios iniciais banais e similares, além de picos estranhos de dificuldade — morrer se torna um tormento, afinal isso significa ter que completar novamente fases sem graça, apesar da existência de atalhos para os andares mais profundos. Até aparecem alguns estágios especiais, como puzzles ou labirintos repletos de perigos em que precisamos encontrar a saída, porém eles não conseguem trazer variedade.
A junção desses fatores resulta em uma experiência repetitiva e sem surpresas a médio prazo. Há alguns momentos interessantes, principalmente a partir da metade da jornada nos estágios mais complexos, mas fora disso atravessamos desafios similares na maior parte do tempo. A base é sólida e torço para que atualizações futuras introduzam mais diversidade de conteúdo.
Um mito instigante e imperfeito
Minos constrói uma base interessante ao inverter o papel tradicional e transformar o labirinto em uma ferramenta ativa de defesa. A combinação entre planejamento, armadilhas e intervenção direta com o Minotauro cria momentos tensos e recompensadores, especialmente quando as estratégias começam a funcionar de forma natural. A campanha exigente e a progressão constante ajudam a manter o envolvimento, mesmo diante das derrotas frequentes.Por outro lado, a repetição de situações e a variedade limitada de conteúdo acabam pesando com o passar das horas. A escassez de armadilhas, a estrutura previsível das fases e alguns problemas de leitura visual enfraquecem o ritmo e reduzem o impacto das boas ideias. No fim, Minos apresenta conceitos fortes e instigantes, mas ainda precisa de mais diversidade e refinamento para sustentar seu potencial a longo prazo.
Prós
- Combinação criativa de construção de labirintos, tower defense e ação direta;
- Progressão constante que mantém a motivação mesmo após derrotas;
- Alto nível de desafio que recompensa planejamento e adaptação;
- Premissa interessante ao inverter o papel tradicional e colocar o minotauro no centro da experiência.
Contras
- Variedade limitada de situações ao longo da campanha;
- Quantidade reduzida de armadilhas restringe as opções estratégicas;
- Problemas de clareza visual e interface atrapalham a tomada de decisões.
Minos — PC — Nota: 7.5
Revisão: Beatriz Castro
Análise produzida com cópia digital cedida pela Devolver Digital
Análise produzida com cópia digital cedida pela Devolver Digital












