A franquia Heroes of Might and Magic construiu, ao longo de décadas, um legado difícil de ignorar dentro do gênero de estratégia. Desde sua criação em 1995, feita sob a liderança de Jon Van Caneghem, a série se destacou por combinar exploração, gerenciamento e combates táticos executados em turnos em um universo de fantasia rico e repleto de possibilidades.
Essa reputação foi consolidada ainda na década de 1990, especialmente com Heroes of Might and Magic II e, principalmente, com Heroes of Might and Magic III, título frequentemente citado como referência máxima do gênero e pilar central da franquia. Seu equilíbrio refinado, a variedade de facções e a profundidade estratégica ajudaram a definir o que muitos jogadores passaram a esperar de um jogo desse estilo.
| Heroes of Might and Magic II, lançado em 1996 |
Ainda assim, o núcleo da experiência permaneceu intacto: explorar mapas, desenvolver cidades, evoluir heróis e disputar combates táticos continuam sendo os elementos que definem a franquia. Essa base sólida é o que mantém a comunidade ativa até hoje, com destaque para a longevidade de Heroes of Might and Magic III HD Edition, remasterização do terceiro título, que segue relevante e presente em muitas bibliotecas de jogos — incluindo a minha.
| Heroes of Might and Magic III HD Edition, lançado em 2015 |
Entre nostalgia e expectativa, fica a dúvida: será esta a oportunidade de resgatar a essência que consagrou Heroes of Might and Magic, ou mais um capítulo na tentativa de reinventar algo que talvez nunca tenha precisado mudar tanto? Tivemos acesso antecipado ao título, que chega em 30 de abril em formato de acesso antecipado para PC, e vamos ajudar você a descobrir se a franquia merece estar de volta em 2026.
Passado e tradição se unem em uma experiência nova e envolvente
Heroes of Might and Magic: Olden Era é uma prequela de todos os títulos da franquia lançados até então. Essa decisão narrativa se alinha perfeitamente à proposta do jogo, que pretende ser um recomeço para a série — um convite atraente para veteranos e uma excelente porta de entrada para novos jogadores.
Em termos de jogabilidade, Olden Era entrega exatamente o que se espera de um título da franquia. Para quem já conhece o universo fica difícil não se surpreender (e até se emocionar) ao se deparar com uma interface tão icônica: o herói, a cidadela e um mapa à espera de ser explorado.
Para quem está chegando agora na onda da série, a mecânica é direta, em essência. O jogador explora o mapa em busca de recursos para construir novas estruturas na cidade, recrutar unidades mais poderosas e reforçar as defesas do local contra possíveis invasões.
No mapa, o jogador controla um ou mais heróis, conquista territórios e enfrenta batalhas contra inimigos — sejam pequenos exércitos ou heróis rivais —, enquanto cumpre objetivos predefinidos, como derrotar todos os heróis de uma facção adversária ou recuperar uma relíquia e levá-la ao seu reino.
O núcleo da jogabilidade está na rotina de explorar e conquistar. À medida em que o jogador avança — obtendo fontes de recursos e artefatos mágicos —, seu reino prospera e a missão caminha para a conclusão. Olden Era apresenta seis facções, cada uma com unidades exclusivas e estilos de jogo distintos.
Entre elas estão facções humanas com soldados, besteiros e criaturas angelicais; povos élficos que dependem das forças da natureza; e necromantes com criaturas infernais capazes de invocar as bestas mais sombrias do mundo. É natural desenvolver preferência por uma facção específica, mas conhecer todas é fundamental para explorar suas forças e fraquezas.
Em determinados momentos, e dependendo do nível de dificuldade, tudo pode ser perdido se o jogador não dominar a arte do combate. Nessa dinâmica, os exércitos se enfrentam em uma arena que lembra um tabuleiro. Cada unidade obedece a regras próprias de movimento e ataque, com o objetivo de eliminar as tropas adversárias.
Cada unidade é representada por uma peça e um número, que indica quantos combatentes restam em campo — e, como via de regra, quanto maior o número, melhor. Algumas unidades têm pouca mobilidade, mas grande poder de ataque; outras podem voar e ignorar obstáculos do terreno, porém com força de ataque inferior. Saber posicionar e movimentar as tropas na arena é essencial para alcançar a vitória.
Para apoiar suas tropas, os heróis podem lançar magias que geram diferentes efeitos sobre as unidades aliadas ou inimigas, além de intervir na arena com obstáculos ou armadilhas. Cada movimento, cada ação, cada decisão precisa ser cuidadosamente calculada nesse verdadeiro xadrez de fantasia.
Conteúdo para todos os gostos
Mesmo em acesso antecipado, Heroes of Might and Magic: Olden Era já oferece uma quantidade expressiva de modos de jogo e conteúdo para diferentes perfis de jogadores. É possível criar uma partida avulsa para experimentar uma facção, enfrentar heróis controlados pela IA em duelos, explorar cenários estruturados como mini-campanhas ou simplesmente se aventurar pelo mundo de Olden Era na campanha principal.
Durante o período de acesso ao jogo, foi possível experimentar um pouco de cada modo, mas a campanha e o modo clássico — no qual se joga até onde for possível — foram os que mais se destacaram, mesmo sendo formatos já conhecidos de títulos anteriores da série.
Cada partida dificilmente leva menos de algumas horas para ser concluída, mesmo as mais simples. E o melhor é que a experiência não se torna maçante. Pelo contrário, cada nova conquista, cada vitória e cada objetivo cumprido incentivam o jogador a continuar em busca de mais poder.
Mesmo no nível de dificuldade normal, o desafio se mostra considerável — especialmente para jogadores menos experientes ou ainda em fase de adaptação. A derrota faz parte do processo: identificar o que deu errado, reconhecer decisões precipitadas e aprender com os erros são etapas naturais e necessárias do aprendizado.
Heroes of Might and Magic: Olden Era resgata com méritos tudo o que a franquia representou ao longo de suas três décadas: a estética, a jogabilidade, o desafio, a ambientação e a sensação de satisfação. O hiato que a série atravessou até que esta nova entrada fosse desenvolvida se mostrou necessário para aparar as arestas — e o resultado é um título que já pode ser considerado o principal ponto de entrada da franquia nos tempos atuais.
Seja para um veterano ou para alguém que nunca teve contato com Heroes of Might and Magic, Olden Era é um excelente ponto de partida para voltar ou conhecer a franquia. Há boas razões para acreditar que a experiência só tende a melhorar: o elemento que ainda resta para aprimorar esta proposta é justamente a participação da comunidade, o que ajudará a moldar o jogo ao longo do período de acesso antecipado.
O conteúdo criado pelos jogadores e o aspecto online, que tem partidas entre pessoas reais, serão a base para a longevidade de um projeto que já demonstra ter respeito por uma franquia que viveu seu auge e seu declínio, e que agora merece retomar seu lugar entre os grandes nomes da estratégia.
Um regresso digno
Heroes of Might and Magic: Olden Era ainda não é um produto finalizado, mas já é, inegavelmente, uma declaração de intenções. Com algumas horas de jogo, fica claro que o projeto não nasceu da tentativa de reinventar a roda, mas do desejo genuíno de ressuscitar o interesse do público em uma franquia que muitos acreditavam estar dormente ou mesmo morta — e nisso ele surpreende.
O acesso antecipado é, por natureza, um compromisso entre o que o jogo é e o que ele promete se tornar. Olden Era cumpre bem essa primeira parte: entrega uma base sólida, familiar e envolvente o suficiente para justificar o interesse agora, enquanto deixa espaço para crescimento, principalmente com o apoio da comunidade. Para uma franquia que chegou a parecer esquecida, isso já é mais do que suficiente para despertar otimismo.
Se a Unfrozen, estúdio responsável pelo desenvolvimento, mantiver o compromisso com a qualidade demonstrada até aqui e transformar o feedback dos jogadores ao longo desse processo, Olden Era tem tudo para se consolidar como o melhor capítulo da série em décadas. Por ora, é um retorno digno. E, dependendo do caminho que vier a seguir, pode vir a se tornar uma nova referência.
Revisão: Juliana Piombo dos Santos
Texto de impressões produzido com chave de acesso fornecida pela Hooded Horse








