“Gracias a Dios nací en Latinoamérica”, declara o meme. Apesar de não falarmos espanhol, é um sentimento bem compreensível: a arte da América Latina pode não ter a mesma visibilidade do chamado “primeiro mundo”, mas, nos games, não tem para ninguém. Que outra região pode falar que tem no bolso Unsighted, VA-11 HALL-A, Despelote e Arco?
Quem concorda com esse sentimento é David Lucio, fundador da apresentação Latin American Games Showcase (LAGS), que costuma ser realizada em meio a eventos como o Summer Game Fest e o The Game Awards. O propósito, claro, é dar visibilidade ao que é produzido por aqui, do Brasil à Guatemala e além.
Confira agora nosso papo realizado durante a gamescom latam 2026, que também contará com uma stream ao vivo da LAGS em 2 de maio.
Observação: as perguntas e respostas foram levemente editadas para claridade.
Hiero de Lima: Gostaria de começar perguntando: eu já assisti esta apresentação antes, e algo que eu percebi é que há vários jogos de terror que são apresentados. Eu até cheguei a brincar com meus amigos, "ah, é porque morar na América Latina é tipo um jogo de terror". Mas falando sério, por que você acha que este tipo de jogo é tão popular com os desenvolvedores e gamers latino-americanos?
David Lucio: Acho que há duas razões. Estamos, na verdade, para dar uma palestra aqui na gamescom, na qual falaremos de tendências que percebemos nas milhares de inscrições que recebemos ao longo dos anos. E eu acho, não tenho certeza se é a resposta correta, mas estas são pelo menos as conclusões que tiramos da LAGS.
A primeira razão é que é um gênero fácil de desenvolver, tanto por causa do acesso aos assets quanto por ser um bom gênero para streamers e criadores de conteúdo. Então é esse loop de desenvolvimento que é bem fácil e bem divertido. É rápido de se atingir para os desenvolvedores e é fácil de entender para os streamers e criadores. E eu acho que esta é uma das razões.
Human.exe (Argentina)
A outra é que eu acho que a América Latina tem vários mitos, lendas e histórias de terror que dá para explorar, e eu acho que a combinação dessas duas coisas acaba desembocando nessa tendência de jogos de terror. Uma das conclusões da nossa palestra é exatamente isso. O gênero de terror é o gênero mais estável em toda América Latina, e eu acho que é por esses motivos.
Hiero: Falando dessa facilidade de desenvolvimento: qual você diria que é o país latino-americano que dá o melhor suporte aos desenvolvedores de jogos? Como podemos aprender com este país?
David: Bem, com certeza é o Brasil. O Brasil tem vários programas governamentais em regiões diferentes, mas também tem um ecossistema de consumidores que gostam de jogar jogos brasileiros e gostam de apoiar jogos brasileiros.
Dito isso, acho que tem quatro outros países que estão fazendo um ótimo trabalho. O primeiro é a Argentina, que está fazendo muito do que o Brasil está fazendo, com uma escala e orçamento diferentes, mas ela está seguindo a mesma rota de fornecer subsídios do governo e também um grande suporte de agências locais. O Chile tem o mesmo. Tem bastante apoio governamental no Chile, e, junto do México, esses são talvez os três mais fortes além do Brasil na América Latina.
O quarto estudo de caso que é bem interessante é o da Costa Rica. A Costa Rica é um país muito pequeno, mas aqui no nosso estande nós temos dois jogos da Costa Rica. É uma quantidade maior do que da Colômbia, ou da Venezuela, ou do Equador, ou da Bolívia, ou do Peru. Então a Costa Rica está dando duro dentro do próprio país para desenvolver a cena local, e eu acho que é por causa da educação. Eles têm vários programas de educação em desenvolvimento de jogos, e isso, somado ao suporte do governo e eventos locais, resultou num ótimo ecossistema para os devs costarriquenhos.
Bubblegum Galaxy (Chile)
Hiero: Partindo disso: aqui na América Latina, existe um punhado de cidades, e São Paulo é um grande exemplo, para as quais os desenvolvedores têm de se realocar se quiserem ser vistos. Ano passado, eu falei com uma dev de Goiânia, no Centro-Oeste do Brasil, que me disse que, quando ela veio para São Paulo, ela viu quantas oportunidades acaba perdendo por não estar no "centro de tudo". A pergunta é: como podemos ajudar a descentralizar a cultura de desenvolvimento?
David: Eu acho que plataformas como a nossa existem justamente para isso, para dar um caminho, visibilidade e oportunidades que sejam iguais para qualquer jogo feito na América Latina. Por exemplo, acontece algo similar no Chile, onde existe uma grande comunidade de devs em Santiago, mas aqui nós também já recebemos jogos de Valparaíso e de outras regiões de países assim. Tipo, já teve um jogo que veio de Cúcuta, uma cidade bem pequenininha da Colômbia. Então eu acho que o melhor jeito de descentralizar essas oportunidades vem justamente de plataformas como a nossa, nas quais a visibilidade é a mesma para todos os jogos.
Hiero: Na comunidade gamer brasileira, há um sentimento que sempre costuma aparecer: existe essa vontade de termos um "GTA próprio", um tipo de lançamento de alto perfil e orçamento gigante que nos torna conhecidos no mundo inteiro. Como você vê esse sentimento? A gente sequer precisa de um jogo assim?
David: Eu não acho que precisemos de nada que já não tenha sido feito lá fora. Eu acho que uma das melhores qualidades da América Latina é que temos várias histórias para contar. Acho que precisamos lutar contra arquétipos e preconceitos a nosso respeito. Por exemplo, uma das coisas que fazemos no LAGS é que evitamos dar espaço a jogos que promovam estereótipos da região, por esse mesmo motivo, porque eu acho que temos uma grande riqueza nas nossas histórias e artes. Não precisamos replicar o que acontece em outros países, outros espaços.
Gunny Ascend (Costa Rica)
Também acho que existe bastante força por trás do desenvolvimento indie. Acho que a diversidade de vozes faz desse modelo muito mais rico e muito mais sustentável, e que é uma coisa mais importante para a nossa visibilidade do que ter jogos enormes.
Dito isso, entendo que qualquer indústria, qualquer ecossistema de desenvolvedores precisa de jogos grandes que atraiam atenção, e, espera-se, mais investimentos. Então eu acho que existe uma necessidade da existência desses jogos, mas só porque precisamos dessa visibilidade mundial para trazer o dinheiro que vá investir, com sorte, não só em um ou dois GTAs brasileiros, mas em 20 games independentes.
Hiero: Você tem algum favorito pessoal entre os jogos da América Latina que você acha que passou despercebido, para recomendar aos leitores?
David: Essa é uma pergunta bem complicada.
Hiero: Eu sei, eu sei. Você não quer priorizar um acima de outros, né?
David: É, mas eu vou, sim: tem um jogo do Chile que veio da nossa primeira game jam. O time ganhou, vieram à gamescom e o projeto conseguiu uma publisher ali mesmo. Se chama Colorbound e é incrível. Já joguei a demo umas quatro vezes e estou apaixonado. O jogo está aqui na gamescom agora [como um dos indicados ao BIG Festival de Melhor Jogo - América Latina]. Então, se for para destacar um jogo só, seria este.
Hiero: E finalmente, você tem alguma mensagem para desenvolvedores brasileiros em potencial?
David: Sim, eu acho que devemos permanecer fortes dentro da nossa própria identidade. Acho que os melhores projetos que estão saindo da América Latina são os que celebram o que nós fazemos, por que somos diferentes, por que somos especiais, em vez de seguir as tendências de fora. Então o que eu diria é: siga em frente, entenda que, se o seu instinto está te guiando em uma certa direção, e se você acha que a história que está contando é importante, é porque é. Você sempre encontrará sua audiência e estaremos aqui para apoiar você.
A gamescom latam ocorre no Pavilhão Anhembi, em São Paulo, entre 29 de abril e 3 de maio. Todos os jogos destacados nas imagens desta entrevista estão disponíveis para teste no estande do Latin American Games Showcase.





