Análise: Gecko Gods nos faz subir pelas paredes para explorar um arquipélago de ruínas mitológicas

Exploração em todas as direções na pele de uma pequena lagartixa escolhida pelos deuses.

em 27/04/2026

Quando uma lagartixa ficou à deriva no alto-mar em um galho quebrado, mal podia imaginar que desembarcaria em um arquipélago onde um dia habitaram os deuses lagartixas. A chegada é um augúrio: sendo semelhante às divindades, ela é sua arauta, a escolhida que deverá despertar os antigos em seus templos espalhados pelas ilhas.

Com essa premissa, Gecko Gods nos coloca no controle do bichinho comedor de insetos e oferece um mundo aberto para vasculhar e resolver puzzles simples. Nesse aspecto central, o game cumpre bem o que promete, mas outros aspectos me deixaram com a sensação de que poderiam ser mais aprofundados. Portanto, esta é uma análise positiva de uma forma geral, porém crítica das lacunas do potencial.



“Você pensa que é esperto? A lagartixa é muito mais: ela sobe na parede, coisa que você não faz!”

Como diz a canção militar do subtítulo acima, um traço forte das lagartixas é a capacidade de subir em paredes. Gecko Gods não ignora esse fato e o coloca como elemento central da dinâmica de gameplay: nossa protagonista arauta dos deuses pode andar sobre toda e qualquer superfície firme o bastante para suportá-la. Isso significa que, exceto pela água e plantas menores, temos livre movimentação no controle dela, do chão ao teto, sem qualquer limite de energia ou tipo de material escalável.

É da passagem de um ângulo para outro que surgem alguns problemas, quando o direcional manobra de uma forma pela parede e fica confuso ao subirmos no teto. Isso gera alguns momentos de interrupção na fluidez, enquanto tentamos coordenar a câmera com a inclinação do analógico de forma a prosseguirmos na trajetória.

Isso só chega a ser um problema relevante quando o conflito de direções faz a lagartixa se afastar da parede em vez de mudar para o plano perpendicular, desgrudando dela em queda e, por consequência, nos obrigando a refazer a subida. Felizmente, não é algo muito frequente e pode ser evitado ao tomar cuidado nas transições mais acidentadas.



Um animal mais humilde do que deveria

Além da escalada livre, a lagartixa tem apenas uma investida no chão ou no ar, também usada para comer insetos e atacar inimigos.

Os insetos são meros colecionáveis espalhados pelo arquipélago para tornar a exploração mais interessante e prover uma atividade simples de caça. É uma boa adição, mas carece de diversidade, pois vários deles são apenas mudanças de cores de acordo com a região.

Essa superficialidade também está presente no combate, que tem presença praticamente simbólica em Gecko Gods. Os inimigos são poucos, são esparsos e não oferecem qualquer desafio. Só podemos atacá-los com a investida e, em um ou dois acertos, os destruímos.



Eu até poderia desconsiderar o combate como o equivalente a um mero acessório decorativo, mas, perto do fim, aparecem algumas poucas “arenas” em que precisamos derrotar os oponentes para abrir as portas do local. Esse tipo de inclusão acaba sendo uma distração em que o jogo parece querer levar esse elemento mais a sério do que merece.

Nem mesmo quando os inimigos passam a disparar vários projéteis a peleja ganha algum sentido, dada a grande resistência da arauta: morri uma única vez no jogo inteiro e o fiz de forma proposital, deixando-me ficar em cima de cactos para ver até onde a bichinha aguentaria. No fim das contas, aguenta muito, precisando de muito dano até perder o rabo, como esperado de uma lagartixa, e ainda mais uma porção até finalmente morrer.

Toda essa vitalidade permite atravessar algumas pequenas porções de água, porém, para chegar às outras ilhas, é necessário usar a outra grande habilidade natural das lagartixas: velejar.



Por mares, desertos e ruínas

Oh, espere, essa não é uma habilidade natural, mas a heroína em missão divina realmente consegue tomar o leme de um barco e navegar pelo arquipélago sozinha. A nau é obtida ao completarmos a ilha inicial e, logo em seguida, o mundo fica completamente livre e aberto. A escolha por organizá-lo em ilhas é uma estrutura eficiente em dividir o design de níveis de forma a podermos completar um local de cada vez, à nossa escolha.

Além de manter os olhos bem abertos para encontrar passagens e segredos, a aventura pelas ilhas envolve uma gameplay baseada em puzzles simples: puxar alavancas, girar manivelas para a posição correta, ativar circuitos de energia, e por aí vai. Ainda que os enigmas não quebrem a cabeça de quem joga, são satisfatórios e todos os seus elementos estão organizados de maneira lógica e coesa em cada local, evitando confusão.



Senti falta de segmentos que, paralelos à exploração livre que domina o jogo, tornassem a movimentação mais desafiadora com o uso de perigos ambientais, partes em que eu precisasse tomar cuidado para chegar vivo até o objetivo e fizessem valer a grande quantidade de pontos de vida que a lagartixa carrega. Na verdade, os momentos finais entregam alguns exemplares disso, mostrando que faria sentido que a ideia fosse explorada mais a fundo ao longo da campanha.

Da mesma maneira, também senti falta de maior variedade de ambientação. Ainda que as ilhas do arquipélago se diferenciem bastante umas das outras em formato, elas compartilham das mesmas cores e elementos principais. Na prática, a maior distinção está na quantidade de vegetação, edifícios e ruínas, tornando Gecko Gods um jogo que, embora agradável aos olhos, com seus tons suaves, também é visualmente monótono. Ademais, a performance inconstante no PS5 tem oscilações frequentes que, se não atrapalham a gameplay, também não ajudam na experiência gráfica.



A construção mitológica do mundo cai na mesma categoria: agradável e superficial. As ruínas servem à ambientação de mitologia antiga, com pássaros falantes, estátuas, casas, templos, passagens secretas e rastros de uma civilização adoradora de lagartos que, em tempos imemoriais, sucumbiu sob as areias do tempo. Seus murais pintados são bonitos, mas não comunicam muito e são repetitivos.

Nem mesmo os artefatos escondidos contribuem para aprofundar o contexto, assim como as moedas obtidas ao quebrar vasos só são usadas para comprar cosméticos, mudando as cores e estampas do bichinho. Somando aos insetos, que já mencionei, essas mecânicas parecem deslocadas em sua falta de propósito.



Considero, portanto, que Gecko Gods diverte e satisfaz em sua dinâmica central de exploração livre e puzzles, mas deixa a sensação de que maior aprofundamento tornaria suas outras qualidades mais marcantes.

Tem uma lagartixa à solta no arquipélago

Gecko Gods é uma agradável aventura de exploração por mundo aberto. O ponto central da gameplay é a escalada livre: nas patas de uma lagartixa, podemos andar por todas as superfícies e solucionar os puzzles que nos permitem progredir na campanha. No entanto, o minimalismo empregado dá ares de superficialidade e deixa a sensação de que certos aspectos fossem melhor aproveitados, como a história do mundo, a variedade de ambientes e os desafios de design de níveis.



Prós

  • O mundo amplo é potencializado pela liberdade de andar em qualquer superfície sólida, do chão ao teto;
  • O ritmo tranquilo deixa a exploração a cargo de quem joga, sem muitas interrupções e com puzzles intuitivamente bem posicionados.

Contras

  • O minimalismo da narrativa, dos ambientes e de certos sistemas acaba caindo na superficialidade;
  • Performance trepidante no PS5.
Gecko Gods — PC/PS5/Switch — Nota: 7.5
Versão utilizada para análise: PS5

Revisão: Heloísa D'Assumpção Ballaminut
Análise produzida com cópia digital cedida pela Super Rare Games
OpenCritic
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Victor Vitório
Admiro videogame como uma mídia de vasto potencial criativo, artístico e humano. Jogo com os filhos pequenos e a esposa; também adoro metroidvanias, souls e jogos que me surpreendam e cativem, uma satisfação que costumo encontrar nos indies. Veja minhas análises no OpenCritic.
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