Além dos 11 capítulos da linha principal, a franquia de RPGs concebida por Yuji Horii ostenta inúmeros spin-offs que exploram diferentes gêneros. Entre essas derivações, Dragon Quest Monsters, iniciada em 1998 no Game Boy Color e cujo foco está em domar e utilizar criaturas em combate, pode ser considerada a mais relevante.
O produto mais recente dessa subsérie de monstrinhos é Dragon Quest Monsters: The Dark Prince, lançado em 2023 para Nintendo Switch e disponibilizado em 2024 para PC. Além de repetir e refinar muitos dos acertos característicos da fórmula estabelecida ao longo dos anos, corrigindo também um dos principais problemas recorrentes em títulos anteriores, a obra se destaca por expandir a trajetória de Psaro, um dos antagonistas mais marcantes de todo o universo de Dragon Quest.
A ascensão do mestre dos monstros
Em sua grande maioria, as produções anteriores de DQ Monsters costumavam apresentar narrativas mais simples, nas quais o principal propósito era apenas justificar a progressão de poder do jogador. No entanto, The Dark Prince busca se aproximar mais do modelo adotado pelos títulos principais, apostando em uma trama com maior peso dramático e foco no desenvolvimento de seu protagonista.
A história da vez acompanha Psaro, um híbrido de humano e demônio que, durante a infância, sofre preconceito de outras crianças e acaba tendo sua casa incendiada, sendo expulso de sua comunidade juntamente com sua mãe doente após um mal-entendido. Para piorar, ao buscar ajuda de seu pai Randolfo, governante do submundo, o rapaz é punido com uma maldição que o impede de ferir monstros.
Diante dessa situação e desejando se vingar de seu progenitor, o jovem passa a aprender a arte de domar criaturas no reino dos demônios Nadiria, vencendo torneios, aumentando sua popularidade e adquirindo aliados cada vez mais poderosos para alcançar seu objetivo. Durante sua jornada, ele salva uma elfa chamada Rose, que, em retribuição, decide acompanhá-lo e auxiliá-lo.
O enredo de The Dark Prince se desenvolve como uma espécie de história de origem, mostrando os eventos que moldaram a personalidade e as motivações de Psaro até ele se tornar o grande antagonista de Dragon Quest IV: Chapters of the Chosen. Nesse sentido, o jogo apresenta sua ascensão como líder dos demônios, a origem de seu ódio pela humanidade e, principalmente, o fortalecimento de seu vínculo com Rose, que desempenha um papel fundamental em toda a sua trajetória.
Embora ainda não esteja no nível das melhores jornadas da linha principal, como Dragon Quest V, Dragon Quest XI e o próprio Dragon Quest IV, para os padrões de um spin-off e do que geralmente vemos dentro do gênero de RPGs com coleta de monstros, a trama do mais recente Dragon Quest Monsters é acima da média e cumpre muito bem o seu papel. Infelizmente, o título segue um padrão recorrente da série e, assim como os demais, não conta com legendas em português.
Nadiria e seus múltiplos ambientes
A construção de mundo e os elementos de exploração em The Dark Prince também representam uma grande evolução dentro da subsérie Monsters. Aqui, a aventura ocorre principalmente no mundo de Nadiria, que é dividido em grandes áreas chamadas de círculos. Cada um desses ambientes, por sua vez, é subdividido em três escalões distintos: inferior, intermediário e avançado.
Além da diversidade visual entre as diferentes regiões, há uma progressão clara de dificuldade conforme o jogador avança entre as superfícies. Enquanto as áreas iniciais tendem a ser mais lineares e abrigam criaturas relativamente frágeis, os níveis superiores concentram demônios mais poderosos e trazem uma quantidade maior de obstáculos e quebra-cabeças que dificultam o nosso avanço.
Outro elemento que contribui para agregar variedade à exploração é o sistema de estações do ano, que se alternam em tempo real entre as tradicionais primavera, verão, outono e inverno. Para mais do que afetar a aparência dos cenários, essas mudanças influenciam os tipos de monstros disponíveis em cada região e modificam aspectos do ambiente, abrindo ou bloqueando caminhos e permitindo o acesso a zonas que só podem ser exploradas em determinadas condições climáticas.
O game conta com a tradicional mecânica de mini-medals, que podem ser trocadas por itens variados, bem como também é possível encontrar ovos de monstros raros espalhados pelo mundo, o que incentiva ainda mais a exploração minuciosa. Graças a esse conjunto de mecânicas, temos em Dragon Quest Monsters: The Dark Prince um ciclo de exploração dinâmico e de profundidade ímpar dentro do gênero, com alguns trechos se assemelhando a jogos de aventura e plataforma.
Na versão de PC, navegar por Nadiria se torna ainda mais agradável, já que, além das opções de resolução superior, o jogo consegue manter uma taxa de quadros estável mesmo em situações com muitas criaturas, algo que não ocorria na versão de Switch. No entanto, também é importante destacar que a natureza de spin-off (e de título projetado originalmente para o portátil da Nintendo) é nítida, o que resulta em uma obra visualmente limitada em certos aspectos, especialmente na modelagem de elementos do cenário, como árvores, grama e rochas.
Sistema de combate viciante e de infinitas possibilidades
Dragon Quest Monsters: The Dark Prince segue o modelo clássico de combate por turnos. Durante a exploração, é possível visualizar as criaturas circulando pelos cenários, e os confrontos só se iniciam quando nos aproximamos delas. Vale destacar que muitos monstrinhos apresentam comportamentos que dão mais vida ao mundo e tornam o título hilário, como seres ouvindo instruções de um líder ou bichinhos menores andando em fila atrás de um maior.
Nas lutas, o jogador pode utilizar até quatro demônios principais, além de manter outros quatro como reservas. Como é tradicional na série e nas boas produções do gênero, há diversos elementos a serem considerados para um melhor desempenho em combate, incluindo diferentes tipos de habilidades físicas e mágicas, efeitos debilitantes e positivos, além de talentos passivos.
Os torneios, que são uma das características mais memoráveis da série, também marcam presença em The Dark Prince. Nesses eventos, não podemos controlar diretamente os monstros nem utilizar itens durante as batalhas. Em vez disso, é necessário definir previamente o comportamento da equipe, escolhendo estratégias automáticas como focar na ofensiva, enfraquecer o oponente ou priorizar a cura dos aliados. Fora do coliseu, o controle das bestas volta a ser totalmente manual.
Para recrutar novos aliados, utilizamos a mecânica Scout, que funciona como uma espécie de demonstração de força dos nossos parceiros. De forma bastante inteligente e coerente com a narrativa, esse sistema normalmente gera porcentagens mais baixas quando visitamos uma nova área pela primeira vez, já que Psaro ainda não possui influência naquele local. No entanto, essa taxa aumenta consideravelmente à medida que o jogador avança na região, ajuda criaturas locais e vence torneios, fazendo com que sua reputação se espalhe pelo território.
Além do Scout, outra forma importante de obter novas criaturas é por meio da Synthesis, que permite combinar duas ou quatro criaturas para gerar uma nova espécie. O monstro resultante herda atributos de todos os seus progenitores e pode absorver até três conjuntos de habilidades, o que abre espaço para inúmeras possibilidades de personalização.
Com mais de 500 monstrengos disponíveis, cada um apresentando características próprias, Dragon Quest Monsters: The Dark Prince oferece uma grande diversidade de opções para a composição de equipes. Como resultado, o sistema de combate se mostra extremamente viciante, incentivando a experimentação constante e exigindo que o jogador construa times que não apenas atendam às suas preferências, mas também sejam capazes de se virar sozinhos nas arenas.
Na versão de PC, o game já vem com todos os DLCs pagos incluídos, o que inclui uma expansão que permite explorar masmorras dedicadas exclusivamente ao enfrentamento de bestas que já coletamos anteriormente, facilitando bastante o processo de Synthesis. Contudo, o título não conta com o sistema de batalhas online em tempo real presente na versão de Nintendo Switch, o que pode desapontar parte do público.
Um dos grandes RPGs de monstrinhos
Dragon Quest Monsters: The Dark Prince representa uma evolução notável dentro da linha Dragon Quest Monsters. Ao apostar em uma narrativa mais elaborada que a de seus antecessores, um sistema de combate altamente personalizável e um mundo extremamente interessante de se explorar, o título consegue entregar uma experiência muito divertida e de grande destaque dentro do subgênero de RPGs focados na coleta de criaturas.
Prós
- Narrativa que se aproxima um pouco mais da qualidade dos games principais, dando mais profundidade a um dos melhores antagonistas da franquia;
- A diversidade visual, geográfica e de desafio gerada pelos círculos, escalões e estações faz com que Nadiria seja um mundo extremamente divertido de se explorar;
- Sistema de combate viciante e desafiador, enriquecido pela mecânica de Synthesis, que gera infinitas possibilidades na criação de monstros;
- A versão de PC conta com todos os DLCs pagos inclusos e corrige a taxa de quadros oscilante da versão de Nintendo Switch.
Contras
- Algumas limitações visuais perceptíveis, especialmente em elementos de cenários como árvores e grama;
- Versão de PC não conta com o modo de batalhas online em tempo real, disponível no Switch;
- Ausência de legendas em português.
Dragon Quest Monsters: The Dark Prince — PC/Mobile/Switch — Nota: 9.0Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Thomaz Farias
Análise produzida com cópia adquirida pelo redator














