O desfecho de Desmond
Enquanto nos preparamos para acompanhar uma nova história com Connor, também veremos o apagar das luzes da narrativa que acompanhava a franquia desde o primeiro jogo. No presente, Desmond Miles, agora livre de seu “coma” dentro do Animus, volta a utilizar o dispositivo para acessar as memórias de seus ancestrais na tentativa de evitar o fim do mundo.
Ao longo dos títulos anteriores, Desmond e seus aliados descobriram que uma antiga civilização deixou mensagens alertando sobre um desastre capaz de destruir a humanidade. Essas mensagens apontam para um acontecimento real associado ao calendário maia em 2012, que em tese indicava uma catástrofe que acabaria com o planeta.
Ao longo de Assassin's Creed III, Desmond busca um artefato capaz de impedir esse evento. A solução, porém, exige que Desmond aceite o fim do mundo e se torne o condutor dos sobreviventes, sabendo que eventualmente tudo de ruim que a humanidade já executou se repetirá, ou que ele sacrifique a própria vida para impedir que o cataclisma aconteça, deixando a vida seguir seu curso. Essas escolhas serão explicitamente representadas durante o jogo pelas visões de mundo assassinas e templárias.
O novo mundo
A Revolução Americana foi um processo turbulento, cheio de contradições e disputas de poder, e é exatamente isso que vemos na obra. No centro dessa história está Ratonhnhaké:ton, renomeado Connor Kenway, pois, como tinha a pele mais clara que os nativos por conta de seu pai, com este nome poderia se passar como um europeu para evitar a discriminação.
A obra cobre aproximadamente 30 anos da história americana, se passando entre 1753 e 1783. Esse período engloba a revolução em si e também os eventos que a antecedem. Começamos a jornada durante a “Guerra dos Sete Anos". O conflito envolveu britânicos, franceses e diversas nações indígenas disputando o controle da América do Norte.
A vitória britânica, porém, trouxe um problema inesperado: o custo da guerra. Para recuperar os cofres da coroa, o governo impôs novas taxas às colônias — medidas como a “Lei do Selo” (imposto direto britânico sobre documentos, jornais e cartas nas colônias americanas para pagar a defesa pós-guerra) e a “Taxa do Chá” (medida britânica que permitiu à então falida Companhia das Índias Orientais vender chá diretamente às colônias americanas, contornando intermediários, mas mantendo a mesma tributação. Embora tornasse o chá mais barato, os colonos viram isso como um monopólio e abuso de poder, gerando a revolta conhecida como “A Festa do Chá de Boston”).
O jogo permite que o público testemunhe esses momentos como alguém que esteve lá durante o caos político e social das colônias. Mais importante ainda: Assassin's Creed III enfatiza que a revolução foi também uma guerra civil. Colonos se dividiram entre Patriotas, que defendiam a independência, e os que permaneciam fiéis ao rei George III da Grã-Bretanha.
Um resumo perfeito para a campanha de Connor seria aqueles momentos em que as pessoas entram em alguma discussão sobre algo que você fez ou deveria fazer sem te incluir na conversa. Muito da campanha passa pelo domínio estratégico das terras indígenas, sem nunca incluí-los de fato na discussão. Aqui a Ubisoft, ainda em seus anos de coragem, mostrou como os povos originários eram tratados mais próximos de árvores que podem ser removidas do que como seres humanos.
Chá de revolução
Entre os eventos históricos que vivenciamos durante o desenrolar do jogo, os mais icônicos são:
A guerra Franco-Indígena 1754-1763
O primeiro grande conflito presente na cronologia do game é a guerra travada entre Grã-Bretanha e França pelo controle territorial da América do Norte. Os britânicos prometeram proteger territórios indígenas contra a expansão colonial caso fossem apoiados na guerra. Já os revolucionários americanos defendiam a independência, mas deixavam claro que o crescimento da nova nação exigiria a ocupação de novas terras. O resultado final foi a vitória britânica e a expulsão da França de grande parte de seus territórios na região.
No entanto, a vitória trouxe um problema: o Império Britânico ficou profundamente endividado. Para recuperar os cofres da coroa, o governo decidiu impor novos impostos às colônias. Essa decisão gerou insatisfação entre os colonos e criou as condições que levariam à revolução.
A guerra de independência 1775-1783
Ao longo da campanha, acompanhamos o desenrolar da guerra, em alguns momentos, inclusive, ao lado de figuras históricas como o então comandante George Washington.
O título recria vários momentos marcantes e cruciais do conflito, como as batalhas de Lexington, Concord, Bunker Hill e Monmouth, uma das maiores batalhas travadas durante a campanha militar. O desenrolar da narrativa mostra gradualmente a transformação dos protestos e revoltas em um conflito armado de grandes proporções.
A festa do chá de Boston - 1773
Na ocasião, colonos revoltados com os impostos britânicos sobre o chá invadiram navios mercantes no porto de Boston e lançaram carregamentos inteiros da mercadoria ao mar. O ato foi um protesto direto contra o monopólio comercial imposto pela coroa e contra a política de tributação abusiva.
No jogo, Connor tem participação direta, ajudando a destruir as caixas de chá antes que os soldados britânicos consigam impedir o ataque.
Historicamente, o episódio gerou grandes consequências: o governo britânico respondeu com medidas severas, conhecidas como “Atos Intoleráveis” (medidas que foram desde o fechamento do porto de Boston e a restrição ao autogoverno da colônia até o alojamento obrigatório de tropas, o que obviamente só aumentou as tensões).
O massacre de Boston - 1770
Este aparece em uma das partes iniciais do game, ligado à narrativa de Haytham Kenway, o templário pai de Connor. Ficção à parte, o evento começou como um confronto entre colonos e soldados britânicos nas ruas e terminou com disparos contra civis, resultando na morte de cinco colonos. Gravuras e panfletos circularam pelas colônias retratando o incidente como um massacre deliberado, alimentando o sentimento anti-britânico.
A Declaração de Independência - 1776
O clímax político da revolução ocorreu com a assinatura da Declaração de Independência dos Estados Unidos. Redigido principalmente por Thomas Jefferson, o documento formalizou a ruptura das colônias com o Império Britânico e proclamou a criação de um novo país.
O ponto que é muito bom de se dar a devida atenção é que, em determinado momento, Connor presencia e participa dos eventos que levam à criação da declaração da independência, que proclama que “todos os homens são criados iguais”. O detalhe brilhante aqui está justamente em Connor, um homem mohawk cujo nome verdadeiro é Ratonhnhaké:ton, que presencia a construção dessa nova nação sabendo que aquelas palavras não se aplicam ao seu povo.
Por dentro da história
Ao integrar esses eventos à trajetória de Connor, Assassin's Creed III transforma o jogador em uma testemunha direta de um dos períodos mais turbulentos da história moderna. Testemunha, inclusive, podemos dizer que é o que diferencia o jovem mohawk de Ezio e Altair, que eram muito mais protagonistas de seus períodos. O que aqui não é nenhum demérito, porque a escolha narrativa é proposital e foi muito bem executada.
Através de protestos populares, batalhas militares e decisões políticas que moldaram o destino de um continente, o jogo constrói um enredo em que ficção e história caminham lado a lado, convidando o público a observar as contradições e os custos humanos da luta pela liberdade. Uma promessa que, como Connor descobre ao longo de sua jornada, raramente se concretiza de forma igual para todos.
Atmosfera revolucionária
Diferente das cidades densas e verticais da Europa exploradas nas produções anteriores da série, as cidades coloniais americanas apresentam uma arquitetura completamente diferente.
No jogo, Boston e Nova York aparecem como centros urbanos em transformação. As ruas são mais largas, os prédios mais baixos e a atmosfera política é constante.
Panfletos circulam nas ruas, protestos ocorrem nas praças e tavernas fervilham com discussões políticas, trazendo de volta um discreto, mas recorrente personagem da franquia, o arauto, aqui fazendo sua tradicional participação. O ambiente urbano se torna um reflexo direto da instabilidade do período. Isso tudo ajuda a mostrar que a revolução foi construída com propaganda, agitação popular e na política do dia a dia.
Natureza, sobrevivência e guerra
O mapa conecta Boston e Nova York através de vastas áreas de floresta, rios e montanhas. Essa paisagem representa o território que colonos, impérios e povos indígenas disputaram no século XVIII.
Aqui o títuli introduz uma mecânica de parkour repaginada. Diferente dos anteriores, Connor se movimenta entre árvores, penhascos e rios congelados. A mudança visa refletir a formação cultural do protagonista.
O sistema climático também contribui para a imersão histórica. Durante o inverno, a neve profunda dificulta a movimentação de soldados europeus, enquanto Connor utiliza as árvores para se deslocar rapidamente, o que o reforça como um predador devidamente adaptado ao ambiente.
Assassinos e Templários
No coração da narrativa está o debate ideológico entre Connor e seu pai Haytham Kenway.
Haytham representa a visão templária de que a humanidade precisa de ordem e controle para evitar o caos. A liberdade absoluta, em sua visão, leva inevitavelmente à instabilidade. Já Connor defende o direito de cada povo escolher seu próprio destino.
Essa discussão ganha força quando as figuras históricas passam a ser utilizadas como ferramenta narrativa. Personagens como George Washington, Benjamin Franklin e Samuel Adams são apresentados de maneira menos idealizadas do que costumam aparecer tradicionalmente em filmes, séries e demais adaptações.
Washington, por exemplo, é mostrado como um líder revolucionário, mas também como alguém que deu aval a ataques contra aldeias indígenas em conflitos anteriores. Esse tipo de abordagem reforça o tema central do jogo: a revolução promete liberdade, mas nem para todos.
Figuras da história
Uma das marcas registradas da franquia Assassin's Creed é inserir figuras históricas reais diretamente na narrativa. Em Assassin's Creed III, Connor cruza caminho com diversos líderes e personagens influentes da Revolução Americana.
George Washington
Comandante do Exército Continental e figura central na luta pela independência. Ao longo da campanha, Connor auxilia Washington em várias operações militares, embora o título também apresente o líder revolucionário de forma menos idealizada, lembrando episódios controversos de sua carreira militar.
Samuel Adams
Um dos agitadores políticos mais ativos das colônias e um dos organizadores da resistência contra o domínio britânico. Adams representa no jogo o espírito revolucionário presente nas ruas de Boston.
Benjamin Franklin
O cientista e diplomata que simboliza o pensamento iluminista que influenciou profundamente os ideais da revolução.
Israel Putnam
General americano que participa da Batalha de Bunker Hill e aparece durante os eventos militares da narrativa.
Charles Lee
General do Exército Continental que, no universo da obra, ocupa uma posição central dentro da Ordem dos Templários nas colônias e atua como infiltrado no Exército Continental.
Historicamente, Lee foi uma figura controversa, batendo de frente com George Washington e sendo posteriormente afastado de seu posto. O jogo utiliza a ambiguidade de Lee para construir um antagonista que é um dos melhores exemplos de ficção histórica da franquia.
Ao combinar personagens documentados com a trama fictícia da guerra secreta entre Assassinos e Templários, o jogo cria uma narrativa híbrida em que acontecimentos reais e conspirações imaginárias se entrelaçam. Essa mistura é justamente o que dá à série sua identidade única: uma forma de revisitar a história não apenas como registro do passado, mas como palco de conflitos ideológicos que ecoam até o presente.
Uma nova fase na franquia
Um elemento importante introduzido em Assassin's Creed III, aproveitando o contexto histórico como um teste para a franquia, foi o combate naval. Comandando o navio Aquila, Connor participa de batalhas no Atlântico Norte e no Caribe, refletindo a importância estratégica da marinha durante a Revolução Americana.
Essas batalhas incluem táticas reais da guerra naval do século XVIII e foram tão bem aceitas que se tornaram a base para um dos jogos favoritos dos fãs, Assassin's Creed IV: Black Flag, e o nem tão celebrado Assassin's Creed Rogue, retornando posteriormente como padrão na era RPG.
Vitória amarga
Connor ajuda os revolucionários a derrotar os britânicos e contribui direta e indiretamente para o nascimento de uma nova nação. No entanto, ao retornar para sua aldeia, descobre que seu povo foi forçado a abandonar suas terras, que foram vendidas para pagar dívidas de guerra da recém-criada república.
O final, com Connor observando um navio de escravos chegando ao porto, resume perfeitamente a ironia histórica: uma nação fundada em nome da liberdade ainda carregava profundas contradições.
Se Ezio Auditore terminou sua história cercado por família e legado, Connor termina a sua isolado. Sua vitória é também uma lembrança de que a liberdade celebrada nos livros de história foi construída parcialmente com a importação de escravos, que só viria a ser proibida em 1808.
Até breve, Novo Mundo
Se você jogou todos ou muitos dos games da saga e tem acompanhado esta série sobre como a Ubisoft criou uma franquia com elementos únicos de ficção histórica e estabeleceu diversas mecânicas para a indústria como um todo, sabe que a partir de Assassin’s Creed III o conteúdo e escopo dos jogos aumentaram muito. A partir daqui tomarei um caminho que até mesmo a desenvolvedora não tomou, precisarei aumentar o tempo de desenvolvimento. Nos vemos em breve com a sexta parte desta modesta série de artigos que celebram a franquia Assassin’s Creed, desta vez em alto mar, com as bandeiras em riste e cantando “Leave her, Johnny, leave her”.
Revisão: Thomaz Farias

