Desenvolvido pela Marvelous, Rune Factory: Guardians of Azuma combina diferentes gêneros com naturalidade: é, ao mesmo tempo, um RPG de ação, um simulador de fazenda e um gerenciador de vida, permitindo cultivar plantações, enfrentar monstros e construir laços de amizade com diversos personagens. Apesar de essa mistura soar caótica à primeira vista, o resultado é uma experiência coesa e extremamente envolvente.
Como Lucas Oliveira já havia destacado na análise da versão de PC, o jogo se sustenta justamente nesse equilíbrio entre combate, progressão e relações interpessoais. Lançado em fevereiro deste ano para o PlayStation 5, resta a pergunta: será que a versão para consoles também faz jus à proposta e entrega um investimento que realmente vale a pena?
Anime, muito anime
A história segue uma estrutura bastante tradicional: escolhemos o protagonista: garoto ou garota, e despertamos em Azuma sem entender exatamente o motivo. Logo somos recebidos por alguns personagens que nos apresentam ao mundo, às suas regras e às principais mecânicas. Descobrimos também que a região está em ruínas e, quase naturalmente, assumimos a missão de ajudá-la a se reerguer com o auxílio de poderes divinos.
É um resumo simplificado, mas a base narrativa é bastante clássica dentro das produções japonesas. Isso não chega a ser um demérito, mas em diversos momentos a sensação de déjà vu é inevitável.
Talvez o maior charme da história esteja justamente no elenco. Cada personagem tem preferências, sonhos, manias e inseguranças próprias. À medida que aprofundamos os laços de amizade (ou romance), novas camadas vão sendo reveladas, tornando as interações mais interessantes e dando peso emocional à jornada e a algumas mecânicas.
Todos em um
O impacto inicial após o tutorial é genuinamente empolgante: todas as mecânicas apresentadas realmente funcionam, e melhor, se conectam entre si. É possível enfrentar monstros, conversar e evoluir laços com NPCs, cuidar das plantações, designar moradores para determinadas funções e coletar ingredientes para cozinhar ou forjar armas. O ciclo é constante e prazeroso. Sempre há algo para fazer, e os dias dentro do jogo passam quase sem perceber.
O sistema de RPG de ação é simples o bastante para não se tornar cansativo, mas possui profundidade suficiente para se manter divertido ao longo da campanha. Experimentar diferentes tipos de armas contra os inimigos é um dos pontos altos: espadas leves, espadas longas, arcos e até talismãs para conjurar magias, cada opção tem seu próprio ritmo, dano e conjunto de movimentos. Além disso, é possível recrutar NPCs com maior nível de afinidade para acompanhar o protagonista nas batalhas. Eles também evoluem de nível e se tornam mais fortes, especialmente quando recebem equipamentos melhores ou aprimorados. O único porém é a dificuldade: após as primeiras horas, principalmente depois de desbloquear habilidades mágicas mais poderosas, o desafio praticamente desaparece.
Já a parte de gerenciamento da fazenda funciona muito bem. Em cada região há um terreno específico que pode ser utilizado para cultivo, construção de casas e lojas (como ferreiro e casa de chá), além de decorações diversas. Também é possível empregar aldeões resgatados durante as aventuras para auxiliar nas tarefas. No entanto, esse sistema de delegação poderia ser mais eficiente: funções como mineração ou agricultura nem sempre parecem render o suficiente, o que acaba exigindo que o jogador realize manualmente atividades como regar e colher plantações. Ainda assim, o conjunto é sólido e bem integrado ao restante da experiência.
Os relacionamentos com os NPCs também têm papel importante. Ao aumentar o nível de afinidade, desbloqueamos recompensas como convites para jantares, a possibilidade de levá-los para batalhas e até presentes em nosso aniversário. Com o tempo, surgem opções para encontros e atividades específicas, que podem aumentar bastante o vínculo, ou não, dependendo das preferências de cada personagem. Descobrir esses gostos de forma orgânica é parte do charme e contribui para tornar a narrativa mais envolvente e pessoal.
Visualmente impressionante
O visual do jogo é genuinamente encantador. O uso de cel shading funciona de forma consistente, conferindo ao mundo uma identidade forte e reforçando sua estética claramente inspirada em anime. Os personagens são bem detalhados e oferecem certo nível de personalização, permitindo equipar chapéus, armaduras e outros acessórios. Mesmo seguindo um estilo típico das animações japonesas, os designs evitam exageros e mantêm um bom equilíbrio visual, especialmente quando inseridos nos belíssimos cenários.
As paisagens são vibrantes, com cores vivas e ambientes variados que ajudam a diferenciar cada região. Há um cuidado perceptível na construção dos cenários, que transmitem uma atmosfera acolhedora, mas ainda assim carregada de fantasia, algo que conversa perfeitamente com a proposta do jogo.
Por outro lado, há alguns problemas técnicos perceptíveis. Em determinados momentos, é possível notar animações com taxa de quadros mais baixa, especialmente em elementos que estão mais distantes do jogador. Esse efeito acaba chamando atenção de forma negativa, principalmente por ocorrer com certa frequência.
Ao optar pelo áudio em japonês, a experiência se aproxima ainda mais de um anime interativo. As atuações de voz dão mais personalidade aos personagens e tornam vários diálogos mais carismáticos e divertidos. É, sem dúvida, a melhor forma de jogar, embora a ausência de legendas em português seja uma limitação que pode afastar parte do público.
Vale a pena?
Rune Factory: Guardians of Azuma é um jogo muito fácil de recomendar, especialmente para quem ainda não teve contato com a versão de PC. Embora todos os conteúdos adicionais já lançados estejam incluídos aqui, eles são majoritariamente cosméticos, o que não justifica, por si só, a compra de uma segunda cópia para quem já experimentou o jogo anteriormente.
No geral, mesmo com alguns tropeços técnicos, a integração entre combate, gerenciamento e relacionamentos funciona muito bem. Essa variedade de mecânicas cria um ciclo envolvente e prazeroso, que constantemente incentiva o jogador a avançar, fortalecer laços e descobrir o que vem a seguir. É uma experiência sólida, carismática e difícil de largar depois das primeiras horas, mesmo este sendo seu primeiro jogo na franquia.
Prós
- A história é cativante, mesmo recorrendo a clichês em alguns momentos;
- A mistura de mecânicas funciona muito bem em conjunto;
- O combate é bastante diversificado graças à variedade e troca de armas;
- O sistema de crafting é simples, mas eficiente e funcional;
- A dublagem em japonês é de alta qualidade e se integra muito bem à narrativa.
Contras
- Animações mais distantes apresentam queda perceptível na taxa de quadros;
- O sistema de recrutamento de aldeões para certos trabalhos, como agricultura, não parece tão eficiente quanto deveria;
- Não há opção de legendas em português.
Rune Factory: Guardians of Azuma — PC/PS5/XSX/Switch/Switch 2 — Nota: 8.5Versão utilizada para análise: PS5
Revisão: Johnnie Brian
Análise produzida com cópia digital cedida pela Marvelous USA



