Análise: Homura Hime é um gracioso hack and slash de baixa exigência técnica

Embora carente de desafio ou de sistemas complexos de jogabilidade, o título desenvolvido pelo Crimson Dusk ainda consegue entregar diversão honesta.

em 15/03/2026


Em uma indústria tão saturada de roguelikes-deckbuilders-RPGs ou de cozy-sims, de tempos em tempos surge um produto que parece querer bater de frente contra essas superestruturas vigentes. Tendo isso em vista, Homura Hime é um simpático exemplar de jogo de ação em hack and slash que parece se esforçar bastante nessa empreitada, apesar de optar por seguir pela rota da simplicidade em detrimento da exigência técnica.

Note-me, por favor, 2B-Senpai!

Logo no tutorial, qualquer veterano de jogo de ação vai assimilar exatamente o que Homura Hime tenta fazer com sua jogabilidade: é um clone cuspido de Nier: Automata. É um esquema de controle tão na cara    que fica difícil ignorar esse elefante em cima da árvore. Dessa forma, a personagem principal tem acesso a dois golpes básicos — fracos e fortes —  cuja sequência alternada pode reproduzir diferentes tipos de combos.




No aspecto defensivo, Homura Hime pode tanto esquivar através do comando de dash quanto dar parry, a técnica de aparagem de ataques na qual o jogo sustenta boa parte da sua jogabilidade. O principal diferencial, entretanto, logo fica evidente, mesmo após alguns minutos de jogo, uma vez que não há qualquer restrição de uso para tais habilidades de aparagem.

Não há penalidades, tempos de cooldown ou utilização de uma barra de vigor que vai sendo consumida de acordo com a utilização desses sistemas. É uma decisão curiosa que acaba contrastando com boa parte das tendências atuais e faz com que Homura Hime consiga se aproximar de um verdadeiro hack and slash dos tempos áureos do gênero.




É interessante também como o título também que tem plena noção de suas capacidades e limitações. Longe de contar com um rigor técnico como é o caso de um Ninja Gaiden — cujo quarto game foi lançado não tem muito tempo e parece aposta única e exclusivamente nessa sua característica —, o jogo desenvolvido pelo Crimson Dusk é bastante piedoso se comparado a outros jogos do estilo.

A própria mecânica de parry é um atestado crasso desse autoconhecimento. Sendo um indie que aparentemente passou por poucas e boas durante seu desenvolvimento (para se ter uma ideia, ele foi anunciado em 2021), a janela para aparar os golpes dos oponentes é bem ampla, além dos inimigos brilharem momentaneamente antes dos ataques e o jogador ainda ser permitido a espamar o botão sem qualquer restrição, como já mencionado.




Nota-se que nem todo golpe vai ser defensável dessa maneira, apenas os que emitirem um flash vermelho antes da investida. Um brilho amarelo, em contrapartida, é sinal de que a única forma de escapar é através da esquiva.

O parry também está intimamente ligado às habilidades especiais, um grupo de técnicas específicas que podem ser desbloqueadas e equipadas de acordo com a escolha e necessidade do jogador, como uma espécie gancho capaz de puxar os oponentes, a evocação de uma fênix que faz chover fogo na arena de batalha ou uma sequência de cortes especiais à distância.




Esses golpes, de maneira geral, não podem ser usados com tanta liberdade quanto os outros, uma vez que eles ficam bloqueados após serem lançados e só serão novamente liberados depois de certas ações por parte do jogador, no caso, a maior indicada é justamente o parry, mais uma das vantagens atribuídas à mecânica.

Adicionalmente, Homura Hime, a protagonista, também está acompanhada de Ann, uma assistente que assume a forma de um drone que está sempre no suporte e pode realizar disparos de longa distância tal como os pods de Nier. O dano desses Blessed Shots não é exatamente robusto, mas é bem útil para estender combos.




A necessidade de alternar entre ataques físicos e de projéteis também se mostra em certos inimigos protegidos por barreiras, cujo código de cor indica qual é a única vulnerabilidade deles. Um escudo azul mostra que é necessário utilizar Ann para quebrar essa defesa, enquanto ataques corpo a corpo são necessários contra oponentes protegidos por um escudo vermelho.

A evolução das habilidades de Homura Hime se dá basicamente através de upgrades adquiríveis na lojinha disponível tanto em localidades estratégicas dos estágios (antes dos chefes, por exemplo) quanto no hub acessado entre as fases. Derrotar inimigos, destruir caixas e elementos dos cenários são ações que renderão valores na moeda corrente do game e que pode ser investida no desbloqueio de novos combos, habilidades especiais, equipáveis e capazes de melhorar os atributos ou outros itens distintos, como o de ressurreição instantânea.




Além disso, após progredir até determinado ponto na história, Homura Hime ganha acesso a um golpe supremo que pode ser utilizado pontualmente e infringe uma quantidade exagerada de dano em todos os oponentes vulneráveis no cenário, causando bastante estrago em momentos oportunos.

A demo parecia mais difícil

Nota-se que enquanto o combate de Homura Hime bebe fortemente dessa influência nierística, a estrutura geral da campanha é uma referência que se estende a todo o corpo de trabalho da PlatinumGames, uma vez que a progressão se dá através de fases temáticas fechadas que são divididas por segmentos de combate e algumas outras situações específicas, como sequências de plataforma.




Tais segmentos ocorrem quase sempre em áreas isoladas em que a fuga é bloqueada e a única maneira de escapar é dilacerando todos os oponentes que o título decide conjurar na frente da protagonista. Como o jogo não exige muita precisão técnica por parte do jogador, a esmagadora maioria desses momentos é bem fácil de se superar sem tomar uma unidade de dano que seja.

Novamente, é aquela questão: o Crimson Dusk sabe que não pode entregar precisão técnica nos movimentos de Homura Hime, então aparentemente, projetaram um grau de desafio bem condescendente. Isso pode acabar entediando jogadores que estão atrás de uma experiência mais regada à adrenalina, mesmo que haja uma boa variedade de combos e opções para experimentar durante a jogatina.




Adicionalmente, fazendo jus ao seu fundamento de tentar pegar o que a PlatinumGames já fez de melhor no passado, cada uma dessas sequências de combate rendem uma pontuação que, no final da fase, são compiladas em uma classificação final. Para falar a verdade, por vezes é um pouco complicado de discernir o desempenho porque ele normalmente é qualificado através de ideogramas japoneses. A forma mais fácil de identificar tal performance acaba sendo o código de cor, sendo branco o melhor e vermelho o mais próximo do fracasso.

O diferencial mais interessante do combate de Homura Hime, entretanto, é a maneira com que ele tenta mesclar o combate hack and slash com elementos de bullet hell, poluindo a tela com disparos de energia que não podem ser aparados, apenas desviados.




Em algumas situações, inclusive, certos oponentes, principalmente os chefes, podem levar a protagonista a uma espécie de dimensão de bolso em que ela precisa cumprir algum tipo de dinâmica — como desviar do inferno de projéteis enquanto ataca utilizando o Blessed Shot a fim de quebrar a barreira ou aparar, sem erro, uma sequência de ataques — para então engatar em um ágil QTE que arranca um bom naco de vida do alvo atingido.

Enquanto o parry é uma mecânica de uso livre e contínuo, é por conta dessas sequências de projétil contra projétil que o jogo acaba tendo a coisa mais próxima de uma barra de stamina, já que o falso pod, se utilizado com muita constância, acaba superaquecendo e precisa de um rápido cooldown para se tornar novamente disponível.




Fora das batalhas, Homura Hime conta com momentos de travessia que acabam, vez ou outra, se mostrando como sequências de plataforma. Embora não sejam exatamente brilhantes, elas acabam agindo com certa funcionalidade para alternar os momentos de combate fechado. O mesmo pode ser dito para o design de fases, que até traz alguns segredos escondidos por rotas alternativas — como os diários com a mitologia do jogo ou os fragmentos que rendem melhorias de vida —, mas a impressão que fica é que há muito espaço desperdiçado.

Tudo isso é bem curioso porque eu cheguei a testar a demo durante o festival Vem Aí da Steam que aconteceu em outubro do ano passado e, pelas minhas impressões, muitas das minhas considerações parecem ter sido sanadas de uma forma ou de outra, para o bem ou para o mal.




Por exemplo, um aspecto que realmente se beneficiou do que foi apresentado na demonstração é a física, especialmente envolvendo as sequências de plataforma, uma vez que os pulos não pareceram tão pesados quanto anteriormente. A mocinha parece ter aprendido a saltar nesses meses de preparação para o lançamento. Em contrapartida, a versão de teste pareceu bem mais desafiadora e impiedosa do que essa final.

O único problema que parece ter se mantido foi a câmera, a despeito de amenizado, já que o sistema de trava de mira se mostrou bem funcional ao longo da jogatina. Se grandes clássicos do hack and slash, sofrem desse mal, ia ser surpreendente se o muito humilde (adjetivo usado em tom elogioso) Homura Hime conseguisse solucionar esse revés persistente para o gênero.



E a história?

A sustentação de Homura Hime em seu gameplay hack and slash faz com que a história possa ficar relegada a um segundo plano na hora de falar do título, mas isso não significa que ela não existe. No caso, a protagonista que dá nome ao jogo é uma espécie de exorcista que atua em prol de uma organização conhecida como Jinguu. Ao lado da sacerdotisa Ann, ela tem como principal missão derrotar uma série de entidades demoníacas cuja alma foi corrompida e acabam afetando todo o ambiente ao redor delas.

É uma premissa simples que serve muito bem para encapsular todo o aspecto visual do produto, uma vez que cada uma dessas almas vai corresponder a um chefe diferente que, por sua vez, vai se situar em diversas fases temáticas ao longo da campanha. Não precisa avançar muito no jogo para entender que existe um mistério por trás desses arquidemônios perturbados que enfrentamos.




O jogo todo, obviamente, usa e abusa de um hibridismo moderno de diversas estéticas japonesas, misturando anime com mitologia clássica, nada muito novo, mas tocado com alguma competência. Ainda assim, nada que realmente se destaque, já que, graficamente, Homura Hime até consegue chamar atenção pelos visuais coloridos, mas basta passear um pouco pelos estágios que a simplicidade das formas logo se torna evidente. Pelo menos, a estética cel-shaded ajuda muito na hora de maquiar essa rusticidade e a impressão geral acaba se mostrando positiva.

De forma complementar, é bem possível também que a carência de cenários complexos possa ser uma escolha deliberada a fim de tornar a aplicação mais leve e fluida, especialmente porque, apesar de um ou outro crash pontual, o game rodou sem problemas no PC utilizado para a produção dessa análise.




Adicionalmente, fora do combate e das situações jogáveis, salvo alguma sequência de impacto, como as cutscenes finalizadoras contra os chefes, o jogo conta com umas animações um tanto grosseiras. Não é nada que atrapalhe a experiência como um todo, mas chama a atenção o contraste da fluidez do combate com a movimentação truncada dessas cinemáticas. Onde importa, pelo menos, o Crimson Dusk caprichou.

Tendo tudo isso em vista, mesmo com essa simplicidade estrutural, é inegável que Homura Hime consegue entregar estilo e dinamicidade. A apresentação, como um todo, é cheia de energia, sendo que os combates contra os chefes, inclusive, são a epítome desse sentimento ao promover um espetáculo visual ao poluir a tela com uma infinidade de projéteis e ataques simultâneos ao mesmo tempo que a permissividade potencializa todo o estilo da heroína e, por extensão, do jogador. Trata-se de um sentimento esquisito de recompensa que vem da facilidade em executar todas as ações disponíveis no repertório da mocinha, algo que parece até contraditório quando estamos nessa jornada constante atrás de graus cada vez mais elevados de desafio.



Como diria a finada Hebe Camargo…

Estranhamente convidativo por contar com um dos sistemas de parry mais complacentes que alguém poderia imaginar, Homura Hime é uma verdadeira gracinha a nível visual e temático e que consegue oferecer diversão mediante um gameplay competente e fluido, embora se beneficiaria de mais de desafio para o jogador mais versado no gênero. Por ser um título independente tentando oferecer uma experiência diferente e um tanto mais elaborada do que a média para a categoria, dá para dizer que foi uma tentativa bem-sucedida, mesmo que com ressalvas.

Prós

  • Elementos de bullet hell misturados ao hack and slash trazem originalidade às batalhas;
  • Reprodução competente da jogabilidade de outros clássicos do gênero;
  • Gameplay fluido, estiloso e bastante agradável no geral em um fluxo consistente de evolução
  • Visual em cel shaded simpático que ajuda a disfarçar certas limitações

Contras

  • Baixo nível de desafio mesmo em dificuldades elevadas, especialmente para jogadores experientes no gênero.
  • Design de fases no limite da decência, com espaços mal aproveitados e sequências pouco inspiradas de plataforma.
  • A estrutura repetitiva somada à falta de exigência técnica pode resultar em tédio;
  • Por que é tão difícil fazer uma câmera decente em um hack and slash frenético?
Homura Hime — PC — Nota: 7.0
Análise produzida com cópia digital cedida pela Playism
OpenCritic
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João Pedro Boaventura
É jornalista formado pelo Mackenzie e pós-graduado em teoria da comunicação (como se isso significasse alguma coisa) pela Cásper Líbero. Tem um blog particular onde escreve um monte de groselha e também é autor de Comunicação Eletrônica, (mais um) livro que aborda história dos games, mas sob a perspectiva da cultura e da comunicação.
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