Análise: Etrange Overlord é uma jornada curtinha e ordinária pelo inferno

Novo título da NIS aposta na simplicidade enquanto peca pela repetição e escopo limitado, ainda que sustentado por seu charme narrativo.

em 23/03/2026


Se eu ganhasse uma moeda para cada jogo cuja personagem principal é uma espécie de figura vilanesca alegadamente condenada por tramar contra o status quo, eu teria duas moedas. Não é muito, mas é estranho que tenha acontecido duas vezes em um período de menos de um ano: a primeira com o incrível The Great Villainess: Strategy of Lily. A segunda com Etrange Overlord, que parte de uma premissa semelhante, mas segue por um caminho bem mais direto e descomplicado, tanto na forma de contar sua história quanto na maneira como estrutura sua jogabilidade.

Sentir-se em casa no inferno é, definitivamente, um sinal de alerta

A história de Etrange Overlord começa com Lady Étrange Von Roseburg, uma nobre que é condenada à guilhotina após ser acusada de armar um complô contra a família real. Morta, ela acaba no submundo e logo é atacada por uma série de demônios, o que a leva a exibir uma amostra de seus poderes.




Sua afinidade com a magia negra faz com que algumas dessas entidades tomem a decisão de se submeter à nobre, fazendo com que ela comece a fazer seu nome naquele lugar e, por consequência, angariar uma série de acólitos no processo — uma premissa bastante parecida com o The Great Villainess, aliás.

Dado esse pontapé introdutório, Etrange Overlord não é muito distante de qualquer jogo do Nippon Ichi Software, como Disgaea. São estágios sequenciais aqui acessados através de um grande mapa, e o jogador ainda conta com um hub onde certos aspectos, como os itens ou refeições que garantem bônus, podem ser gerenciados ou personalizados.

A jogabilidade prática, por sua vez, foge bastante da fórmula de RPG que consagrou o clássico da NIS e pisa um pouco mais no campo da experimentação ao trazer um gameplay mais voltado para a ação com uma vaga lembrança do estilo beat’em up. No caso, são combates amplos em arena contra inimigos cujo desafio consiste mais no volume em que aparecem do que nos padrões de ataque ou na inteligência artificial que define seu comportamento.




Os controles são mínimos e objetivos, resumindo-se apenas na utilização de um único botão para o ataque. Também é possível usar golpes especiais, esquivar e, por fim, trocar de personagem, uma vez que é preciso escalar quatro unidades antes de embarcar em cada combate.

A variação dos personagens serve muito bem para trazer novos estilos de combate e eles são recrutados ao longo da curta campanha, podendo ser tanto alguns demônios convertidos quanto antigos vassalos de Étrange que acabaram tendo o mesmo destino trágico que ela. O principal diferencial para cada fase está no design do terreno de cada um e no sistema de lanes, que consiste em trazer pequenas áreas com power-ups que podem tanto melhorar atributos de ataque e defesa quanto itens úteis para o combate, como bombas e canhões.




Por sua simplicidade, Etrange Overlord flerta demais com o erro de chatear pela repetição. Por sorte, os estágios contam com alguns objetivos distintos, mesmo que não sejam muito elaborados, como sobreviver dentro do tempo limite, proteger algum personagem ou estrutura, ou mesmo levar um artefato de um lugar a outro, para além do básico “derrote todos os inimigos”.

A graça é que a maior parte da jogabilidade não requer muita habilidade técnica, podendo conquistar o jogador através de todo o caos que exibe na tela. Nesse aspecto, ele me lembrou um pouco o que acontecia em Pokémon Rumble, cujo objetivo era controlar pequenas versões em brinquedo dos Pokémon por dungeons e enfrentar vários inimigos distintos enquanto o jogador ficava de olho basicamente na relação dos tipos entre atacante e defensor a fim de facilitar esse ordinário progresso.




Adicionalmente, além das fases da campanha principal, há uma variedade considerável de histórias paralelas que funcionam para desenvolver a simpática narrativa, explorando um pouco mais o cenário infernal no qual o jogo se situa, bem como a jornada de Étrange em sua busca por iguarias gastronômicas responsáveis por subir o nível de felicidade da moça e, por consequência, garantir mais possibilidades de aquisição de recursos e da personalização das lanes, configurando quais e quantos power-ups podem aparecer a cada estágio.

Aliás, a apresentação geral da narrativa acaba sendo o maior charme do título, com várias intermissões musicais e uma história exageradamente dramatizada, bem característica desse universo expandido da Nippon Ichi Software — mesmo que Etrange Overlord tenha sido desenvolvido por um novo estúdio independente, o SuperNiche, recém-fundado por Shohei Niikawa. O game, inclusive, é uma adaptação de uma novel escrita por ele mesmo sob o pseudônimo Roman Kitayama, o que acaba atribuindo um pouco mais de sentido para esse viés literário do resultado final.




Visualmente, também é um jogo que sabe muito bem lidar com a própria direção artística. O inferno inicial é um ambiente estranhamente bonito, sendo que os cenários subsequentes não ficam para trás. O design de personagens é bem charmoso, fazendo jus às suas personalidades pulsantes, especialmente no caso de Lady Étrange, e se traduzem na tela no formato de pequenos bonecos em estilo chibi muito bonitinhos e melhor modelados do que os de Disgaea após a transição para o tridimensional.

Ah, apesar dessa comparação insistente com Disgaea, Etrange Overlord conta com uma diferença fundamental em relação à forma atual com a qual se apresenta a IP carro-chefe da NIS: é um jogo notavelmente curto, durante um pouco mais de dez horas para ser definitivamente encerrado, ao contrário das dezenas de horas necessárias pelo RPG Tático que hoje se encontra em seu sétimo lançamento principal.




Isso acaba até sendo um pouco curioso, porque o primeiro título dessa série, ao contrário das sequências cada vez mais expansivas, leva mais ou menos esse tempo para ser concluído. Para complementar, a jornada de Étrange pelo inferno é o primeiro jogo com envolvimento direto de Niikawa desde 2003, quando participou da concepção de Hour of Darkness, o game de estreia da propriedade intelectual em questão.

Duas moedas ainda são duas moedas!

Etrange Overlord é uma produção curiosa. A simplicidade de seus sistemas somada à repetição estrutural da sua progressão acaba cerceando um pouco o proveito da experiência do gameplay, reduzindo-o àqueles já familiarizados com o estilo criativo das produções associadas à NIS. Ainda assim, é um jogo que consegue cumprir sua proposta mais enxuta de oferecer uma experiência leve e acessível, especialmente por sua graciosa apresentação narrativa e visual.




Por fim, para complementar, retomando a comparação feita originalmente no primeiro parágrafo, mesmo sendo uma produção enxuta, The Great Villainess: Strategy of Lily acaba servindo como um contraponto muito evidente de como é possível extrair maior densidade estratégica e narrativa a partir de uma base igualmente modesta. Isso não elimina o valor de Etrange Overlord e nem sequer minimiza sua opção por um caminho mais direto e descompromissado, contudo.

Prós

  • A narrativa é divertida, com personagens carismáticos e apresentação lúdica, sendo o ponto alto do título;
  • Jogabilidade acessível com seus controles simples e fases com metas bem diretas e claras;
  • As missões secundárias e objetivos variados, ainda que ordinários, ajudam a quebrar a repetição básica.

Contras

  • Sistemas pouco profundos limitam o engajamento a longo prazo;
  • Combate baseado mais em volume de inimigos do que em variedade ou complexidade reforçam o sentimento de tédio decorrente da repetição;
  • Pode ser pouco proveitoso para uma audiência fora do nicho recorrente da Nippon Ichi Software.
Etrange Overlord — PC/PS4/PS5/Switch — Nota: 6.5
Versão utilizada para análise: PlayStation 5
Revisão: Alessandra Ribeiro
Versão para análise produzida pela NIS America
OpenCritic
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João Pedro Boaventura
É jornalista formado pelo Mackenzie e pós-graduado em teoria da comunicação (como se isso significasse alguma coisa) pela Cásper Líbero. Tem um blog particular onde escreve um monte de groselha e também é autor de Comunicação Eletrônica, (mais um) livro que aborda história dos games, mas sob a perspectiva da cultura e da comunicação.
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