Apopia: Um Conto Disfarçado começa de um jeito parecido com muitas outras histórias. A protagonista, uma menina chamada Mai, está passeando pela neve com sua mãe quando uma força misteriosa acaba por fazê-la cair em um imenso buraco e desmaiar. A garota acorda em uma colorida terra desconhecida, onde encontra adversários perigosos e amizades fofas que a contam o nome e a situação desse lugar: trata-se de Iogurte, um reino recentemente dominado pelo maligno CHEFE. Com isso, um muro impede todos de saírem de lá, e a personagem terá que juntar forças com seus novos amigos para escapar e voltar para casa.
Em busca de uma identidade
A sina de Mai envolve também uma confusão severa sobre seu passado. Na verdade, há uma questão central na trama de Apopia: quem é a mãe da menina? Há um confronto entre uma Mãe Azul, boa e gentil, e uma Mãe Vermelha, cruel e raivosa, denunciada pela primeira como uma entidade mentirosa. Dessa forma, a protagonista se vê diante de uma encruzilhada sobre o caráter de sua família e sobre sua própria identidade. Pode-se traçar um paralelo entre essa busca pessoal e o caminho do jogo para se diferenciar de contos similares.
Felizmente, enquanto a angústia de Mai parece que vai durar por toda a história, Apopia não demora a construir sua identidade própria. Com uma combinação equilibrada de diálogos, puzzles e minigames, o jogo estabelece um fluxo de gameplay divertido e engajante, que não tarda a envolver o público. Destaque para os personagens que habitam Iogurte: todos são carismáticos logo de cara, mas rapidamente se revelam tridimensionais e bastante interessantes. Há de se mencionar um aspecto marcante, e constitutivo da referida identidade da obra: sua mistura tonal.
Crianças também podem se assustar
Apopia é uma aventura para toda a família. Isso fica claro pelo estilo de arte bem colorido, as piadinhas frequentes e o tom geral infantil. Porém, isso não significa que o título não possa ficar assustador; pelo contrário, ele possui elementos próprios do gênero terror. Acontece que as obras que têm as crianças como público alvo muitas vezes acabam por se limitar a um espectro emocional bastante restrito, como se tudo que os mais jovens pudessem digerir fosse alegria, risadas, e às vezes alguma tristeza para levar a uma alegria mais intensa no final. Trata-se de um erro crasso pois, dadas as óbvias devidas proporções, crianças são mais do que capazes de processar a ansiedade e o medo.
Assim, Apopia proporciona uma experiência assustadora segura para crianças, comparável a desenhos como Gravity Falls. A Mãe Vermelha é horripilante, seja pelo perigo representado por ela ou pelo mistério de sua natureza. As seções nas quais ela se faz presente causaram frios na barriga no adulto que vos escreve, e mal posso esperar para desvendar seus enigmas nos capítulos restantes do jogo. Certo é que ele mistura tons bastante distintos, e chega a explorar temáticas bastante maduras. A obra confia em seus jogadores para lidarem com emoções complexas e ligarem os pontos de relacionamentos ainda abstratos.
Uma exploração psicológica (literalmente!)
Até aqui, já escrevi um bom número de palavras sobre Apopia, mas ainda não toquei em uma das mecânicas do jogo com maior potencial. Trata-se do “Truque da Mai”, uma habilidade que permite que nossa protagonista entre na mente de qualquer pessoa. Com ela, podemos visitar os pensamentos dos personagens da obra, aprendendo mais sobre eles e seus passados. Eu simplesmente adoro quando jogos possuem algo do tipo, seja uma feature principal como em Psychonauts ou secundária como o Ferrão dos Sonhos de Hollow Knight.
Tais mecânicas sempre permitem ao jogador ter um vislumbre da interioridade dos personagens da obra, e Apopia: Um Conto Disfarçado não é exceção. Sempre é possível ter novos ângulos de figuras que até então apenas revelaram algumas facetas de suas personalidades. Com essa ferramenta em mãos, e preparado para enfrentar ameaças perigosas e sentir emoções bastante diferentes, o resto da jornada de Mai pela estranha terra de Iogurte me atrai vigorosamente.
Revisão: Thomaz Farias
Texto de impressões produzido com cópia digital cedida pela Happinet





