Apesar de pouco promovida pela Square Enix quando surgiu com PARANORMASIGHT: The Seven Mysteries of Honjo, em 2023, a série Paranormasight se espalhou pela comunidade de nicho na qual está inserida na base do puro boca-a-boca, e, assim, logo fez seu nome como queridinha cult. Trata-se de uma antologia de casos paranormais que assolam o Japão e trazem consigo todo tipo de tragédia e violência: no primeiro título, seguimos vários protagonistas pelo Banquete das Sombras, espécie de jogo da morte em um bairro de Tóquio cujas armas são maldições ancestrais.
Agora, o Contador de Histórias que nos apresentou essa anedota traz o conto da ilha de Kameshima, na região de Ise-Shima, um lugar fortemente ligado a várias lendas sobre sereias. Os diversos fios que compõem a trama representam mais um triunfo narrativo do time liderado pelo roteirista Takanari Ishiyama. Vamos conhecer essa terra amaldiçoada?
“Quero tomar banho de mar…”
Nossa história começa com Yuza Minakuchi, um jovem aprendiz de mergulhador (profissão chamada de “ama” em japonês) que acaba de retornar à sua terra natal para cuidar da avó e seguir seus passos. Em sua primeira incursão, contudo, ele acaba por se deparar com uma versão dele mesmo no fundo do mar… e o evento é só o começo de uma série de tragédias.
A partir daí, seguimos os pontos de vista de mais três outros personagens — a jovem desmemoriada Sato Shiranami, a dona de casa Yumeko Shiki e o autor americano Arnav “Avi” Barnum — por todos os desdobramentos da história, entre buscas por sereias, os segredos da imortalidade e a quebra de antigas maldições.Esse é um resumo vago por um motivo: The Mermaid’s Curse é um mistério, e não é qualquer mistério. Assim como The Seven Mysteries of Honjo, a narrativa segue o formato fair play, popularizado pelos livros de Agatha Christie, que apresenta todas as informações necessárias à audiência para que consigam solucionar o enigma antes que os personagens o façam. A experiência fica ainda melhor com o uso de anotações externas; pessoalmente, quando usei essa abordagem, tive a satisfação de poder apontar para a tela e dizer “eu sabia!”. É uma sensação como poucas.
Só um mistério bem escrito, por outro lado, não sustenta a empreitada inteira. Ainda bem que não é o caso em Ise-Shima: a região é populada por um grande elenco cheio de personalidade, que, mesmo quando servem menos como personagens e mais como elementos que dão cor ao mundo fictício, trazem consigo moralidades coesas e coerentes, além de um senso próprio de profundidade. Os destaques são Avi, um grandalhão romântico e hilário, e Tsukasa Awao, amiga fiel de Sato, com quem tem uma dinâmica fascinante.
Com toda essa galera nova e a enorme distância entre Honjo e Kameshima, fica a dúvida: preciso ter jogado o primeiro? A resposta é: não — mas ajuda, pois o novo game está repleto de referências a este, que, quando entendidas, o inserem muito bem no contexto maior de Paranormasight (além disso, conforme já dito, The Seven Mysteries of Honjo é simplesmente uma das melhores VNs por aí, que vale a pena em qualquer momento).Algo que pode ser um ponto negativo dependendo do leitor, contudo, é o fato de que, por aqui, o peso da atmosfera de terror, mais aflorada no início do primeiro game, é muito menor, esta tendo sido quase totalmente removida e substituída por um senso mais abstrato de suspense. Não quer dizer que não se encaixe mais no gênero; só não existe mais um foco em assustar o jogador.
Uma crítica mais aplicável ao game design como um todo é o fato que a seleção de cenas só está disponível quando fechamos um capítulo. Mesmo com a função de acelerar o texto, ainda pode ser bem chato ter que reiniciar a experiência quando encontramos (ou achamos que encontramos) um bug. Seria mais útil se as cenas pudessem ser escolhidas a qualquer momento, reveladas na lista pouco a pouco.
Livre do escopo limitado de seu irmão mais velho, que claramente não conseguiu falar a respeito de tudo o que tencionava incluir, The Mermaid’s Curse é um Pokémon evoluído, por assim dizer. Isso se faz visto tanto na narrativa, que arranja mais tempo para esticar as pernas, quanto no volume maior (e mais bombástico) de puzzles, do qual falaremos a seguir.
Como que resolve isso?!
O primeiro Paranormasight não sofria de uma falta de quebra-cabeças, o que não quer dizer que o segundo não o coloque no chinelo nesse aspecto. Os mais notáveis são os puzzles visuais, que são bem mais presentes do que antes (convivendo em harmonia com perguntas mais diretas que o jogo nos faz a respeito dos detalhes da história, a outra grande modalidade por aqui) e mostram bem o orçamento maior da sequência.
Essas fases podem ser complexas às vezes, algo do qual o time tem perfeita ciência. Por isso, caso necessário, podemos pedir dicas a qualquer momento, de leves sugestões à resposta a praticamente tê-la entregue de bandeja, de acordo com a necessidade. Pessoalmente, houve uma fase na qual me faltava uma única peça do quebra-cabeça e eu acabei recebendo todas de uma vez; foi um pouco desconcertante, porém nada que afetasse muito a experiência geral.Falando, contudo, em receber soluções demais, algo que atrapalha o fluxo narrativo é a quantidade de vezes em que os personagens entre os quatro pontos de vista descobrem informações já conhecidas do jogador e as repetem. Tudo bem que é a primeira vez que estão ouvindo isso, mas não é a nossa, e, apesar do formato flowchart, a estrutura narrativa é bem linear, desbloqueando capítulos diferentes conforme o necessário. Apesar de às vezes úteis para que estejamos pensando nas coisas certas, esses “momentos eureca” que são só do elenco poderiam ter sido diminuídos.
No âmbito de seções de gameplay mais envolvidas do que apenas uma leitura atenta, The Mermaid’s Curse traz também um minigame de mergulho, acessível apenas quando seguimos Yuza, por motivos óbvios. É uma brincadeira simples, cujo único controle é o mouse, mas que serve a uma gama de funções: fornecer um respiro do terror e das intrigas, juntar mais colecionáveis da série Mocking Birds (passarinhos delinquentes já conhecidos do fandom), entre outras surpresinhas do enredo.
O que vem a amarrar tudo isso é a excelente trilha sonora, cortesia, novamente, de Hidenori Iwasaki. As composições criadas para o novo jogo, além das que retornam de The Seven Mysteries of Honjo, dão o tom de cada momento perfeitamente, aumentando o impacto emocional sem dividir atenção com a narrativa. O maior expoente é o tema de mergulho, tranquilo e relaxante, e a faixa liderada por uma guitarra que toca nos raros momentos mais descontraídos.Visite Kameshima neste verão! Nada de ruim irá lhe acontecer!
PARANORMASIGHT: The Mermaid’s Curse é uma entrada mais do que digna do padrão estratosférico que seu antecessor apresentou e mostra a força total de Takanari Ishiyama e equipe, agora livres para fazerem o que bem entenderem, sem as claras restrições vistas no primeiro jogo, graças ao apoio dos fãs. Vida longuíssima a uma das melhores séries de mistério no gênero visual novel!Prós
- Excelente mistério no formato fair play;
- Personagens carismáticos e bem escritos, com claras motivações e histórias de fundo;
- Conhecimento do primeiro jogo enriquece a experiência, apesar de não ser estritamente necessário;
- Dicas generosas para a solução dos variados puzzles, caso necessárias;
- Minigame de mergulho provém leveza à história;
- Trilha sonora excepcional, capturando muito bem a emoção de cada momento.
Contras
- É comum que os personagens repitam constantemente informações já conhecidas do jogador;
- A mecânica de seleção de cenas entre capítulos só é desbloqueada ao fim de cada um.
PARANORMASIGHT: The Mermaid’s Curse — PC/Switch/Android/iOS — Nota: 9.5
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Johnnie Brian
Análise produzida com cópia digital cedida pela Square Enix









