Análise: Dead Pets: A Punk Rock Slice of Life Sim é uma visão punk e afetuosa da vida adulta

Dead Pets traz uma narrativa mais íntima e punk para falar sobre amadurecimento.

em 07/02/2026

Desenvolvido pelo estúdio Triple Topping e distribuído pela Akupara Games, Dead Pets: A Punk Rock Slice of Life Sim coloca o jogador no controle de Gordy, uma punk feminista que tenta equilibrar a rotina caótica da vida cotidiana enquanto busca uma chance real de alavancar sua banda de rock. Entre minijogos cheios de ritmo e uma estética carregada de atitude, Dead Pets encontra sua maior força na narrativa. É ali que o jogo se destaca, usando humor, sensibilidade e uma abordagem honesta para transformar pequenos dramas do dia a dia em algo profundamente humano e surpreendentemente acolhedor.

Inferno de nossas vidas

Dead Pets é também o nome da banda de Gordy, a narrativa do jogo gira em torno desse grupo e de seus integrantes: Val, a vocalista; Jay, o guitarrista; e Brian, o baterista. Acompanhamos desde o início o cotidiano da protagonista, seu trabalho, suas amizades com a banda e outros personagens da cidade e, como não poderia deixar de ser na vida adulta, uma dívida constante que paira sobre tudo.

Com exceção de Brian, os personagens são bem desenvolvidos e carismáticos. Jay é o mais centrado do grupo: aos 32 anos, trabalha e tenta ajudar sua melhor amiga, Gordy, a crescer, com ou sem a banda. Val é a mais nova, com 27 anos, cheia de energia e dona da voz mais presente ao longo do jogo; é também uma das figuras que Gordy mais escuta e compreende além de ser a namorada de Jay. Brian, por outro lado, acaba tendo menos espaço narrativo. Mesmo sendo o mais velho, com 34 anos, sua história segue por caminhos mais distantes do restante do grupo, e nos momentos mais emocionais envolvendo o personagem, há a sensação de que ele soa um pouco deslocado.


Esse desequilíbrio, no entanto, não chega a comprometer o ritmo da narrativa. Entre jornadas de trabalho e ensaios da banda, uma tragédia atinge Gordy, um evento íntimo e devastador para qualquer mulher, tratado pelo jogo com extremo respeito, paciência e cuidado. Incapaz de falar sobre o que aconteceu, Gordy guarda tudo para si, e esse silêncio passa a guiar grande parte das escolhas narrativas feitas pelo jogador.

As decisões são, em sua maioria, binárias: sim ou não. Cada escolha carrega um custo pessoal, social, punk e, às vezes, financeiro. Quando não atendemos aos requisitos de uma opção, ela simplesmente deixa de estar disponível, forçando a alternativa restante. Isso cria uma leve sensação de estratégia que, embora interessante, nem sempre pesa tanto em um jogo essencialmente narrativo e, em alguns momentos, pode até distrair mais do que ajudar. 


Gordy tem a habilidade de imaginar situações completamente absurdas no meio de uma conversa, visualizando seus próprios pensamentos de forma exagerada e criativa. Esses momentos são sempre variados e muito divertidos, funcionando não apenas como alívio cômico, mas também como uma ferramenta narrativa. Em alguns pontos, o jogo se apoia nessas sequências para avançar a história de maneira surpreendentemente tocante.

Mais do que tratar do trauma de Gordy, Dead Pets aborda uma série de questões profundamente humanas: relacionamentos, a pressão dos pais para arrumar um “emprego de verdade”, o peso das dívidas, a falta de dinheiro, problemas menstruais, dores de dente e até a cobrança social em torno da maternidade. Tudo isso é apresentado com um charme visual impressionante e um texto incrivelmente bem escrito — sensível, tocante, divertido e, acima de tudo, honesto.

Seja punk

Para um jogo narrativo, Dead Pets: A Punk Rock Slice of Life Sim oferece uma quantidade surpreendente de atividades, muitas delas estruturadas, como minijogos simples e bastante divertidos. Um bom exemplo é o trabalho no restaurante, que pode ser feito uma vez por dia para garantir um dinheiro extra com gorjetas. O minijogo é mais complexo do que parece à primeira vista: precisamos receber o cliente, levá-lo até a mesa, anotar o pedido, encaminhá-lo à cozinha, buscar o prato pronto, entregá-lo e, por fim, receber o pagamento. Com vários clientes chegando ao mesmo tempo, essa sequência transforma a rotina em um caos controlado, divertido, às vezes cansativo, mas justamente por isso bastante realista.


Controlamos Gordy por cenários em duas dimensões, escolhendo o que fazer primeiro dentro de uma estrutura narrativa relativamente linear. Mesmo que as opções sejam limitadas e que conversas e eventos acabem acontecendo de qualquer forma, isso não diminui o carisma que o jogo imprime em cada detalhe. Mover Gordy pelo mapa é sempre engraçado: seja arrastando objetos para montar um hot dog, seja usando um regador para molhar Satan, sua plantinha.

Nesses deslocamentos, também podemos trocar de roupa, desbloqueando novas opções conforme avançamos na história. Algumas vestimentas são obrigatórias para certos eventos, como um vestido específico para um encontro, mas, na maior parte do tempo, a escolha é puramente estética, e a variedade agrada. No apartamento de Gordy, no entanto, as interações se resumem basicamente a trocar de roupa e cuidar do Satan. É um espaço cheio de personalidade, com uma guitarra, videogame e outros detalhes visuais, e fica a sensação de que poderia haver mais atividades ali. Em um jogo tão recheado de minijogos, um ou dois extras no apartamento fariam bastante sentido.


Mecanicamente, o grande destaque fica por conta do jogo de ritmo. Ele está longe da complexidade de títulos como Guitar Hero, mas é completamente funcional e divertido. A proposta é simples: acertar dois pontos no tempo certo, um na parte superior da tela e outro na inferior. Não há muito segredo, e o sistema funciona bem. O maior problema está na ausência de um tutorial claro, o que me fez passar algum tempo tentando adivinhar quais botões apertar, uma frustração inicial que, felizmente, desaparece rápido. Depois disso, cada nova apresentação se torna um prazer, especialmente com a adição gradual de músicas conforme a narrativa avança. O jogo ainda oferece três níveis de dificuldade: fácil, médio e difícil, que alteram a velocidade e a quantidade de notas, impactando diretamente na pontuação final.

No geral, mesmo não sendo o foco principal, Dead Pets aposta em uma variedade generosa de minijogos divertidos e, em alguns casos, genuinamente engraçados. Muitos deles acrescentam bastante à narrativa, como o trabalho no restaurante e, principalmente, as sequências de ritmo. Outros soam um pouco desconectados, como o minijogo de roubar um disco de vinil em uma loja, mas por serem completamente opcionais, acabam não comprometendo a experiência e podem tranquilamente ser ignorados.

O carisma demoníaco

Aqui, o jogo aposta em um visual cartunesco para conduzir sua narrativa, remetendo em alguns momentos a animações adultas exibidas no Adult Swim. O traço passa a sensação de algo desenhado à mão, e é justamente aí que mora parte de seu charme: os cenários e personagens são cheios de pequenos detalhes, visualmente expressivos e incrivelmente carismáticos.

Narrativamente, todos os personagens são demônios, mas demônios muito longe do estereótipo tradicional. Alguns têm aparência quase humana, com chifres discretos; outros lembram criaturas mais abstratas, como um caranguejo, uma célula viva ou algo difícil até de definir. Esse contraste visual, somado à naturalidade com que o mundo trata essas figuras tão distintas entre si, cria um impacto curioso e fascinante. Visualmente, tudo soa estranho, mas nunca deslocado.


E não é só no visual que o jogo acerta: a trilha sonora é outro ponto forte. Quem curte rock certamente vai se sentir em casa com a seleção musical apresentada. Para além das sequências de ritmo, o jogo utiliza músicas de fundo pensadas para acompanhar o tom da narrativa, alternando entre faixas mais energéticas e outras mais melancólicas. Em alguns momentos, porém, essa ambientação sonora falha: ao trocar de cenário, a música anterior pode continuar tocando por cima da nova, criando uma pequena confusão auditiva. Felizmente, isso acontece poucas vezes e não chega a comprometer a experiência. No balanço final, o trabalho sonoro é bastante positivo e complementa bem a identidade do jogo.

Vale a pena?

Para fãs de um bom rock e de narrativas intimistas que não têm receio de abordar temas pouco explorados nesse tipo de mídia, Dead Pets é uma excelente escolha. A história se sustenta com sensibilidade e honestidade, enquanto o visual cartunesco e a trilha sonora carismática reforçam com personalidade a identidade do jogo. Uma crítica válida, no entanto, é a ausência de textos em português, uma falta especialmente sentida em uma experiência tão focada na narrativa.

No conjunto, trata-se de uma experiência divertida, estranha na medida certa e, em muitos momentos, genuinamente emocionante. Dead Pets: A Punk Rock Slice of Life Sim não busca grandes reviravoltas ou sistemas complexos; sua força está em transformar o cotidiano, o trauma e o amadurecimento em algo humano, próximo e fácil de se identificar. Um jogo pequeno em escala, mas grande em personalidade.


Prós

  • A narrativa é divertida e emocionante;
  • A direção de arte é linda;
  • As músicas são muito boas;
  • Os personagens são muito bem desenvolvimentos;
  • Os mini jogos são muito divertidos e integrados ao jogo.

Contras

  • Alguns bugs de áudio;
  • Falta de desenvolvimento do Brain incomoda;
  • Impacto quase nulo nas escolhas;
  • Falta de legendas em português.
Dead Pets: A Punk Rock Slice of Life Sim — PC — Nota: 8.5
Revisão: Beatriz Castro
Análise produzida com cópia digital cedida pela Akupara Games
OpenCritic
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Matheus Bigai Ferreira
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