Uncharted 4 em dois momentos da vida de videogamedunkey: uma reflexão em torno de perspectivas sobre jogos

O youtuber conhecido como Dunkey fez dois vídeos sobre a obra da Naughty Dog, com anos de distância e visões bastante distintas.

em 07/01/2026
O YouTube é a casa de diversos canais sobre jogos, com uma imensa variedade de perspectivas e abordagens. É lá que se encontram muitas análises de videogames, bem como bastante conteúdo de humor também. É nesse contexto que se insere videogamedunkey, canal focado em gameplays cômicas que ocasionalmente se aventura em reviews mais sérias. De vez em quando, Dunkey (como tal youtuber é mais conhecido) revisita títulos que analisou no passado. É o caso de Uncharted 4: A Thief's End, a conclusão da épica saga de Nathan Drake, que recebeu um segundo vídeo mais de sete anos após sua crítica ir ao ar.

Uma primeira visão um pouco superficial

O primeiro vídeo se chama “Uncharted 4 (dunkview)” e foi postado uma semana após o lançamento da aventura. Ele começa criticando a mecânica de escalada comum a todas as entradas da franquia. Para Dunkey, trata-se de uma porção chata e passiva das obras, na qual o jogador assume uma posição secundária em relação à movimentação na tela. O youtuber até elogia o jogo por diferenciar-se de seus antecessores com a adição da corda de gancho, mas o tom geral desse início é de crítica à falta de risco e de gameplay interessante nessas seções. Então, tal ponto negativo se reflete na história: a “sensação de inconsequência” domina a narrativa de Uncharted 4 a partir do momento em que as decisões irresponsáveis de Nathan Drake se revelam irrelevantes, com uma mágica resolução fácil.
Dunkey se viu imerso nos primeiros dois terços da trama, porém se decepcionou com a falta de consequências na parte final. Saindo da história, ele enalteceu a evolução nos gráficos e no combate, além da possibilidade de se jogar no modo mais difícil desde o início (nos anteriores, era preciso zerar o game para desbloqueá-lo). Ao fim da análise, o youtuber dá a nota 3 de um máximo de 5, considerando que a narrativa não entregou tudo o que prometeu, mas que a atmosfera aventureira de Uncharted está fortemente presente.

Algumas palavras sobre analisar jogos

Antes de dar seguimento à comparação entre as duas perspectivas de Dunkey, cabe discutir um pouco o próprio ato de criticar jogos. O youtuber Jacob Geller possui um excelente vídeo sobre o assunto, intitulado “The Future of Writing About Games” (“O Futuro de Escrever Sobre Jogos”, na tradução do próprio canal). Nele, conclui-se que a escrita a respeito de videogame possui o impressionante poder de conectar a obra ao mundo no qual ela pertence, e de imortalizar tais produções nas mentes dos leitores ao oferecer olhares únicos.
Para chegar nessa conclusão, Jacob Geller valorizou fortemente o papel da perspectiva ao comentar sobre jogos. Ele argumenta que o ponto de vista próprio é justamente o que cada escritor tem a oferecer aos leitores, pois a experiência subjetiva de cada jogador é o que ninguém mais pode encontrar ou descrever no jogo. É muito interessante analisar os vídeos de Dunkey com esse panorama em mente, pois fica claro que a perspectiva do youtuber é condicionada por suas expectativas prévias em relação a títulos do tipo e a histórias no geral, assim como suas próprias preferências em relação aos videogames.

A segunda perspectiva, mais profunda e refinada

Dunkey revisitou Uncharted 4 em 2023, em interação direta com o vídeo original. De fato, “Revisiting Uncharted 4” começa criticando a perspectiva da primeira análise, ao elevar o jogo à condição de um dos melhores já lançados. O primeiro argumento tange justamente à escalada, que estaria com uma apresentação muito mais rápida e satisfatória em relação a seus antecessores. O youtuber destaca pequenos detalhes da mecânica, como as animações únicas dos movimentos de Nathan Drake e os sons dos diferentes ambientes. Reitera-se que tais seções ainda são a parte mais fraca da produção, mas constata-se também que é impressionante quanto amor foi dedicado até a esses segmentos.
A escalada não é a única parte em que Dunkey elogia os detalhes – ele enaltece a jogabilidade do jipe em diferentes terrenos adversos, e até mesmo pontua que o ritmo do jogo foi construído para casar bem com a narrativa. Explico: para o youtuber, os tiroteios são inseridos no fluxo do gameplay com parcimônia para alinhar os desejos do público com o impulso de Nathan Drake para voltar aos seus dias de aventura e violência. Quando Uncharted 4 finalmente chega a essa ação, ele entrega tudo o que prometeu e mais um pouco. As atuações também são fortemente elogiadas, mas é em sua perspectiva sobre a história que o refinamento do olhar crítico de videogamedunkey fica especialmente claro.

Expectativas em jogo

Na primeira análise de Dunkey sobre Uncharted 4, o youtuber se viu frustrado fundamentalmente pela ausência de karma narrativo. Ele não usa essa expressão, porém fica claro ao longo da crítica que ele esperava que Nathan Drake tivesse o que merecia: consequências por sua flagrante irresponsabilidade, pondo em risco seu casamento para viver mais uma aventura. De fato, a vasta maioria das histórias que consumimos possuem essa característica quase que de providência divina, na qual as boas ações dos mocinhos são recompensadas com finais felizes e os vilões são punidos com a derrota. Para Dunkey, o protagonista não mereceu o final feliz que recebeu, o que contrariou suas expectativas.
Já na segunda perspectiva, um Dunkey mais maduro e com um olhar crítico significativamente mais desenvolvido aborda Uncharted 4 com elogios entusiasmados pela coragem da escrita do jogo. Ele enaltece a forma com a qual o gameplay manipula o jogador a desejar o mesmo que seu irresponsável protagonista, e pondera sobre karma narrativo no contexto das aventuras de Nathan Drake. A impactante frase de São Dimas “recebemos as devidas recompensas de nossos atos” se encontra questionada diante de uma realidade às vezes brutal demais e às vezes recompensadora sem mérito. Seja como for, a perspectiva do youtuber certamente se alterou bastante ao longo desses mais de sete anos, e a conclusão do vídeo emociona com a revelação da gravidez de sua esposa. A arte tem o poder de tocar os nossos corações, e a análise da arte tem o poder de nos revelar novos pontos de vista.

Revisão: Thomaz Farias
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Felipe Jungstedt
Cientista social em formação, apaixonado por todo tipo de joguinho (com um amor especial pelos indies e pelos da Nintendo). Você provavelmente vai me encontrar ouvindo música enquanto jogo Spelunky 2 ou tirando a poeira de algum Zeldinha clássico.
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