Yennefer de The Witcher 3: poder, controle e o preço das escolhas

Yennefer domina a magia como poucos, mas sua maior batalha é contra a perda, o controle e o desejo de decidir o próprio destino.

em 01/02/2026

Lançado em 2015, The Witcher 3: Wild Hunt marca o ápice da jornada de Geralt de Rívia e também o retrato mais complexo de Yennefer de Vengerberg nos jogos. Distante da figura secundária que por vezes ocupou em outras mídias, Yennefer assume aqui um papel central na narrativa, não apenas como interesse amoroso, mas como uma força ativa que move eventos políticos, mágicos e pessoais.

Candidata a feiticeira da Loja das Feiticeiras de Aretuza, Yennefer é definida por contrastes. Extremamente poderosa e intelectualmente afiada, ela também carrega cicatrizes profundas de um passado marcado por rejeição, humilhação e sacrifícios irreversíveis. Sua história não trata da busca por poder, mas do que foi perdido para conquistá-lo.

Cuidado com os spoilers.

Primeiras lições

Antes de se tornar uma das feiticeiras mais temidas do Norte, Yennefer era uma jovem corcunda, alvo constante de desprezo e violência. Sua transformação física, realizada por meio de magia, não foi um presente, mas uma troca brutal. Para alcançar beleza, status e respeito, ela abriu mão da capacidade de gerar filhos, uma renúncia que se tornaria o eixo central de seus conflitos internos.


Essa origem molda toda a sua postura. Yennefer constrói uma armadura emocional feita de sarcasmo, frieza e controle absoluto do ambiente ao seu redor. Não por arrogância vazia, mas como mecanismo de defesa em um mundo que a ensinou, cedo demais, a não demonstrar fragilidade.

Diferente de outras feiticeiras, ela nunca se acomoda ao papel que lhe foi imposto. A posição no Capítulo, as intrigas políticas e as expectativas sobre sua conduta são constantemente questionadas. Yennefer obedece quando convém, mas jamais se submete por completo.

Busca

Em The Witcher 3: Wild Hunt, a maternidade de Yennefer de Vengerberg não nasce do sangue, mas da escolha, e isso se manifesta diretamente nas missões. Desde seus primeiros passos em Velen e Skellige, Yennefer trata Ciri não como um recurso mágico ou uma peça política, mas como alguém que precisa ser encontrada antes que seja tarde demais.


Isso fica evidente na missão Nameless, quando sua prioridade absoluta é retomar o rastro de Ciri, mesmo que isso signifique ignorar acordos políticos, romper alianças locais e usar necromancia, uma prática considerada tabu até entre feiticeiros. Ao interrogar o espírito de Skjall, Yennefer demonstra até onde está disposta a ir: ela sabe que está profanando um morto e ferindo os sentimentos da família, mas aceita esse peso sozinha. Para ela, qualquer preço é aceitável se houver a mínima chance de proteger Ciri.

Esse comportamento se repete em Skellige, onde Yennefer se coloca deliberadamente em conflito com tradições locais, com o culto de Freya e até com o próprio Clã An Craite. Não há hesitação. Cada decisão deixa claro que sua relação com Ciri não é simbólica, é prática, urgente e visceral. Yennefer age como alguém que já perdeu demais para aceitar perder mais uma vez.



Maternidade além do sangue

A importância de Yennefer como mãe de Ciri se consolida quando finalmente as três figuras centrais (Geralt, Yennefer e Ciri) se reencontram em Kaer Morhen. Ali, o jogo abandona qualquer ambiguidade. Yennefer não disputa espaço com Geralt; ela o compartilha. Enquanto ele representa proteção física e estabilidade, Yennefer assume o papel emocional mais duro: preparar Ciri para sobreviver a um mundo que vai tentar controlá-la.


Durante os treinamentos e diálogos, fica claro que Yennefer entende o Sangue Ancestral de Ciri não apenas como poder, mas como fardo mental. Ela não minimiza a magia nem alimenta fantasias heroicas. Em vez disso, ensina limites, controle e, principalmente, responsabilidade. É uma postura que se aproxima muito mais de uma mãe preocupada com o futuro da filha do que de uma mentora distante.

Esse vínculo se reflete também nas decisões finais do jogo. Independentemente do desfecho de Ciri, Yennefer nunca a abandona emocionalmente. Mesmo quando perde o controle da situação, algo raro para ela, sua presença permanece constante. Não há manipulação, apenas a aceitação de que amar alguém significa permitir que essa pessoa escolha seu próprio caminho.


Amor além da magia

A importância de Yennefer para Geralt vai muito além do romance, mas encontra sua expressão mais clara justamente nele. A missão The Last Wish, envolvendo o gênio aprisionado, funciona como um ponto de virada definitivo para ambos.

Durante a missão, Yennefer confronta diretamente a dúvida que sempre pairou sobre sua relação com Geralt: eles se amam de verdade ou são apenas prisioneiros de um feitiço antigo? Ao arriscar a própria vida para quebrar o vínculo mágico do desejo original, Yennefer demonstra algo que raramente permite transparecer: vulnerabilidade absoluta.


O resultado dessa missão redefine o relacionamento. Se o jogador decide manter o romance, o vínculo que permanece não é mais mágico, mas escolhido conscientemente. Isso transforma Yennefer de um amor turbulento do passado em um ponto de estabilidade emocional para Geralt. Ela passa a ser alguém com quem ele pode dividir decisões, falhas e silêncios, algo que poucas pessoas conseguem.

Mesmo fora do romance, a conexão entre os dois permanece profunda. Yennefer é uma das poucas personagens que não idealiza Geralt como herói nem o reduz a um monstro. Ela o vê como igual, alguém tão quebrado quanto ela, e justamente por isso digno de confiança.


Aceitação

Ao final da jornada, Yennefer não “vence” no sentido clássico. Ela não recupera o que perdeu no passado, nem resolve todos os seus conflitos internos. O que ela conquista é algo mais raro no universo de The Witcher: autenticidade.

Seja ao lado de Geralt, afastada do Capítulo das Feiticeiras, ou simplesmente sobrevivendo em um mundo em ruínas, Yennefer escolhe viver sem máscaras. Ela aceita que não pode controlar o destino de Ciri, mas também entende que sua influência foi fundamental para que a jovem tivesse forças para escolher.


Sua importância na narrativa não está apenas nos eventos que move, mas nas pessoas que forma. Ciri não se torna quem é apesar de Yennefer, ela se torna quem é por causa dela. E Geralt, por sua vez, encontra em Yennefer não redenção, mas pertencimento.

Em um mundo onde tudo tenta impor um papel, Yennefer de Vengerberg se torna uma das poucas personagens que realmente escolhem quem querem ser e pagam o preço por isso sem arrependimento.


Revisão: Vitor Tibério
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Matheus Bigai Ferreira
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