Lançado em 2025, Ghost of Yōtei narra a busca de Atsu por vingança contra o grupo de criminosos conhecido como os Seis de Yōtei. Contudo, mais do que uma ótima aventura, o jogo se consolida como uma aula interativa sobre a história da colonização em Ezo.
A Batalha de Sekigahara
Antes de adentrar na ilha de Ezo, é necessário comentar um pouco sobre um evento que se passou fora da região, mas está conectado a Atsu já que ela participou do momento histórico, a Batalha de Sekigahara. O conflito ocorreu em 1600, na região de Sekigahara. A luta foi travada entre aqueles que ficaram conhecidos como Daimyos (senhores feudais) do ocidente por serem do oeste do Japão e os do oriente.No extremo oposto, no lado oriental, estava Tokugawa Ieyasu, um líder militar e estrategista talentoso, que visava unificar o país, seguindo os ideais de seu antigo senhor Oda Nobunaga, o que o fez ficar conhecido como um dos três grandes unificadores do Japão. Durante o confronto, o país já tinha começado a usar armas de fogo, apresentadas pelos portugueses. Após um período de um ano, os próprios japoneses começaram a confeccionar as suas armas, utilizando como base as europeias.
A nova era trouxe uma longa paz para a nação que já sofria há anos com as inúmeras guerras civis. Entretanto, também foi definida pela decisão do governante de “isolar” a nação do ocidente, mantendo contato comercial apenas com algumas poucas nações como Holanda e China por meio de um porto em Nagasaki.
Com toda essa contextualização em mente, é compreensível que Atsu tenha retornado a Ezo tão habilidosa na arte da espada, além de possuir habilidades para manusear pistolas e rifles fabricados no Japão. Ao sobreviver a tal confronto, sua visão sobre os samurais mudou, resultando em sua atitude cética em relação a eles.
Aqueles que estavam lá antes de todos
Os Ainus eram uma tribo de nativos que viviam na região tendo costumes nômades, ou seja, não tinham um lar fixo e viviam de práticas como pesca e caça. No jogo, desde o momento em que o mundo aberto é liberado para ser explorado, eles estão lá para Atsu poder negociar recursos valiosos como madeira, carne e bambu.
Os nativos foram muito bem representados pela Sucker Punch, tendo visuais característicos com suas tatuagens e vestimentas típicas, sua cultura foi apresentada de maneira respeitosa, tendo colecionáveis para descrever melhor como eles viviam. Tudo isso ainda acompanhado de uma dublagem que traz o Aynu Itak (língua Ainu).
A exclusão dessa comunidade ocorreu devido ao domínio do clã Matsumae, designados Daimyos de Ezo por ordens do Shogun, para a área ser colonizada. A região era um local estratégico militar crucial por fazer fronteira marítima com a Rússia atual e possuía uma abundância de recursos como salmão, arenque e algas marinhas.
Durante a exploração do mapa, é sempre possível ver um comerciante Ainu em vilas, postos Matsumae ou em áreas mais isoladas, como fogueiras nas florestas. No Kotan também é possível ter acesso a missões que enriquecem sua cultura e também demonstram como eles viviam, o importante é que o título demonstra como gradualmente o povo originário da ilha estavam começando a ser esquecidos e apagados culturalmente.
Uma Ezo dividida entre medo e esperança
Mesmo sendo considerado o início de uma era de paz para o Japão, nem todos concordavam com as mudanças estabelecidas pelo Shogun. Essa oposição é representada pelo Líder dos Seis de Yōtei, Lorde Saito. Embora fictício, Saito personifica uma parcela da população descontente. Suas cartas pessoais, encontradas em acampamentos inimigos, revelam pensamentos que refletiam a oposição às mudanças impostas pelo Shogunato.
Em suas escrituras, o lorde afirmava que o Shogun pretendia transformar Ezo em uma jaula. Ele via as terras como selvagens e os habitantes como párias. O clã Matsumae não estava lá para ajudar, mas para agir como carcereiro, impondo postos avançados e portões que dividiam a ilha.
Essa visão condiz com os eventos históricos, pois a população local enfrentava mudanças drásticas e rápidas. Era natural o receio de que os samurais buscassem apenas o próprio benefício em detrimento dos nativos. Esse sentimento é reforçado por diálogos de NPCs e missões secundárias, como a tarefa “Construindo Pontes”.
Nessa missão, Atsu deve proteger uma ponte em construção contra um ataque inimigo. Ao final, revela-se que o mentor do plano era um dos próprios trabalhadores. Ele estava profundamente descontente com as severas transformações impostas pelo clã Matsumae à região.
No geral, o título da PlayStation demonstra, por meio de missões como a citada, que mesmo sendo reconhecido como um tempo de paz, a população ainda possuía muitas dúvidas sobre como algumas mudanças estavam sendo implementadas.
A própria Onryō muitas vezes se mostra cética em relação às intenções dos ditos samurais, devido a esse fato da personagem ser neutra não pertencendo a nenhum lado a população enxerga o espírito vingativo como um símbolo de esperanças em tempos complicados, que irá punir os criminosos e ajudar a população.
O prelúdio do fim dos samurais
Uma das políticas para manter a paz, foi um controle mais rígido sobre as armas de fogo. Os civis podiam usá-las para atividades como caçar ou se defender da vida selvagem. Costume como colecionar tais artefatos também tinha sido iniciado. Porém, a produção delas para fins militares nunca parou, mas foi limitada ao exército do Shogun, a decisão foi um ato estratégico para minar o poder independente dos Daimyos e dos samurais, reforçando assim o poder do clã Tokugawa.
Este é o ponto crucial: a presença cada vez mais enraizada das armas de fogo no país, que sinalizava o lento, porém inevitável, declínio da era dos samurais tradicionais. Durante a busca por vingança de Onryō, o exército de Saito demonstra um claro abraço às armas de fogo, com áreas do jogo dominadas por Ashigarus armados, excluindo praticamente a presença de arqueiros.
Outros fatores reforçam essa ideia, como missões que mostram as tropas Matsumae em total desvantagem contra o poder da pólvora. Grupos de samurais são alvejados e suas armaduras, atravessadas como se fossem feitas de papel. É possível sentir o poder das armas ao liberá-las no final da jornada, bastando apenas um disparo para derrubar o maior dos inimigos de Atsu.
Muito mais do que apenas uma simples história de vingança
Ghost of Yōtei transcende a narrativa de vingança para se consolidar como uma aula interativa sobre o início do Período Edo. Ao retratar o impacto da colonização do Clã Matsumae sobre os nativos Ainu e a reação da população às mudanças do Shogunato, o jogo usa a presença crescente das armas de fogo como uma evidência palpável do inevitável fim da era dos samurais. No final, a jornada pessoal de Atsu é um espelho do Japão que se divide entre a promessa de paz e o custo da modernidade.
Revisão: Thomaz Farias












