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Ghost of Yōtei: o que a jornada de Atsu nos ensina sobre o começo do período Edo

O jogo, ambientado no alvorecer da era Edo, usa a trajetória de Atsu para explorar as tensões e mudanças históricas em Ezo (Hokkaido).

em 20/01/2026
Lançado em 2025, Ghost of Yōtei narra a busca de Atsu por vingança contra o grupo de criminosos conhecido como os Seis de Yōtei. Contudo, mais do que uma ótima aventura, o jogo se consolida como uma aula interativa sobre a história da colonização em Ezo. 

Através da jornada de Atsu e da exploração da ilha, ela nos apresenta o começo turbulento do Período Edo (1603 a 1868), revelando o drama da invasão do Clã Matsumae sobre os nativos Ainu, a oposição política ao Shogunato e, principalmente, o declínio inevitável da era dos samurais frente à ascensão das armas de fogo.

A Batalha de Sekigahara

Antes de adentrar na ilha de Ezo, é necessário comentar um pouco sobre um evento que se passou fora da região, mas está conectado a Atsu já que ela participou do momento histórico, a Batalha de Sekigahara. O conflito ocorreu em 1600, na região de Sekigahara. A luta foi travada entre aqueles que ficaram conhecidos como Daimyos (senhores feudais) do ocidente por serem do oeste do Japão e os do oriente.

No extremo oposto, no lado oriental, estava Tokugawa Ieyasu, um líder militar e estrategista talentoso, que visava unificar o país, seguindo os ideais de seu antigo senhor Oda Nobunaga, o que o fez ficar conhecido como um dos três grandes unificadores do Japão. Durante o confronto, o país já tinha começado a usar armas de fogo, apresentadas pelos portugueses. Após um período de um ano, os próprios japoneses começaram a confeccionar as suas armas, utilizando como base as europeias.

Com a pólvora já em uso, elas foram usadas por tropas chamadas Ashigaru, que manejavam arcabuzes. Devido à combinação da capacidade ofensiva e à quantidade maciça de mais de 100 mil soldados, esse se tornou um dos conflitos mais violentos da história do país. O embate culminou com a vitória do lado oriental, liderado por Tokugawa Ieyasu, que se tornou Shogun (líder militar supremo), iniciando o Shogunato Tokugawa e, em 1603, o período Edo (era em que o jogo ocorre).

A nova era trouxe uma longa paz para a nação que já sofria há anos com as inúmeras guerras civis. Entretanto, também foi definida pela decisão do governante de “isolar” a nação do ocidente, mantendo contato comercial apenas com algumas poucas nações como Holanda e China por meio de um porto em Nagasaki.

O novo soberano do país aproveitou o início do período para iniciar a colonização de algumas ilhas que ainda não tinham uma presença tão forte japonesa, sendo Ezo uma delas. Porém, no local já habitava uma população nativa que possuía cultura e idiomas diferentes dos japoneses, os Ainus.


Com toda essa contextualização em mente, é compreensível que Atsu tenha retornado a Ezo tão habilidosa na arte da espada, além de possuir habilidades para manusear pistolas e rifles fabricados no Japão. Ao sobreviver a tal confronto, sua visão sobre os samurais mudou, resultando em sua atitude cética em relação a eles.

Aqueles que estavam lá antes de todos

Os Ainus eram uma tribo de nativos que viviam na região tendo costumes nômades, ou seja, não tinham um lar fixo e viviam de práticas como pesca e caça. No jogo, desde o momento em que o mundo aberto é liberado para ser explorado, eles estão lá para Atsu poder negociar recursos valiosos como madeira, carne e bambu.
Os nativos foram muito bem representados pela Sucker Punch, tendo visuais característicos com suas tatuagens e vestimentas típicas, sua cultura foi apresentada de maneira respeitosa, tendo colecionáveis para descrever melhor como eles viviam. Tudo isso ainda acompanhado de uma dublagem que traz o Aynu Itak (língua Ainu).

Porém, é perceptível que existem poucos deles pelo mapa em relação aos japoneses, existindo apenas um grande assentamento deles, o Husko Kotan, localizado abaixo da entrada do território marcado pelo seu clima frio de Ezo, liderado por um dos Seis de Yōtei, Kitsune.

A exclusão dessa comunidade ocorreu devido ao domínio do clã Matsumae, designados Daimyos de Ezo por ordens do Shogun, para a área ser colonizada. A região era um local estratégico militar crucial por fazer fronteira marítima com a Rússia atual e possuía uma abundância de recursos como salmão, arenque e algas marinhas.

Para acessar essas riquezas, os samurais iniciaram o comércio com os nativos. Contudo, as mudanças impostas afetaram drasticamente a vida dos Ainus, que foram impedidos de manter costumes tradicionais, como a pesca e o estilo de vida nômade, também foram forçados a negociar exclusivamente com o clã samurai, seu idioma foi se perdendo e sua religião era criticada. Essas questões, como o jogo demonstra, criaram as sementes para conflitos futuros, culminando na Revolta de Shakushain (1669 a 1672).


Durante a exploração do mapa, é sempre possível ver um comerciante Ainu em vilas, postos Matsumae ou em áreas mais isoladas, como fogueiras nas florestas. No Kotan também é possível ter acesso a missões que enriquecem sua cultura e também demonstram como eles viviam, o importante é que o título demonstra como gradualmente o povo originário da ilha estavam começando a ser esquecidos e apagados culturalmente.

Uma Ezo dividida entre medo e esperança

Mesmo sendo considerado o início de uma era de paz para o Japão, nem todos concordavam com as mudanças estabelecidas pelo Shogun. Essa oposição é representada pelo Líder dos Seis de Yōtei, Lorde Saito. Embora fictício, Saito personifica uma parcela da população descontente. Suas cartas pessoais, encontradas em acampamentos inimigos, revelam pensamentos que refletiam a oposição às mudanças impostas pelo Shogunato.


Em suas escrituras, o lorde afirmava que o Shogun pretendia transformar Ezo em uma jaula. Ele via as terras como selvagens e os habitantes como párias. O clã Matsumae não estava lá para ajudar, mas para agir como carcereiro, impondo postos avançados e portões que dividiam a ilha. 

Essa visão condiz com os eventos históricos, pois a população local enfrentava mudanças drásticas e rápidas. Era natural o receio de que os samurais buscassem apenas o próprio benefício em detrimento dos nativos. Esse sentimento é reforçado por diálogos de NPCs e missões secundárias, como a tarefa “Construindo Pontes”. 


Nessa missão, Atsu deve proteger uma ponte em construção contra um ataque inimigo. Ao final, revela-se que o mentor do plano era um dos próprios trabalhadores. Ele estava profundamente descontente com as severas transformações impostas pelo clã Matsumae à região.

No geral, o título da PlayStation demonstra, por meio de missões como a citada, que mesmo sendo reconhecido como um tempo de paz, a população ainda possuía muitas dúvidas sobre como algumas mudanças estavam sendo implementadas. 


A própria Onryō muitas vezes se mostra cética em relação às intenções dos ditos samurais, devido a esse fato da personagem ser neutra não pertencendo a nenhum lado a população enxerga o espírito vingativo como um símbolo de esperanças em tempos complicados, que irá punir os criminosos e ajudar a população.

O prelúdio do fim dos samurais

Uma das políticas para manter a paz, foi um controle mais rígido sobre as armas de fogo. Os civis podiam usá-las para atividades como caçar ou se defender da vida selvagem. Costume como colecionar tais artefatos também tinha sido iniciado. Porém, a produção delas para fins militares nunca parou, mas foi limitada ao exército do Shogun, a decisão foi um ato estratégico para minar o poder independente dos Daimyos e dos samurais, reforçando assim o poder do clã Tokugawa.


Este é o ponto crucial: a presença cada vez mais enraizada das armas de fogo no país, que sinalizava o lento, porém inevitável, declínio da era dos samurais tradicionais. Durante a busca por vingança de Onryō, o exército de Saito demonstra um claro abraço às armas de fogo, com áreas do jogo dominadas por Ashigarus armados, excluindo praticamente a presença de arqueiros.

Outros fatores reforçam essa ideia, como missões que mostram as tropas Matsumae em total desvantagem contra o poder da pólvora. Grupos de samurais são alvejados e suas armaduras, atravessadas como se fossem feitas de papel. É possível sentir o poder das armas ao liberá-las no final da jornada, bastando apenas um disparo para derrubar o maior dos inimigos de Atsu. 

Muito mais do que apenas uma simples história de vingança


Ghost of Yōtei
transcende a narrativa de vingança para se consolidar como uma aula interativa sobre o início do Período Edo. Ao retratar o impacto da colonização do Clã Matsumae sobre os nativos Ainu e a reação da população às mudanças do Shogunato, o jogo usa a presença crescente das armas de fogo como uma evidência palpável do inevitável fim da era dos samurais. No final, a jornada pessoal de Atsu é um espelho do Japão que se divide entre a promessa de paz e o custo da modernidade.

Revisão: Thomaz Farias

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Thiago da Silva e Silva
É um universitário se formando em engenharia na UFRRJ,apaixonado por jogos desde a infância, principalmente RPGs.
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