Papers, Please é um jogo que me cativou em sua época de lançamento, de uma forma que eu não esperava. A ideia de realizar trabalhos burocráticos de triagem numa fronteira não era algo que eu acharia divertido, porém foi feito de uma maneira tão interessante que conseguiu seu lugar entre os grandes títulos indies.
A produção de Lucas Pope deixou alguns frutos, e entre eles está Quarantine Zone: The Last Check. Publicado pela Devolver Digital e desenvolvido pela Brigada Games, somos encarregados de atividades diárias de checagem de sobreviventes de um apocalipse zumbi.
A burocracia da sobrevivência
Após um surto biológico em um futuro não muito distante, o governo abriu diversas zonas de quarentena, e em uma dessas controlamos um fiscal que ficará responsável pela entrada, permanência, pesquisa e execução de quem entrar. Eles virão de diversas formas, seja aparentando bastante saúde ou claramente a alguns minutos de se tornar um morto-vivo.
Devemos observar cautelosamente cada sinal de um sobrevivente, como cor da pele e dos olhos, marca de feridas (ou de mordidas), respiração, temperatura corporal, frequência cardíaca, e por aí vai.
Temos uma série de ferramentas que ficam ao nosso dispor com o passar dos dias. Inicialmente podemos apenas verificar a temperatura e os batimentos cardíacos de uma pessoa, mas depois obtemos dispositivos, como um que consegue ver através da roupa, um martelo neurológico e um estetoscópio.
Após a checagem, podemos mandar alguém para a morte certa em caso de infecção (ou para pesquisas laboratoriais), para a ala de sobreviventes para seres saudáveis, ou para a quarentena em casos de sintomas suspeitos. Neste último cenário, deve-se voltar no dia seguinte para uma nova reavaliação; se algum dos sintomas desaparecer, a pessoa deixa de ser considerada um risco.
Parece complexo à primeira vista — e vai ficando conforme vamos adquirindo novas ferramentas — porém, tal qual um trabalho, vamos aprendendo as nuances e nos acostumando com as etapas. Os procedimentos a mais são colocados num ritmo até rápido, o que acaba se tornando um problema mais para frente.
Também somos responsáveis pela distribuição de recursos como comida e remédios na base, pois cada resultado com os indivíduos nos dá dinheiro para mantê-la. É funcional e nos dá um objetivo a mais para realizar toda a burocracia com atenção, mas nada é tão complexo ou difícil de gerenciar, tornando a tarefa um tanto automática
E claro, temos alguns objetivos a cumprir diariamente, realocando sobreviventes para áreas militares ou de pesquisa para conseguir dinheiro ou pontos de melhorias, além de cumprir missões diárias. As tarefas tentam dar mais personalidade ao mundo de Quarantine Zone, no entanto, são poucas e com pouca profundidade.
Fora de toda a parte de administração, há algumas sessões de ação em que controlamos um drone no estilo Call of Duty, e devemos matar ondas de zumbis que ameaçam colocar abaixo a muralha da base. São bem repetitivas e chatas, quebrando o ritmo de maneira ruim.
A ausência de vida
Entretanto, Quarantine Zone é um título naturalmente repetitivo. Até existem eventos e missões que mudam um pouco da dinâmica, mas nada tão significativo que quebre uma longa jogatina. É uma daquelas experiências que valem sessões curtas, aproveitando cada novidade pouco a pouco.
Um fator que prejudica a variedade está nos próprios NPCs. Eles são gerados aleatoriamente, contudo, além de serem muito genéricos, apresentam poucas falas ou características interessantes. O jogo até apresenta algumas piadas, mas acabam ficando fora de lugar com o clima do título.
É difícil não traçar comparativos com Papers, Please nessa parte, pois os diversos NPCs e situações provocavam momentos memoráveis. Seja por decisão de direção ou por falta de recursos, os dias de Quarantine Zone podem ser apenas “mais um dia de trabalho”.
Em termos visuais, Quarantine Zone: The Last Check é bastante pobre. Há uma aparência de modelos de loja de assets (o tal “asset flip”) colocados numa direção de arte que tenta ser mais realista e suja, porém falta carisma e personalidade no geral — e os já citados sobreviventes não ajudam a amenizar esse aspecto.
A interface funciona bem na maior parte do tempo, especialmente no uso de teclado e mouse. Pouco a pouco vamos nos acostumando com as marcações de sintomas, o gerenciamento de base e os diversos menus e submenus.
Inclusive, achei elegante a ideia de deixar a câmera no canto durante o menu de marcação de sintomas, assim não é preciso sair da tela caso esqueçamos de algum detalhe durante a checagem.
Já no controle, temos aquela velha solução de um ponteiro controlado pelo analógico, ou de indicadores pelo direcional. A disposição dos ícones não funciona tão bem e deixa as coisas bem confusas.
Há uma clara falta de recursos de acessibilidade simples. As legendas são pequenas e os textos de cor branca que alguns falam ficam ao lado da cabeça deles, deixando-os camuflados na tela. Um fundo ou fonte de alto contraste selecionável já solucionaria esses problemas.
O áudio não se destaca, com atuações aceitáveis dos agentes da base e pouquíssimas linhas de falas dos sobreviventes ao entrarem para a inspeção. Houve momentos em que uma mesma fala se repetiu em um dia para duas pessoas, dando ainda mais foco à crítica da falta de personalidade delas.
A miséria do final de expediente
Tal qual um trabalho da vida real, Quarantine Zone: The Last Check fica repetitivo rapidamente pela falta de novidades. A baixa variedade de missões, os NPCs sem personalidade e o fato de jogarem todos os recursos necessários para a avaliação muito rapidamente o deixam maçante se jogado por longas sessões.
Ainda assim, é um título interessante de gerenciamento e simulação, que ganharia mais com mais tempo e recursos de desenvolvimento para crescer. A ideia é boa e até diverte, mas falta um brilho a mais para se destacar — que talvez venha com atualizações futuras.
Prós:
- As diversas ferramentas e processos para checagem dos possíveis infectados deixa a tarefa interessante nos primeiros dias;
- Boa interface com o uso de mouse e teclado, sendo fácil de entender e se acostumar;
- Sistema de gerenciamento simples, mas eficaz o suficiente.
Contras:
- Visualmente desinteressante, muito devido à sua natureza de “asset flip”;
- NPCs genéricos, tanto da base quanto dos sobreviventes;
- Sessões de tiro com drone não são divertidas e quebram o ritmo negativamente;
- Repetitividade pela falta de melhor distribuição e quantidade de novidades e missões;
- A interface não funciona muito bem no uso do controle.
Quarantine Zone: The Last Check — PC — Nota: 6.0
Revisão: Thomaz Farias
Análise produzida com cópia digital cedida pela Devolver Digital

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