Ao colocar a rejogabilidade no centro da experiência, Philna Fantasy entrega um RPG visualmente cativante e conceitualmente interessante, mas ainda carente de refinamentos mecânicos para atingir seu potencial.
Quatro heróis, quatro formas distintas de jogar
O jogo oferece quatro heróis selecionáveis, todos claramente distintos em identidade e função. O Berserker é voltado ao combate corpo a corpo e à resistência; o Caçador domina o campo à distância com arquearia precisa; o Cronomago manipula o tempo e o fluxo da batalha por meio de magias; e o Assassino aposta em agilidade, furtividade e ataques rápidos.
Cada classe possui uma árvore de habilidades própria, profunda o suficiente para permitir personalização real. Aqui, não se trata apenas de escolher um arquétipo, mas de moldar estilos de jogo distintos dentro da mesma classe. Essa flexibilidade conecta-se diretamente à proposta de rejogabilidade do título, incentivando novas campanhas com abordagens completamente diferentes.
Nostalgia visual bem direcionada
Visualmente, Philna Fantasy adota um estilo pixelado extremamente simpático, que homenageia clássicos do RPG sem nunca soar genérico — algo, infelizmente, comum no gênero. Em alguns momentos, é impossível não lembrar de alguns dos muitos games da franquia Final Fantasy clássicos (já é homenageada no nome) e de Chrono Trigger, especialmente em Tryon City, onde se localiza a Guilda dos Aventureiros, a base de operações do jogador.
Sempre que retornava à cidade, a ambientação remetia-me à feira de Chrono Trigger — não como uma cópia direta, mas como aquela sensação confortável de um espaço familiar, seja pelo circo, seja pelas figuras simpáticas presentes. É um tipo de nostalgia que funciona mais como memória afetiva do que como referência explícita.
Masmorras como labirintos de ideias
O jogo é estruturado em masmorras, cada uma funcionando não apenas como campo de batalha, mas também como um verdadeiro labirinto repleto de segredos. Plataformas ocultas, portas invisíveis, mecanismos e elementos naturais — que podem florescer ou regredir — fazem parte do design de exploração.
Resolver esses puzzles gera momentos genuínos de descoberta, que recompensam o avanço e o entendimento do espaço. É aqui que Philna Fantasy demonstra inteligência em seu design, exigindo que o jogador combine habilidades desbloqueadas ao longo da jornada para acessar todos os segredos.
Rejogabilidade como pilar narrativo
A história de Philna Fantasy é simples, mas extremamente competente em sua apresentação — e isso é intencional. O foco do jogo está claramente na rejogabilidade, e essa escolha reflete-se em um sistema interessante: ao resolver um puzzle com um personagem, o jogo registra essa solução como uma “memória”.
Em jogadas futuras, essa memória pode ser usada para resolver automaticamente o mesmo enigma, tornando a experiência mais fluida e permitindo que o jogador foque em experimentar novas builds, habilidades e combinações. Em vez de repetir obstáculos, o jogo valoriza o conhecimento adquirido anteriormente.
Micronarrativas e pequenos cuidados
Mesmo sem ambições narrativas grandiosas, Philna Fantasy demonstra cuidado com seu mundo. Todos os NPCs em Tryon City possuem pequenas micronarrativas, algumas limitadas a poucas linhas de diálogo, enquanto outras são expandidas em missões secundárias. Nada shakespeariano, mas suficiente para dar identidade ao universo.
Um destaque pessoal vai para Loyd, o cientista da guilda — um gênio com sérios problemas de memória, responsável por situações genuinamente cômicas. Esses personagens ajudam a dar vida ao game e a justificar a progressão do mundo.
Combate familiar, mas com limites
A jogabilidade traz referências claras a RPGs de ação, como Diablo, especialmente no combate, na montagem de builds e na movimentação — algo bastante evidente ao jogar com controle. Philna Fantasy, com seu gráfico “bonitinho” e gameplay de Diablo, mostrou-se um verdadeiro “cordeiro em pele de lobo”.
É justamente aqui que surgem algumas limitações. Como o jogo aposta fortemente na rejogabilidade, os inimigos reaparecem sempre nos mesmos locais, sem escalonamento de nível. Isso faz com que o retorno a áreas já exploradas se torne previsível e, em alguns momentos, pouco recompensador. Curiosamente, o próprio jogo reconhece isso — intencionalmente ou não — ao posicionar, logo no início de cada masmorra, um totem que permite ir direto ao chefe.
É um sistema funcional, mas que claramente pede refinamentos futuros, especialmente no comportamento e na variedade dos inimigos.
Loot, crafting e sistemas que tropeçam
Os sistemas de criação são variados: armas, equipamentos, jóias para engaste e poções. No papel, tudo funciona bem. Na prática, o sistema de loot acaba sendo inconsistente. Não é raro encontrar itens de raridade inferior que superam equipamentos mais raros em atributos, além de restrições de nível que nem sempre fazem sentido.
Esse desequilíbrio enfraquece a sensação de progressão e torna parte do loot menos empolgante do que deveria. É outro ponto que, com ajustes, pode evoluir bastante.
Chefes como ápice da experiência
Se há um consenso claro durante a jogatina, é que as lutas contra chefes representam o ponto mais alto de Philna Fantasy. Elas exigem planejamento real: resistências elementais adequadas, escolha cuidadosa de habilidades, armas corretas e leitura atenta dos padrões inimigos.
Claro que quem já está acostumado ao gênero deve tirar isso de letra, mas um senhor de 30 anos como eu, pode encontrar alguma dificuldade no primeiro contato.
Em chefes mais avançados, muitas vezes a estratégia inicial não é vencer, mas sobreviver o máximo possível para aprender. Nesses momentos, a sensação é quase a de estar jogando um Souls-like 2D, daqueles que nos matam repetidamente até que finalmente entendamos o jogo e os golpes do inimigo. E, quando a vitória vem, ela é genuinamente satisfatória.
Destaque também para o visual de cada um deles, que, além de muito bonitos e distintos, claramente foi pensado para fazer sentido dentro de suas respectivas masmorras.
Entre méritos e tropeços
Philna Fantasy não tenta reinventar o RPG de ação, mas entende muito bem o que quer ser. É uma experiência leve, engenhosa e acolhedora, que esconde, sob sua simplicidade, uma estrutura de design inteligente e respeitosa com o tempo do jogador.
Mesmo com tropeços claros em loot e repetição de inimigos, o jogo compensa com puzzles bem pensados, sistemas flexíveis e um loop de rejogabilidade que funciona. É o tipo de jogo que não grita por atenção, mas recompensa quem se permite explorá-lo com calma.
No momento, certamente vale ao menos uma primeira jogada — e torcer para que futuros ajustes tornem a segunda, a terceira e até a quarta ainda mais interessantes.
Prós
- Quatro classes realmente distintas, com estilos de jogo bem definidos;
- Puzzles inteligentes e bem integrados à exploração, que exigem leitura do ambiente;
- Sistema de “memórias”, que automatiza a resolução de puzzles em jogadas futuras;
- Direção artística carismática, que homenageia os clássicos do gênero;
- Chefes bem desenhados e desafiadores.
Contras
- Respawn de inimigos previsível e sem escalonamento de nível, o que prejudica a proposta central;
- Sistema de loot, com Itens de raridade inferior que superam equipamentos mais raros em atributos;
- Pequenos bugs pontuais.
Philna Fantasy — PC — Nota: 7.5
Revisão: Mariana Marçal
Análise produzida com cópia digital cedida pela Anotherindie



