Análise: Big Hops é um criativo e carismático jogo de plataforma 3D com ideias próprias

As mecânicas de agarrar com a língua, escalar e usar ferramentas de plataforma deixam as travessias mais dinâmicas.

em 27/01/2026

Big Hops
não vem apenas como mais um título no gênero de plataforma 3D, mas como uma aventura que quer misturar mecânicas clássicas com novas ideias criativas para aprofundar a travessia e a exploração de forma dinâmica. A longa campanha entrega uma narrativa de desenho animado e muita coisa para encontrar. Confira o que esperar.

O grande Hop viaja o mundo

Hop é um jovem sapo que vive na floresta com sua mãe e irmã menor. Ao se meter com uma voz que vem de uma espécie de santuário nas redondezas, ele vai parar em uma fenda dimensional, onde passa a ser coagido por Diss, uma estranha entidade pouco confiável, a viajar por diferentes regiões do mundo em busca de uma substância misteriosa antes que possa voltar para casa.

Assim, Big Hops significa duas coisas: traduzindo literalmente, quer dizer “grandes saltos”, algo apropriado para o tipo de jogo, mas também serve para dizer que o pequeno protagonista é um dos “grandes Hops” e dará alguns saltos na vida, literais e metafóricos.



Em resumo, é uma história do jovem que quer ver o mundo, mas que logo vê que não há lugar como o lar. Nas viagens, Hop conhecerá diversos povos de outras espécies animais, como coelhos, lontras e morcegos, e se envolverá com seus problemas sociais e pessoais.

A narrativa é mais desenvolvida do que na maioria dos jogos de plataforma, com arcos de histórias e leve desenvolvimento de personagens, como se fosse uma série de desenho animado. Ou seja: com certa frequência, há cenas da história e NPCs para falar. Não é nada que ocupe muito tempo, mas o bastante para conduzir algumas histórias com começo, meio e fim.



Um ponto de capricho na narrativa é que Big Hops é inteiramente dublado em inglês, até nos comentários soltos dos NPCs que não passam de figurantes nas cidades. A princípio, achei a dublagem cafona, uma sensação reforçada pela clara repetição de dubladores. No entanto, é perceptível como a presença das vozes beneficia o agradável tom de desenho animado que o jogo passa. No fim das contas, é uma adição limitada em questão de elenco, mas muito bem-vinda para a experiência como um todo.

Já os textos têm tradução para português brasileiro, algo que ainda precisa de melhorias. Acontece que várias palavras soltas e também algumas frases acabaram ficando em inglês. Nunca chega a comprometer o entendimento do que é dito, mas é uma distração que faz a localização parecer um trabalho mal feito. Falei com o diretor do jogo, que explicou que se trata de uma questão de programação e está trabalhando para que as palavras corretas entrem em seus devidos lugares.

Entre saltos, escalada, ferramentas criativas e proteína de insetos

A maior parte do repertório de movimentos do sapinho se atém ao tradicional: pulo normal, pulo alto, pulo longo. Há dois extras muito importantes para a experiência: a língua de sapo, que estica e agarra coisas, e a escalada baseada em roda de energia. Hop pode agarrar diversos itens, alavancas e propulsores, bem como escalar praticamente qualquer superfície enquanto durar sua roda de energia.

É possível conseguir mais combustível para ele ao comer bichinhos — borboletas, joaninhas, aranhas, moscas, baratas, essas coisas normais —, que também servem como colecionáveis para encontrarmos todos os tipos e conseguirmos boas recompensas de completude.

Talvez o principal diferencial de Big Hops sejam as frutas usadas como ferramentas de plataforma. Há várias delas, introduzidas aos poucos para manter as novidades com seus diversos efeitos.

O cogumelo, por exemplo, serve como “mola” para saltos maiores. A bolota faz crescer uma vinha vertical escalável e o cacto arma uma espécie de corda bamba entre paredes. Há muito mais. Sempre que seu uso é obrigatório, vemos ao lado um arbusto com a fruta que deve ser usada ali, então não corremos o risco de ficarmos presos por falta de estoque.



Por outro lado, como Hop pode carregar algumas delas na mochila, temos a opção de usar diferentes táticas para alcançar certos lugares, especialmente os que escondem segredos. Embora seu uso seja mais comedido e direcionado do que eu esperava, ele ainda dá uma boa dose de liberdade nas travessias, incentivando que cada um some as frutas aos movimentos de Hop e tente soluções com aquilo que tem em mãos.

Com isso, Big Hops é acessível tanto ao jogador comum quanto aos que buscam alta expressão de habilidade e otimização de caminhos e soluções, sendo especialmente atraente para os interessados em speedruns. Para esses, o jogo já traz um cronômetro opcional e um troféu por concluí-lo em até quatro horas, o que não é tarefa fácil.



Uma estrutura de aventura narrativa

A campanha me surpreendeu por sua longevidade: levei 19 horas para chegar ao final após explorar bastante, mas ainda em 79% de completude.

Big Hops não segue o formato tradicional de jogos de plataforma 3D. O foco está em conduzir uma campanha narrativa linear e encaixar nela a gameplay de plataforma. Dessa forma, não temos um prático menu de mundos em que cada um leva a outro menu com suas respectivas fases.

Na maior parte do tempo, isso funciona bem. São três mundos principais, o que pode parecer pouco quando comparamos com outros títulos, mas, na prática, está bem longe disso. Cada mundo é dividido em segmentos da história, trazendo uma variedade que faz sentido dentro de si mesma. Por exemplo: o primeiro mundo começa em um amplo deserto, seguido por uma cidade, depois um cânion, instalações de tratamento de água, uma espécie de base de bandidos e, ainda, cavernas profundas.



Essa dinâmica passa a sensação de que avançamos na história, equilibrando também o avançar das mecânicas, de forma a não cair na repetição. Penso que, nesse sentido, funcionou bem, mas isso atrapalha em outro aspecto: torna mais difícil revisitar as fases anteriores, que é uma opção muito comum no gênero. Até dá para retornar a trechos anteriores de um mesmo mundo, mas o trajeto tem que ser feito a pé.

Como apenas no fim da campanha nos deparamos com uma opção de selecionar os mundos, a estrutura da campanha acaba sendo mais rígida que o esperado para o tipo de jogo, que costuma ser bem flexível.



Por exemplo: deixei algumas pontas soltas no primeiro mundo, achando que poderia cuidar delas depois. No final do capítulo, não tive ânimo de percorrer os caminhos em busca do que deixei para trás, preferindo seguir logo para o mundo seguinte — novamente, julgando que poderia voltar lá depois. Como eu disse, até pude fazê-lo, mas não imaginei que seria apenas no final de tudo. Uns pontos de viagem rápida cairiam bem para quem gosta de sair dos trilhos e tentar completar o que ficou para trás.

Mochila cheia de colecionáveis

Como bom jogo de plataforma 3D, não falta a Big Hops coisinhas para encontrar e acumular. Podemos contar as frutas, os insetos e as flores (para tingir as roupas com diferentes cores) e até os cosméticos comprados nas lojas, mas há outros de importância: Dark Drips e Dark Bits.



Mesmo tendo me esforçado para conseguir os principais colecionáveis, as gosmas roxas Dark Drips, obtive apenas 79 das 100. Algumas são recompensas por missões secundárias e de estágios escondidos, mas a maioria veio de forma orgânica ao explorar e coletar as gosmas roxas menores, os Dark Bits.

É simples: juntar uma certa quantidade de Dark Bits nos rende mais um Dark Drip. Em cada vez que isso acontece, temos uma recompensa ainda melhor: um acessório para a mochila, aplicando vantagens práticas de gameplay ao sapinho, como mais espaços para itens, mais vida ou mais dinheiro.

Assim, se por um lado juntar Dark Bits tem vantagens claras e motivação suficiente, os 100 Dark Drips em si não parecem ter um papel para além de exploração e completude. É comum que outros platformers usem seus colecionáveis como requisito numérico para avançar para as áreas seguintes, mas isso não parece acontecer em Big Hops, já que todo o progresso da campanha simplesmente acompanhou a história.





Acho essa abordagem sem portões de colecionáveis coerente com o formato de Big Hops, mas deixa de representar na prática a importância que eles têm na teoria. Como não atrapalha, está valendo.

Antes do fim, é preciso dizer que, durante minha experiência, Big Hops sofreu com problemas técnicos. Felizmente, alguns já foram consertados, mas ainda há soluços de performance com frequência que depende da área, e também alguns fechamentos forçados. 

Divirta-se com um sapo e seus grandes saltos mundo afora

Big Hops é uma boa adição aos jogos de plataforma 3D, nos levando por uma longa aventura narrativa com jeitão de desenho animado e mecânicas criativas de ferramentas para as travessias. O conjunto da obra proporciona um agradável nível de liberdade e experimentação, tão acessível para o público em geral quanto atraente para speedrunners.



Prós

  • Uma campanha longa, movida por uma narrativa com tom de desenho animado e imbuída de crítica social; 
  • O design de níveis é criativo e a união de vários movimentos clássicos do gênero a um interessante sistema de usar frutas para diversos efeitos proporciona um agradável nível de liberdade e experimentação, tão acessível para o público em geral quanto atraente para speedrunners;
  • A dublagem em inglês dá charme à obra, mesmo que às vezes soe cafona;
  • Textos em português brasileiro.

Contras

  • A estrutura de campanha linear dificulta retornar a áreas anteriores para completar o que ficou faltando;
  • Há problemas técnicos, como bugs, soluços de performance e fechamentos súbitos;
  • Com certa frequência, surgem palavras e até frases que não foram traduzidas do inglês.
Big Hops — PC/PS5/Switch — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: PS5
Revisão: Heloísa D'Assumpção Ballaminut
Análise produzida com cópia digital cedida pela Luckshot Games
OpenCritic
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Victor Vitório
Admiro videogame como uma mídia de vasto potencial criativo, artístico e humano. Jogo com os filhos pequenos e a esposa; também adoro metroidvanias, souls e jogos que me surpreendam e cativem, uma satisfação que costumo encontrar nos indies. Veja minhas análises no OpenCritic.
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