Análise: Avatar: Frontiers of Pandora – From the Ashes encerra a excursão da Ubisoft por Pandora em meio a fogo e cinzas

Uma DLC que expande o universo cinematográfico, mas que ainda luta contra as amarras do jogo base.

em 01/01/2026

O desejo da Ubisoft era lançar Avatar: Frontiers of Pandora junto ao filme Avatar: O Caminho da Água em 2022, mas, como um bom jogo triple A, foi adiado para o ano seguinte. Como de praxe para jogos da Ubisoft, o título foi recebendo melhorias e DLC’s durante os anos, e todo o trabalho culminou em dezembro de 2025, quando uma atualização gratuita que oferece uma perspectiva em terceira pessoa e a grande DLC From the Ashes lançou, desta vez, junto ao novo filme Avatar: Fogo e Cinzas, cumprindo o desejo original da publicadora em lançar um produto Avatar com sinergia com James Cameron.


O resultado é um pacote de expansão que oferece um complemento à experiência cinematográfica, e coloca um ponto final da Ubisoft em sua bela excursão à Pandora, mesmos que com arestas típicas da desenvolvedora e de limitações de escopos em DLC’s.

Dog Tag Warrior

From the Ashes é uma DLC avulsa à experiência original. Ao iniciar o jogo, o jogador pode escolher entre a campanha do jogo base ou partir diretamente para o conteúdo adicional. Nesta nova jornada, assumimos o papel de So’lek, conhecido como Dog Tag Warrior, um Na’vi marcado pela coleta das dog tags de soldados mortos por suas próprias mãos, como forma de vingança por eventos do passado.

So’lek já havia aparecido como personagem coadjuvante na campanha principal, mas aqui assume o protagonismo, oferecendo uma perspectiva diferente da vivenciada anteriormente. Sua história é mais direta e brutal, refletindo não apenas sua personalidade, mas também o tom da DLC.

O clã do fogo, os Mangkwan, se aliou aos humanos e passou a espalhar caos por Pandora. Cabe ao protagonista e seus aliados conter essa ameaça, proteger a região tomada pelo fogo e lidar com as consequências desse conflito. A narrativa dá continuidade aos eventos do jogo base e oferece um fechamento mais claro para o arco envolvendo esse novo clã, além de aprofundar as relações entre os personagens.

Pandora como sempre

A campanha é dividida em dois eixos de missões, que ajudam a ditar o ritmo da experiência. “Save Your People” é responsável por conduzir a narrativa principal. Essas missões são mais diretas e focadas na progressão da história, que gira em torno do resgate de aliados e da contenção do avanço do clã do fogo.

O início é mais contido, quase protocolar, mas à medida que o conflito se intensifica e novas camadas do embate entre Na’vi e humanos são reveladas, o ritmo melhora consideravelmente. As tensões escalam de forma orgânica e os capítulos finais se destacam como os momentos mais fortes, amarrando bem os acontecimentos da jornada.

O segundo eixo, “Sabotage RDA Operations”, representa o lado mais familiar de um mundo aberto da Ubisoft ou, neste caso, de um mini mundo aberto. Aqui estão concentradas as missões de destruição de bases, sabotagem de estruturas e eliminação de operações da RDA, atividades que remetem diretamente à fórmula consagrada da empresa em franquias como Far Cry.

À primeira vista, esse segmento pode parecer apenas conteúdo secundário para inflar a duração da campanha. No entanto, ao se aprofundar nessas missões, fica claro que essa impressão inicial não se sustenta. Por se tratar de um mapa mais compacto, cada área recebeu uma atenção maior no design, fazendo o que normalmente seria repetitivo em um mundo aberto tradicional se transforme em experiências mais enxutas, com objetivos claros, variações interessantes e batalhas bem construídas contra chefes.

Fogo e Cinzas

Assim como no novo filme, a principal novidade da DLC é a introdução do clã do fogo Mangkwan. Pela primeira vez na franquia, enfrentamos inimigos da nossa espécie, colocando Na’vi contra Na’vi de forma direta. 

Os Mangkwan não aparecem como inimigos comuns espalhados pelo mapa. Cada confronto é tratado como um evento específico, estruturado como batalhas contra chefes. Todos os membros importantes do clã recebem nome e contexto.

Para quem acompanhou Avatar: Fogo e Cinzas nos cinemas, essa implementação funciona como um complemento direto, expandindo a percepção sobre o poder e a influência de Varang, a vilã dessa nova fase da franquia. 

Visualmente, a tomada do fogo sobre Pandora altera significativamente o cenário. O mapa assume tons mais acinzentados e opressivos, cobertos por cinzas e áreas devastadas. Em um primeiro momento, isso pode causar a impressão de um mundo menos vibrante do que a Pandora tradicionalmente colorida. No entanto, esse contraste funciona a favor da experiência, destacando ainda mais os trechos que permanecem intactos e exuberantes.

Tecnicamente, o jogo continua sendo um dos projetos mais impressionantes da Ubisoft nesta geração. A fidelidade visual, a densidade dos cenários e o cuidado com a ambientação transformam a exploração em um espetáculo constante, mesmo em meio às cinzas.

Nova perspectiva

A DLC chega pouco tempo depois da atualização que introduziu a visão em terceira pessoa ao jogo base, e From the Ashes acaba funcionando, também, como um bom campo de testes para essa nova perspectiva. Apesar de não ser perfeita, a implementação é bem-vinda e oferece uma leitura diferente ao jogo.

É importante deixar claro que Avatar: Frontiers of Pandora foi concebido desde o início como um FPS. Isso fica evidente em vários aspectos do design, especialmente no combate. Ainda assim, a câmera em terceira pessoa facilita significativamente os momentos de exploração e plataforma, que ganham mais destaque. Escalar estruturas, atravessar ambientes verticais e navegar por áreas mais densas se torna mais intuitivo e confortável com a câmera afastada.

Por outro lado, essa nova visão cria expectativas que o jogo ainda não consegue atender completamente. Um exemplo é o combate corpo a corpo, que permanece simplório e pouco expressivo. A mudança de perspectiva não vem acompanhada de sistemas mais profundos de melee ou animações que aproveitem melhor a fisicalidade dos personagens. Isso não chega a comprometer a experiência, mas evidencia que essa abordagem híbrida entre primeira e terceira pessoa só atingiria seu potencial máximo se fosse pensada desde a concepção, em uma possível sequência.

Do ponto de vista técnico, Pandora ainda apresenta algumas falhas conhecidas. Bugs de navegação continuam aparecendo ocasionalmente, como marcadores imprecisos ou que simplesmente desaparecem, além de checkpoints irregulares.

A dificuldade, mesmo no nível mais alto, também não evolui de forma significativa. O aumento do desafio está mais ligado ao dano recebido do que a mudanças reais no comportamento ou agressividade dos oponentes. Isso torna os confrontos mais punitivos, mas não necessariamente mais interessantes do ponto de vista tático.

Como manda o padrão dos grandes títulos modernos, a árvore de habilidades marca presença. São quarenta opções de evolução, mas poucas realmente impactam a forma de jogar. Na prática, apenas uma habilidade se destaca de maneira mais clara: a possibilidade de eliminar mechas com um único disparo em furtividade. O restante oferece melhorias incrementais e pouco perceptíveis.

Essa falta de impacto transforma a progressão em algo automático. Em boa parte da campanha, evoluir se torna apenas um ato mecânico, sem grandes consequências para o estilo de jogo. É uma oportunidade perdida, especialmente em uma DLC que introduz um protagonista mais brutal e que poderia ter explorado melhor essa identidade através de sistemas mais marcantes em sua árvore de habilidades. 

O complemento ao universo da saga

Além de expandir a experiência jogável, From the Ashes também funciona como um complemento narrativo importante para o universo de Avatar. A DLC oferece olhares sobre acontecimentos paralelos à jornada principal dos filmes, explorando ideias que facilmente poderiam ganhar espaço na telona.

Uma das mais interessantes é a modificação e o controle de animais de Pandora pelos humanos. Esse conceito não apenas introduz novos tipos de inimigos, como também reforça o discurso recorrente da franquia sobre a arrogância colonial e a obsessão humana em dominar e remodelar a natureza.

Side quests envolvendo rinhas de animais e experimentos cruéis ajudam a aprofundar esse aspecto do mundo, mostrando que a violência contra Pandora não se limita a grandes operações militares.

A DLC também retoma temas já abordados por James Cameron, inclusive no novo filme, funcionando como uma extensão direta do material cinematográfico. Isso é especialmente evidente no arco de Nor, um dos companheiros do clã, que aqui recebe um desfecho mais elaborado. Seu conflito interno se dá após uma infância marcada por abuso e convivência forçada com o “mundo de metal”, Nor busca se afastar completamente de qualquer artefato humano, vendo-os como elementos corrompidos.

Esse posicionamento entra em choque direto com So’lek, que não hesita em utilizar armas do “povo do céu” para cumprir seus objetivos. O embate ideológico entre os dois adiciona densidade à narrativa, mostrando que a luta não é apenas contra os humanos ou o clã do fogo, mas também interna, sobre identidade, trauma e pragmatismo.

Esse contraste se intensifica quando observamos os Mangkwan. Distantes de Eywa ("Deusa" deste planeta) e desconectados de qualquer espiritualidade, eles não veem problema algum em empunhar armas humanas e adotar seus métodos mais cruéis. 

Nada disso é exatamente revolucionário, mas funciona dentro do contexto e reforça temas centrais da franquia, tornando este episodio uma peça coerente dentro do mosaico maior de Avatar. 

Após o fogo

From the Ashes é uma expansão que não tenta reinventar Avatar: Frontiers of Pandora, mas sim fechar seu arco de forma coerente, dialogando diretamente com o novo filme. Ao apostar em um protagonista mais brutal, conflitos internos entre os Na’vi e um mapa marcado pela destruição, a DLC reforça os temas centrais da franquia sem deixar a diversão de lado.

Mesmo com limitações herdadas do jogo base, como sistemas pouco profundos e bugs ocasionais, a experiência se sustenta graças à força estética de Pandora, ao bom uso do clã do fogo e a missões mais compactas e bem direcionadas. É um encerramento sólido, feito sob medida para fãs do universo de James Cameron.

Prós

  • Pandora continua visualmente impressionante, mesmo sob cinzas;
  • So’lek é um protagonista mais brutal e interessante;
  • Sinergia com o novo filme Avatar: Fogo e Cinzas;
  • Atualização em terceira pessoa amplia a acessibilidade e exploração. 

Contras

  • Ritmo inicial lento da campanha;
  • Bugs ocasionais de navegação e checkpoints irregulares;
  • Árvore de habilidades pouco inspirada e impactante;
  • Combate corpo a corpo simplório, mesmo com a câmera em terceira pessoa. 
Avatar: Frontiers of Pandora - From the Ashes - PS5/XSX/PC - Nota: 7.5
Versão utilizada para análise: PlayStation 5
Revisão: Beatriz Castro 
Análise feita com cópia digital cedida pela Ubisoft
OpenCritic
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Matheus Oliveira
Entusiasta de games e cinema, sempre explorando novos gêneros e estilos enquanto acumula um backlog infinito. X e Instagram
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