Enquanto procurava possíveis bons metroidvanias que deixei passar em 2025, vi uma recomendação de Kyle Thompson, o criador de uma trinca de títulos que gosto muito (Sheepo, Islets e Crypt Custodian). A indicação dele foi Auridia, e eu decidi que iria experimentá-lo por conta própria. Uma escolha feliz, pois este é um dos melhores exemplares do gênero lançados no ano que passou.
Indianavania
Como certo arqueólogo aventureiro do cinema, em Auridia precisamos encontrar vestígios e artefatos em ruínas de lendas da antiguidade. Também como ele e seu fiel chicote, logo no início somos equipados com uma corda para podermos nos balançar por tetos e paredes de forma muito prática e eficiente. Com as habilidades interessantes que conseguimos adiante, o movimento se torna bastante interessante e completo, muito condizente com o design de mundo construído pela Norseboar Games, do desenvolvedor solo Reed Molbak.
Não dá para dizer que é um jogo completamente desprovido de combate, uma vez que há formas indiretas de derrotar certas criaturas com o uso dos ataques que elas mesmas lançam. Esses momentos são pontuais e integrados à missão principal ou ao próprio ambiente.
Auridia, portanto, é um jogo de plataforma de exploração. Todo o desafio vem do design de níveis. Além de lava e espinhos, há uma opressora substância rosada de origem desconhecida, que se espalha ainda mais por Auridia conforme a campanha avança, mudando levemente o terreno para torná-lo mais hostil à medida que nos tornamos mais capazes, acrescentando um leve mas interessante toque de dinamismo que transforma o mundo do jogo.
A escuridão é um elemento que adensa a atmosfera e potencializa as adversidades. O protagonista carrega uma tocha para iluminar um pequeno círculo ao seu redor, mas ele também pode usá-la para acender as muitas piras que encontra e, assim, clarear a área. Logo, a luz é usada em Auridia para ajudar a evitar os perigos e para marcar o progresso da exploração, deixando aquela região subterrânea cada vez mais visível e, por consequência, mais dominada por quem joga.
A gameplay em si, porém, não traz senso de perigo concreto. Não temos medidor de saúde e a morte significa apenas um retorno instantâneo ao último solo firme que pisamos, geralmente na mesma tela. É um incentivo à persistência, típico de jogos de plataforma desafiadores e que, aqui também, encaixa como uma boa escolha, pois o que realmente nos testa são os obstáculos ambientais.
O único medidor que temos é o de energia, recurso consumido para escalar e usar habilidades de movimento, e recarregado ao tocarmos no chão. É possível aumentá-lo ao consumirmos os pontos adquiridos por encontrar pequenos santuários de pedra escondidos por toda parte. São dezenas deles e, junto com os artefatos antigos, somam um bom inventário para nos fazer vasculhar cada cantinho à procura de passagens secretas.
Logo, Auridia foca a ação e desafio inteiramente na exploração, sem punições ou perda de progresso, o que aumenta a agilidade e a fluidez da experiência sem deixá-la fácil demais.
Lovecraftvania
A história, por sua vez, segue inspiração no estilo lovecraftiano. Não que seja um conto de horror; mais que o medo, aqui prevalece a atração pelo desconhecido e misterioso. Todo o enredo acontece em Auridia, uma antiga cidade subterrânea em ruínas e, no passado distante, habitada por uma espécie de moluscos tentaculares de conchas. O protagonista segue as anotações de seu avô, que desapareceu após viajar para descobrir a verdade por trás das lendas.
A inspiração em Lovecraft se aproxima mais da fase onírica do autor, que uniu as entidades cósmicas a cidades fantásticas e viagens pelos sonhos, onde a realidade se expande para as profundezas dimensionais do pensamento e do oculto (já tratei do tema em um artigo sobre Bloodborne).
Assim, em Auridia, temos que lidar com conhecimentos arcanos e deuses enigmáticos, o que, além de nos oferecer textos narrativos em prosa bem escrita, também reúne várias mecânicas em torno de si: exploramos para encontrar oferendas para os altares e, como recompensa, receber novas habilidades de movimento; esses mesmos altares servem de pontos de viagem rápida.
A exploração também leva a artefatos que, além de aprofundar a construção mitológica, formam conjuntos para entregar ao nosso novo amigo que pesquisa a cidade, o arqueólogo Snorri e, como recompensa, rendem ainda mais informações e ritos equipáveis com vantagens práticas para a gameplay.
A cor que caiu do espaço
Visualmente, tudo isso é bastante simples, o que indica as limitações da produção. Digo isso principalmente do protagonista, que, sendo apenas uma silhueta de capa e capuz azuis, parece um rascunho que ainda deveria ser substituído por uma suposta forma final.
Por outro lado, limitações abrem espaço para soluções e, nos cenários, Auridia se sai muito bem nesse quesito, desenhando coloridos panoramas de fundo para contrastar com um primeiro plano escuro. A mistura de cores irradia seus tons até a saturação, uma luminescência que combina com vários temas ao mesmo tempo: o subterrâneo, a cidade sublime e o sonho.
Com isso, os visuais simples são muito eficientes em formar uma estética que, para efeitos práticos, distingue perfeitamente todas as áreas entre si, e, no campo das impressões e atmosfera, é tão agradável quanto mística.
Creio que essas duas palavras sirvam para descrever minhas sete horas com Auridia: um jogo agradável e místico, entalhado em pedra bruta até que todos os excessos tenham sido retirados e apenas a essência que importa tivesse restado para revelar uma obra coesa e instigante, que sabe exatamente o que precisa ser.
Uma relíquia arqueológica a ser descoberta
Sem combate direto, Auridia foca todos os seus esforços em exploração, plataforma e história de inspiração lovecraftiana. O resultado é um jogo que prima pela coesão, sem qualquer excesso ou ponta solta. Tudo que há nele tem seu lugar e encaixa perfeitamente com o restante, uma sensação de unidade e fluidez que é muito beneficiada pelas ótimas mecânicas de movimento, como a corda, obtida logo no começo. Uma verdadeira surpresa que, aparentemente despretensiosa, revela-se uma joia escondida e repleta de cores brilhantes em meio à escuridão.
Prós
- Uma experiência de exploração coesa, sem excessos ou pontas soltas;
- A paleta de cores dos cenários de fundo, em contraste com o primeiro plano escuro, passa uma atmosfera ao mesmo tempo intrigante e agradável;
- O enredo segue um estilo lovecraftiano bem escrito;
- As boas mecânicas de movimentação e o design de mundo bem-feito beneficiam a dinâmica de exploração.
Contras
- Mesmo que a direção de arte compense em diversos pontos, a simplicidade visual deixa óbvia a limitação da produção, especialmente no modelo do protagonista;
- Sem tradução para português brasileiro.
Auridia — PC — Nota: 9.0
Revisão: Johnnie Brian
Análise produzida com cópia digital adquirida pelo redator













