Análise: Vampire: The Masquerade: Bloodlines 2 — uma ótima narrativa para um RPG ruim

Jogamos Bloodlines 2: um belo enredo sombrio preso em um RPG cheio de limitações.

em 08/11/2025

Anunciado originalmente em março de 2019, Vampire: The Masquerade – Bloodlines 2 finalmente chegou, carregando as marcas de um desenvolvimento problemático e várias mudanças de direção ao longo dos anos.

Desenvolvido pela The Chinese Room, o jogo se distancia bastante do cultuado Vampire: The Masquerade – Bloodlines (2004) e entrega uma experiência mais linear, focada em ação e narrativa cinematográfica — o que frustrou muitos fãs do RPG original.

Um mundo de intrigas e sombras

Vampire: The Masquerade é o coração do universo World of Darkness, um cenário gótico-punk onde vampiros, lobisomens e magos vivem escondidos entre nós. A franquia sempre foi marcada por sua intriga política, dilemas morais e pela luta para manter a Máscara — a lei vampírica que proíbe a revelação da existência desses seres à humanidade. É nesse pano de fundo sombrio que a The Chinese Room tenta construir sua visão de Bloodlines 2.

Mais Visual Novel do que RPG

A primeira grande decepção é perceber que, apesar do nome, Bloodlines 2 não é exatamente um RPG. Enquanto o original oferecia liberdade total de criação de personagem e diálogos ramificados, o novo título segue uma estrutura de ação-aventura linear, com foco em combate e furtividade. Você controla Phyre, um vampiro ancião pré-definido — apenas o gênero, cabelo e roupas são personalizáveis (e ainda assim, poucas opções realmente combinam com o visual de um imortal milenar). Além disso, clãs icônicos como Gangrel e Nosferatu foram removidos como opções jogáveis.

A melhor parte: movimentação e combate

A travessia é o ponto mais divertido do jogo. Escalar e planar pelos prédios de Seattle transmite a sensação visceral de ser um predador poderoso. Já o combate é visualmente impactante, mas sofre com inconsistência de poder. Logo no início, Phyre arremessa inimigos como se fossem bonecos, mas conforme o jogo avança, o personagem é nerfado artificialmente, perdendo a sensação de força. Essa limitação constante frustra, especialmente por se tratar de um Ancião, uma das criaturas mais poderosas da mitologia do game.

Experiência com o clã Lasombra

Diferente de Bloodlines (2004), no qual joguei como Malkaviano — uma escolha caótica e confusa devido à “loucura” do clã —, nesta sequência optei pelo Lasombra, mestre das sombras. As habilidades de controlar escuridão para atacar ou confundir inimigos são visualmente incríveis. Mas há um problema: diferente de Fabian, o detetive Malkaviano que usa seus poderes fora do combate (como “falar” com objetos, ler pensamentos e ludibriar mentes), meu Phyre nunca pôde usar suas Disciplinas em diálogos. Isso torna a escolha de clã pouco significativa fora das batalhas. 

Ainda assim, quando o jogo lembra o que Bloodlines realmente significava — como mergulhar na sombra de um inimigo ou aprisioná-lo em sua própria escuridão — ele brilha. É nesses momentos que Bloodlines 2 parece entender que ser um monstro é mais do que lutar: é sobreviver mantendo a Máscara em um mundo já mergulhado no caos.

Telecinese: o poder mais divertido

A habilidade padrão de telecinese é, sem dúvida, uma das mais divertidas. Ela permite que Phyre pegue e dispare armas de fogo à distância, arremesse facas, granadas e objetos do cenário, e até devolva explosivos durante combates intensos. Essa mecânica dá ritmo, variedade e uma sensação real de poder — algo que falta em outras áreas do título.

Inimigos e combates repetitivos

Apesar da boa sensação de combate, o jogo sofre com pouca variedade de inimigos. A maior parte das lutas é contra anarquistas, que funcionam como inimigos genéricos. Existem outros tipos de adversários ao longo da campanha, porém mencioná-los seria spoiler. O problema é que essa repetição reduz o desafio e tira peso das batalhas, algo que o Bloodlines original fazia bem — cada facção inimiga tinha identidade, estilo e propósito.

RPG diluído e simplificado

O protagonista, por ser um Ancião, pode acessar poderes de vários clãs (Disciplinas) com facilidade, o que está correto na lore, mas mal construído na prática. O jogador é obrigado a cumprir dezenas de missões secundárias superficiais com personagens rasos, cujos longos diálogos raramente afetam a história principal. A sensação é de que as escolhas pouco importam, reduzindo o impacto narrativo — um dos maiores trunfos do jogo original. Além disso, a publisher Paradox optou por suavizar a rivalidade entre clãs em nome da “inclusão”. Essa decisão, embora bem-intencionada, dilui a tensão política e enfraquece a essência do universo World of Darkness.

Uma Seattle bela, mas vazia

O prometido “mundo aberto vibrante” virou uma Seattle pequena, fria e sem vida. As side quests são repetitivas e com frequência destoam da posição de poder de Phyre, envolvendo tarefas banais como entregar pacotes ou eliminar grupos genéricos de inimigos. Mais estranho ainda: ninguém usa celular. O jogador é forçado a ir e voltar fisicamente entre NPCs, quebrando o ritmo da narrativa.

Narrativa envolvente, mas sem profundidade

Apesar das falhas, Bloodlines 2 brilha na história principal. O mistério político envolvendo o assassinato de um influente vampiro é bem escrito, e a ambientação gótica e coberta de neve cria uma atmosfera perfeita. Os protagonistas Phyre e Fabian são carismáticos, com ótimas dublagens e diálogos afiados — a ponto de você sentir falta deles ao final da campanha. Há seis finais diferentes, baseados nas alianças formadas com cada facção, porém as escolhas durante a jornada têm impacto mínimo, o que reforça a sensação de “ilusão de liberdade”.

Desenvolvimento caótico

O jogo passou por um dos ciclos de produção mais problemáticos da Paradox. Inicialmente desenvolvido pela Hardsuit Labs, o projeto foi adiado várias vezes, culminando na demissão de Brian Mitsoda, roteirista original, após cinco anos de trabalho. A Paradox então entregou o projeto à The Chinese Room, conhecida por narrativas contemplativas, o que explica o foco atual em história e não em sistemas de RPG. Além disso, a decisão de vender dois clãs como DLC na edição premium gerou revolta entre os fãs e só foi revertida após forte pressão da comunidade.

Mesmo com a troca de estúdio e engine moderna (Unreal Engine 5), o jogo chegou com diversos problemas técnicos, dos quais podemos destacar os travamentos e quedas de frame rate durante cenas e combates, NPCs errando o gênero de Phyre, legendas dessincronizadas e aparecendo ou desaparecendo antes da fala terminar. Esses bugs quebram a imersão e reforçam a sensação de que o jogo foi lançado antes da hora.

Uma sequência muito aquém do predecessor

Vampire: The Masquerade – Bloodlines 2 é um jogo de ótima narrativa e atmosfera, mas que fracassa como RPG. Ele acerta em diálogo, ambientação e temas, mas tropeça em game design, variedade e escolhas significativas. Para quem busca uma história sombria e bem escrita, vale a experiência. No entanto, quem esperava uma verdadeira sequência espiritual de Bloodlines (2004) vai sair com sede de sangue — e de profundidade.



Prós

  •  A excelente construção de intriga e mistério político tornam a narrativa principal cativante;
  • O visual gótico e nevado e a iluminação de Seattle são visualmente impressionantes;
  • Os protagonistas Phyre e Fabian são personagens carismáticos e têm ótima química dublagem;
  • O Combate é visceral e possui animações bem-feitas, especialmente nas Disciplinas e na travessia.

Contras

  • Pouca liberdade para decisões significativas tornam o game excessivamente linear;
  • Escolhas de clã e atributos quase não afetam o enredo;
  • Mundo vazio, sem vida e com missões secundárias repetitivas;
  • Constantes travamentos, bugs e erros de diálogo;
  • Trechos monótonos com Fabian são um grande potencial desperdiçado.
Vampire: The Masquerade: Bloodlines 2 - PC/XSX/PS5 - Nota:6.0
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Thomaz Farias
Análise produzida com cópia digital adquirida pelo próprio redator
OpenCritic
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Windsor Santos
Jogadorino desde os áureos anos 90, geralmente surpreende amigos com a quantidade de títulos que já finalizou. Divide o amor por games com seus mangás, Hq's e filhotes. Agora seu objetivo é registar seus conhecimentos para as novas gerações de jogadores.
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