Análise: Morsels é um roguelike estranho e criativo que encanta e frustra em igual medida

Controle monstrinhos diversos neste título indie que peca ao ser confuso e punitivo demais.

em 18/11/2025

Morsels é um roguelike twin-stick de conceito peculiar em que nos transformamos em diferentes monstros para sobreviver. A atmosfera é única e propositalmente inusitada, combinando caos, humor excêntrico e grotesco. Apesar da proposta intrigante e cheia de personalidade, a execução tropeça em mecânicas obtusas e punições que, em vez de desafiar de forma inteligente, acabam desgastando o jogador.

Metamorfoseando-se para enfrentar tiranos

Quando misteriosas cartas místicas começam a despencar do céu, trazendo consigo o poder de transformar criaturas em monstros, um grupo de gatos tirânicos aproveita a oportunidade para dominar tudo ao redor. Eles se autointitulam Barões das Cartas e passam a governar com crueldade. No meio dessa desigualdade, um rato humilde decide usar esse mesmo poder para buscar a lendária Carta Divina e pôr fim ao reinado dos Barões.


No coração de Morsels está um roguelike de ação twin-stick de ritmo acelerado. Ao coletar cartas, o protagonista se transforma nos chamados bocaditos, pequenas criaturas monstruosas com estilos completamente diferentes entre si. Cada monstrinho possui ataques e habilidades únicas, nos incentivando a alternar entre eles em meio ao combate.

É possível carregar três bocaditos simultaneamente, trocando livremente de acordo com a situação. Conforme enfrentamos inimigos, ganhamos experiência e cada criatura sobe de nível até, eventualmente, evoluir para uma forma mais poderosa. Pelo caminho, também encontramos as chamadas orbelotas, itens com efeitos diversos — desde melhorias de atributos até habilidades curiosas, como deixar um rastro de fogo ao esquivar.



Muitos monstrinhos em um mundo peculiar

A palavra que define Morsels é simples: estranho. Embora seja um twin-stick shooter, ele raramente se comporta como um jogo do gênero. Seus monstros jogáveis — os bocaditos — fogem de qualquer fórmula convencional, nos obrigando a reaprender constantemente como se movimentar e atacar.

Cada bocadito tem um comportamento único: uma margarida que dispara projéteis de curto alcance, uma pedra viva que se arremessa nos adversários, um cogumelo aparentemente indefeso que comanda um pequeno grupo de fungos. A graça está em entender como cada criatura funciona, descobrir quando utilizá-la e montar combinações que se complementam. Além de reflexos, experimentação é essencial para esse processo.


Os estágios seguem uma estrutura direta: encontrar a saída que leva ao próximo andar. Porém, essa simplicidade é apenas superficial. O jogo esconde incontáveis rotas alternativas, salas secretas e interações com NPCs excêntricos, muitas vezes exigindo carregar itens entre andares ou resolver pequenos enigmas para desbloquear conteúdos especiais.

Há ainda minigames espalhados pelos cenários, como correr por um labirinto, atravessar uma estrada perigosa ou destruir alvos contra o tempo. Finalizar uma partida é relativamente fácil; o verdadeiro valor de Morsels surge ao explorar seus muitos mistérios e desvendar cada uma de suas peculiaridades escondidas.



Tentando sobreviver em um mundo punitivo

Morsels apresenta um universo intrigante, misterioso e cheio de personalidade, nos convidando a experimentar e compreender suas regras próprias. No entanto, a abundância de escolhas estranhas e mecânicas mal explicadas transforma a descoberta em frustração em vez de fascínio.

Controlar os bocaditos é, muitas vezes, um desafio por si só. A barra de energia se esgota rápido demais, obrigando pausas constantes para recarregar ataques e quebrando o ritmo da ação. Além disso, vários deles são difíceis de usar: um arremessa uma bola que precisa ser recuperada antes de atacar novamente; outro dispara projéteis fracos e difusos, tornando acertar inimigos uma tarefa ingrata; uma mosquinha pode atingir oponentes distantes com cuspe, porém seus ataques a empurram, fazendo com que sua movimentação seja instável. 


Tudo isso seria aceitável se tudo não fosse tão agressivo. Inimigos pressionam sem descanso e os cenários estão repletos de armadilhas — o que transforma cada erro em um problema maior do que deveria ser. Com o tempo, dá para achar alguns bocaditos menos problemáticos, mas até isso acontecer, a sensação é a de estar sempre lutando contra o próprio jogo.

Quase nada é explicado, delegando ao jogador a tarefa de descobrir, por conta própria, a maioria das mecânicas. Mesmo assim, muitos sistemas permanecem obscuros: itens, poderes e efeitos têm descrições vagas e pouco informativas. Frequentemente, é possível pegar algo sem saber o que ele faz — e às vezes isso arruína a partida com efeitos negativos inesperados. A falta de clareza visual também atrapalha: obstáculos se confundem com o cenário, itens se misturam a inimigos e há inconsistências que dificultam a leitura do ambiente. Só após muitas derrotas é que começa a surgir algum entendimento real do que está acontecendo.


Como se não bastasse, Morsels adiciona camadas extras de punição. Permanecer muito tempo em um estágio faz surgir uma cobra que elimina bocaditos instantaneamente. Interações com NPCs frequentemente trazem efeitos negativos inevitáveis, tornando o processo injusto, já que não há como prever o resultado. E, talvez o mais controverso: ao atingirem níveis muito altos, os bocaditos “se aposentam”, morrendo permanentemente e desperdiçando o investimento do jogador. 

A ideia é incentivar a variedade, contudo, na prática, parece apenas severo demais. Por baixo dessas decisões duras, existe um jogo criativo e divertido — no entanto, extrair isso exige comprometimento e insistência. Fica a torcida para que atualizações futuras suavizem tais sistemas.



Em um pitoresco universo de dualidades

A ambientação é um dos maiores trunfos de Morsels, construída com uma identidade peculiar e inconfundível. O título mistura humor bizarro com um charme grotesco, criando um mundo simultaneamente repulsivo e cativante. A arte pixel art retrô combina criaturas fofas com cenários sujos e decadentes — o que faz todo sentido para um universo subterrâneo ambientado em esgotos.

A estética produz uma sensação ímpar: algo estranho, mas curiosamente aconchegante. A trilha sonora reforça ainda mais essa dualidade, com músicas que passeiam por tons de jazz experimental e instrumentos pouco usuais, como xilofone e órgão. O resultado é um ambiente sonoro excêntrico, porém surpreendentemente envolvente, que eleva a atmosfera já extremamente singular do jogo.



Uma aventura para poucos

Morsels é uma experiência marcada por ousadia, criatividade mecânica e uma identidade forte, mas que ao mesmo tempo se desdobra em escolhas de design que prejudicam a fluidez da aventura. Seus bocaditos carismáticos, mundo repleto de segredos e atmosfera memorável contrastam com sistemas obtusos, pouca clareza e punições que podem afastar até mesmo um público experiente.

Há um jogo muito interessante escondido dentro de sua estranheza, embora acessá-lo exija paciência e persistência. Com ajustes — seja no balanceamento, na explicação das mecânicas ou na redução de punições excessivas — Morsels poderia brilhar muito mais. Do jeito que está, é uma jornada única, mas também um pouco restrita, recomendada principalmente para quem aprecia experiências incomuns e está disposto a enfrentar suas excentricidades.

Prós

  • Interpretação criativa do gênero twin-stick;
  • Boa variedade de monstrinhos para controlar e dominar;
  • Mundo repleto de segredos e conteúdos interessantes;
  • Ambientação única com ótimo pixel art e trilha sonora excêntrica.

Contras

  • Muitas das mecânicas básicas são pouco explicadas e difíceis de entender;
  • Alguns bocaditos são frustrantes de usar;
  • O jogo é excessivamente punitivo em vários sistemas;
  • A leitura visual dos cenários é confusa e pouco clara.
Morsels — PC/PS5/XSX/Switch — Nota: 6.5
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Thomaz Farias
Análise produzida com cópia digital cedida pela Annapurna Interactive
OpenCritic
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Farley Santos
é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de roguelikes, game music, fotografia e livros. Pode ser encontrado no seu blog pessoal e nas redes sociais por meio do nick FaruSantos.
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