Análise: Constance transforma tinta e ansiedade em uma jornada artística delicada e imperfeita

Ação repleta de fluidez, belo visual e uma temática única ditam o tom deste metroidvania indie.

em 21/11/2025

A mente de uma artista é o cenário de Constance, metroidvania 2D que usa sua estética como extensão direta da narrativa interna da protagonista. Com um pincel na mão, a heroína salta, ataca e se transforma em tinta para superar inúmeros desafios em uma ágil jornada. A proposta combina sensibilidade artística, metáforas psicológicas e um mundo construído para refletir o conflito criativo, emocional e mental da personagem, resultando em uma experiência que busca unir forma e significado desde o primeiro momento.

A jornada de uma artista por um mundo complexo

Como metroidvania 2D tradicional, Constance aposta em uma estrutura já conhecida: caminhos que se entrelaçam, áreas inicialmente inacessíveis e um constante ciclo de aquisição de habilidades para desbloquear novos trechos. A protagonista é Constance, uma garota de cabelo feito de tinta que empunha um pincel como arma e ferramenta. Esse conceito visual se transforma em mecânica, com ataques rápidos e leves que acompanham o ritmo ágil da exploração.


O uso do pincel e da tinta é o centro de tudo. A personagem pode atacar rapidamente, limpar inimigos ou obstáculos corrompidos, deslizar no chão e nas paredes ao se transformar em tinta e usar habilidades especiais que ampliam seu alcance ou mobilidade. Cada poder, porém, consome tinta — e quando ela se esgota, a protagonista entra em um estado “corrompido” em que as habilidades passam a consumir sua própria vida. Esse risco constante adiciona tensão estratégica, pedindo sabedoria no uso de cada movimento, ainda que a tinta se regenere naturalmente quando não usada.

A customização entra em cena através das Inspirações, habilidades passivas encaixadas em um quadro de espaços limitados. Algumas são ofensivas, como maior chance de críticos ou regeneração de vida em ataques específicos; outras são de suporte, como aumentar espólios ou impedir perda de vida ao usar habilidades no estado corrompido. O sistema é simples, mas oferece boas opções de personalização, permitindo ajustá-la ao estilo desejado — mais agressivo, mais seguro ou mais focado em exploração.



Pinceladas ágeis em uma aventura diversa e criativa

A experiência geral de Constance revela um metroidvania tradicional e ágil, com bom ritmo entre combate, plataforma, exploração e pequenos puzzles de navegação. A fluidez dos movimentos é uma das qualidades mais marcantes: Constance salta, se transforma em tinta e desliza com naturalidade, reforçando a sensação de domínio crescente à medida que novas habilidades entram na jogada. 

O mapa traz uma ideia criativa: a possibilidade de tirar fotos que são automaticamente posicionadas nele, permitindo registrar pontos de interesse, puzzles ou caminhos para serem explorados depois. No entanto, o próprio mapa poderia ser mais funcional: não marca a posição exata da protagonista nem oferece marcadores personalizáveis, algo comum em outros metroidvanias.


A variedade de situações ajuda a manter a sensação de novidade da aventura. Há áreas focadas em limpar obstáculos corrompidos durante sequências de plataforma exigentes, outras que obrigam o uso de habilidades para lançar a protagonista em alta velocidade e alcançar lugares elevados e, ainda, zonas onde combates ritmados se misturam com desafios de movimento. Essa alternância entre diferentes abordagens faz com que o jogo mantenha um bom dinamismo, evitando monotonia.

Apesar disso, a campanha principal é enxuta e contida — algo que funciona a favor da experiência, evitando prolongamentos desnecessários. Há muitos conteúdos opcionais espalhados pelo mapa, e pontos de viagem rápida e atalhos tornam mais simples a tarefa de revisitar as áreas. Para quem gosta de explorar todos os cantos e caçar upgrades, Constance oferece bastante espaço para ir além da rota principal, mesmo mantendo uma duração moderada para o gênero.



As manchas na tela

Embora apresente boas ideias, o jogo frequentemente aposta no seguro. O tema artístico, tão rico e promissor, acaba sendo subutilizado dentro das próprias mecânicas, que poderiam ter explorado mais transformações, interações com o cenário e consequências visuais. Algumas habilidades têm pouco impacto prático, e certos trechos são simples demais, causando sensação de potencial não totalmente aproveitado. Momentos de tentativa e erro também surgem, com saltos cegos que quebram o ritmo e exigem repetição desnecessária.

Alguns chefes sofrem com leitura pouco clara de padrões e condições para causar dano, gerando confusão e mortes injustas. Em mais de um momento, entender como escapar de ataques específicos — ou como realmente atingir o inimigo — levou mais tempo do que deveria. Felizmente, esses casos são raros, e checkpoints bem posicionados reduzem a frustração, permitindo retomar o desafio rapidamente.



Mergulhando em um quadro vivo e em colapso

A ambientação de Constance é um de seus pontos mais fortes: uma estética pictórica desenhada à mão, com cores vibrantes e muita personalidade. Cada cenário parece um quadro, ora belo, ora desbotado, refletindo emocionalmente o estado interno da protagonista. A trilha sonora alterna entre momentos suaves embalados por piano e trechos mais agitados com acordeão, criando uma atmosfera emocionalmente dinâmica que acompanha os altos e baixos da jornada mental da artista.

A premissa coloca a protagonista enfrentando seu próprio mundo mental, lidando com emoções, pressões e crises criativas transformadas em metáforas visuais concretas. O desenvolvimento dela acontece menos por diálogos e mais pela progressão simbólica das áreas, transmitindo sentimentos de sobrecarga, estagnação e renascimento artístico conforme exploramos novas regiões.


As metáforas estão por toda parte: áreas desfeitas, cores drenadas, robôs e outras criaturas como inimigos. Em certos trechos, minigames exemplificam aquilo que Constance está enfrentando na vida real. Um dos mais marcantes envolve lidar com mensagens de colegas de trabalho e tarefas intermináveis: a pressão crescente, a sobrecarga e a ansiedade transmitidas por esse segmento tornam a experiência desconfortável de propósito, espelhando com precisão a exaustão emocional da protagonista.

O tema é genuinamente interessante e convida à reflexão, especialmente sobre saúde mental, burnout e expectativas criativas. Embora a narrativa não seja longa ou profundamente complexa, ela utiliza sua linguagem própria para transmitir sentimentos. Essa sutileza torna a temática mais impactante do que aparenta à primeira vista.



Uma aventura de emoções

Constance é um metroidvania enxuto, elegante e emocional, que combina movimento fluido, visual marcante e uma temática introspectiva bem construída. Apesar de certa timidez ao explorar suas próprias ideias e de problemas pontuais em desafios e chefes, o jogo oferece uma aventura envolvente e pessoal. É uma boa escolha para quem gosta de metroidvanias tradicionais, experiências artísticas e narrativas que refletem conflitos internos — uma obra que, como sua protagonista, destaca-se justamente por tentar equilibrar criação e caos.

Prós

  • Movimentação fluida e agradável;
  • Mundo rico, com diversidade de desafios para superar;
  • Atmosfera aconchegante com belo visual pintado à mão e trilha sonora suave;
  • Temática emocional bem integrada à ambientação.

Contras

  • Algumas habilidades são subutilizadas;
  • Presença de tentativa e erro em certos desafios de plataforma e chefes;
  • O mapa poderia ser mais funcional e detalhado.
Constance — PC — Nota: 8.5
Revisão: Alessandra Ribeiro
Análise produzida com cópia digital cedida pela btf
OpenCritic
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Farley Santos
é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de roguelikes, game music, fotografia e livros. Pode ser encontrado no seu blog pessoal e nas redes sociais por meio do nick FaruSantos.
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