The Berlin Apartment reflete sobre a vida comum em uma das cidades mais complexas do século XX. Berlim foi a capital do nazismo, ideologia supremacista e genocida que levou a uma guerra brutal com dezenas de países de todos os continentes habitados. Como resultado, a cidade foi quase inteiramente destruída sob bombardeios.
Mal havia se reerguido dos escombros, acabou dividida literalmente da noite para o dia por um longo muro que separou famílias sem aviso prévio e foi um símbolo da intransigência irreconciliável pelos quase 30 anos que ficou de pé. A derrubada do muro foi o outro lado da moeda, reverberando pelo Ocidente como um símbolo de liberdade e esperança, prenúncio do fim da Guerra Fria com a União Soviética.
Com o tempo, contrariamente ao seu histórico anterior, Berlim se tornou uma cidade cosmopolita e receptiva, tendo uma grande população de imigrantes e refugiados, principalmente do Oriente Médio. Repleta de áreas verdes, ela resiste à corrida pela verticalização urbana e arranha-céus das metrópoles modernas.
É uma cidade querida para mim, onde já visitei parentes em algumas ocasiões. Por isso, bastou ver o trailer de The Berlin Apartment para ter a certeza de que queria analisá-lo, mesmo que o vídeo não mostrasse bem como se joga.
“Soprando com o vento da mudança”
Como o título diz, toda a campanha acontece dentro de um apartamento, que podemos explorar em primeira pessoa. É um espaço contido, mas, aprofundado por uma dimensão extra — o tempo — aquele local se torna muito mais do que pode parecer à primeira vista. Ele é um microcosmo histórico de Berlim e, por associação inescapável, da própria Alemanha.
Dessa forma, vemos as transformações ocorridas em cinco épocas diferentes ao longo de quase 90 anos. O eixo gira em torno de uma história hub: em 2020, o cidadão imigrante Malik está trabalhando em uma reforma completa em um apartamento antigo. Como as escolas estão fechadas devido à pandemia de covid-19, ele leva sua filha alemã Dilara para acompanhá-lo e, enquanto ela brinca pelos aposentos, descobre rastros dos vários antigos moradores que já habitaram o lugar.
Pai e filha conversam, imaginam e reconstroem as vidas daquelas pessoas do passado, contando suas histórias com leveza em meio às ruínas do tempo e da sociedade. Nesses momentos, deixamos de controlar Dilara e assumimos as rédeas desses indivíduos, explorando o mesmo apartamento sob contextos completamente diferentes, o que renova o espaço de uma maneira que, em vez de parecer restrita e repetitiva, o torna mais interessante e significativo.
Na prática, é assim: na pele de Dilara, “escavamos” o papel de parede e encontramos cartas de 1989 afixadas sob ele. Passamos, então, à pele de Kolja, um jovem botânico de Berlim Oriental que vive à beira do muro e se comunica com uma desconhecida do outro lado usando aviões de papel, que passam por cima do símbolo da discórdia. Eles não tinham como saber que, meses depois, o muro que oprimia começaria a ser derrubado.
Andamos pelo apartamento, regamos as plantas, conversamos com o peixe, ouvimos as inseguranças de Kolja e escolhemos o jantar. Neste segmento, as interações são bastante passivas, servindo mais para seguirmos o fluxo do conto.
Em seguida, regressamos a 1933, ano em que Hitler foi nomeado Chanceler e a Lei Habilitante o concedeu plenos poderes, marcando o início da ditadura nazista. Jogamos com Josef, um judeu idoso, amante de filmes e dono de um cinema local, fazendo uma espécie de claro-escuro temático que celebra a marcante criatividade artística do Expressionismo Alemão como uma luz que ainda era capaz de brilhar naqueles tempos sombrios, com referências ao clássicos Metrópolis, O Gabinete do Dr. Caligari, Nosferatu e à celebrada atriz Marlene Dietrich.
A gameplay é mais interessante, pois precisamos encontrar uma lista de itens pessoais para organizar na mala de maneira que todos caibam bem. Cada objeto leva a mais lembranças em forma de filme mudo, tornando este segmento um dos mais coesos em execução narrativa.
Outros dois contos fecham os trabalhos de rememoração criativa. Ambientados em 1945 e 1967, eles retomam os temas de opressão do nazismo e da política da Alemanha Oriental por ângulos bem diferentes dos anteriores, com suas próprias nuances e impactos.
“Leve-me à mágica do momento em uma noite gloriosa”
É bastante claro como, estrutural e tematicamente, a ideia de adicionar camadas a um mesmo pequeno lugar funciona muito bem. Muitas interações interessantes têm espaço nos cinco períodos e, para mim, a mais criativa foi a de transformar a quebra de azulejos de parede numa partida de jogo de campo minado. É algo completamente opcional, porém minha esposa e eu passamos um bom tempo resolvendo essa atividade.
Assim, a graça de The Berlin Apartment está nos detalhes, nas pequenas variáveis dos diálogos, na disposição em imaginar aquelas vidas representativas de uma história conturbada.
É uma experiência curta: finalizamos a história em quatro horas e a seleção de capítulos me permitiu rejogá-los para caçar os troféus de PS5 que restaram em mais duas horas. Embora passe a sensação de ser uma experiência completa e rica, eu certamente gostaria que tivesse mais algumas histórias únicas para contar, o que significa tanto meu apreço pelo jogo quanto uma constatação de sua brevidade. Um episódio no auge da guerra e outro no início da construção do muro poderiam elaborar perspectivas complexas de alemães. Certamente, não é o tipo de jogo que tem DLC, mas eu adoraria retornar ao apartamento. Fica a dica, btf.
Para acompanhar a imersão, o jogo é completamente dublado em alemão, tendo também opção de vozes em inglês e legendas em português brasileiro.
Vejo apenas dois pontos levemente negativos. Primeiro, as animações de personagens são um tanto rígidas e, como há tão poucos deles, penso que poderiam ser melhor trabalhadas, especialmente Malik. Segundo, algumas interações rasas de gameplay, como usar o analógico para Kolja dobrar aviões de papel, parecem estar ali apenas pela falta de ideias melhores, e se mostram ainda menos relevantes diante de outras mais interessantes e significativas.
“Onde as crianças de amanhã sonham”
O trabalho de Malik em reformar o apartamento e devolver a vida às suas paredes e ambientes se reflete em como os imigrantes constroem, trabalham e dão vida a Berlim e à própria Alemanha, contribuindo para ressignificar os escombros das catástrofes históricas que assolaram a cidade e as pessoas comuns que nela viveram.
Há em The Berlin Apartment um otimismo esperançoso que não ignora os vestígios por trás das paredes, mas os mostram pelos olhos dos inocentes e românticos, aqueles capazes de enxergar um futuro vivo, melhor. E, assim, talvez escapar da armadilha de repetir erros do passado. Como obra artística, este jogo resiste às sombras que insistem em se estender sobre os novos tempos para arrastá-los de volta às ruínas da neurose nacionalista e da separação, como um novo muro que se ergue na alma das nações.
“As lembranças distantes [não] estão enterradas para sempre no passado”
Com uma breve narrativa interativa, as quatro horas de duração de The Berlin Apartment mostram de forma envolvente um século de transformações da cidade que lhe dá nome. A viagem no tempo por Berlim é vista pelas janelas de um apartamento e refletida nas vidas das pessoas que o habitaram. Há muitos detalhes para contemplar e algumas mecânicas de interação criativas que enriquecem suas histórias, embora outras deixem a desejar por sua superficialidade.
Prós
- Uma narrativa interativa com pequenas mecânicas de gameplay que combinam com os diferentes momentos sem cair na repetição;
- A estrutura de cinco momentos ao longo de um século dá profundidade ao pequeno cenário, fazendo-o parecer maior do que realmente é;
- Os detalhes realmente dão vida ao ambiente e aos personagens;
- Textos em português brasileiro.
Contras
- Algumas mecânicas de interação são rasas e pouco criativas;
- A breve campanha de quatro horas deixa a vontade por mais histórias para aprofundar o contexto ainda mais;
- Os personagens carecem de animações melhores.
The Berlin Apartment — PC/PS5/XSX — Nota: 8.0Versão utilizada para análise: PS5
Revisão: Thomaz Farias
Análise produzida com cópia digital cedida pela btf














