Mortal Kombat surgiu como um jogo de luta ambicioso em 1992, criado pelo quarteto composto por Ed Boon, John Tobias, John Vogel e Dan Forden. O que eles não imaginavam é que, mais de 30 anos depois, a sua criação daria vida a um fenômeno que ultrapassaria a bolha dos games e chegaria a diversas outras mídias e camadas culturais, como linha de brinquedos, quadrinhos, animações e até filmes para o cinema.
Mortal Kombat Legacy Kollection vem para celebrar esse caminho de sucesso e relembrar as origens da franquia, apresentando os títulos que iniciaram essa trajetória, bem como os bastidores de seus respectivos desenvolvimentos.
Teste sua nostalgia!
Para quem nunca teve a chance de experimentar os MK clássicos, temos à disposição nesta coletânea 23 títulos, sendo alguns mais de uma versão de um mesmo jogo. São os seguintes:
- Mortal Kombat: Arcade, Mega Drive/Genesis, SNES, Game Boy e Game Gear;
- Mortal Kombat II: Arcade, Mega Drive/Genesis, 32X, SNES e Game Boy;
- Mortal Kombat 3: Arcade, Mega Drive/Genesis e SNES;
- Ultimate Mortal Kombat 3: Arcade, WaveNet e SNES;
- Mortal Kombat Trilogy: PlayStation;
- Mortal Kombat Mythologies: Sub-Zero: PlayStation;
- Mortal Kombat 4: Arcade;
- Mortal Kombat: Special Forces: PlayStation;
- Mortal Kombat Advance: Game Boy Advance;
- Mortal Kombat: Deadly Alliance: Game Boy Advance;
- Mortal Kombat: Tournament Edition: Game Boy Advance.
Essa lista traz um recorte interessante sobre os pilares fundamentais dos cinco primeiros jogos da série — contando Mortal Kombat 3 e Ultimate Mortal Kombat 3 como títulos distintos e não apenas um sendo uma variante mais encorpada do outro —, bem como a diferença que suas versões apresentavam na década de noventa, em meio à disputa fervorosa entre Sega e Nintendo.
Particularmente, fiquei feliz com algumas inclusões, como a versão de 32X do Mortal Kombat II, que na época só eu havia jogado, além do obscuro Ultimate Mortal Kombat 3 WaveNet. Trata-se de uma versão que foi projetada para realizar partidas em fliperamas conectados em uma rede de alta velocidade, mas apesar de ter dado as caras em alguns testes regionais, nunca houve um lançamento oficial, o que faz dessa a sua primeira aparição mundial legítima.
Entretanto, há alguns outros títulos que poderiam ser incluídos em Legacy Kollection. As versões portáteis não têm o mesmo apelo que as demais, então poderiam dar lugar, por exemplo, às variantes de PlayStation e Nintendo 64 de Mortal Kombat 4, que na época até aumentaram a latente discussão da diferença de potencial entre os dois consoles.
Outro que cito é Mortal Kombat Gold, lançado para DreamCast como uma versão melhorada de Mortal Kombat 4, contendo novos personagens e cenários. Entendo que a ideia foi focar no limite até os 16-bit, e ainda tivemos pela primeira vez a emulação de títulos de PlayStation em coletâneas do gênero, abrindo uma margem para os de 32-bit, mas pelo contexto histórico, MK Gold acabou fazendo bastante falta.
Pakote kaprichado, mas longe de ser perfeito
Tudo o que estamos acostumados a ver nas coletâneas produzidas pela Digital Eclipse está aqui, o que é sempre ótimo. Contamos com filtros de tela que simula televisores antigos e cabines de fliperama, ou apenas podem ser ajustados para a disposição widescreen dos atuais televisores. O recurso de rebobinar também foi incluído em Legacy Kollection, para quem quer evitar tomar uma surra muito forte.
A coletânea conta com alguns recursos bastante únicos da franquia Mortal Kombat. Podemos deixar à vista na lateral da tela a lista de golpes de cada lutador, com direito a indicativos até para Fatalities, Babalities e Friendships. E se você é o tipo de jogador que não é tão ágil para executar os comandos, é possível tirar o limite de tempo para fazê-los. Ainda está difícil? Então é só ligar a opção de realizá-los com apenas um botão e ver o corpo do seu oponente explodir em milhares de ossos.
Além disso, é possível ativar os menus de trapaças de todos os jogos, quando presentes. Isso possibilita algumas outras artimanhas diabólicas, como derrotar os oponentes com apenas um golpe ou até vida infinita. Esse tipo de coisa tem um apelo muito maior para os jogadores mais velhos, que só descobriam todas essas coisas em revistas publicadas quinzenalmente ou mensalmente — sim, eu era um deles.
O meu particular favorito está na versão de Mega Drive de Mortal Kombat II, no qual podemos realizar um “Fergality”. Trata-se de uma finalização especial que só pode ser executada por Raiden no estágio The Armory, após ativar uma opção especial no menu de cheats. O Deus do Trovão acaba transformando seu adversário em uma versão caricata de Fergus McGovern, que trabalhou no port do jogo para o console da Sega.
Entretanto, Legacy Kollection trouxe um dos defeitos mais abomináveis para quem gosta de jogos de luta: input lag. Para quem não está familiarizado com o termo, trata-se do tempo que o jogo demora para assimilar os comandos que realizamos no controle. No período que fiquei com o jogo para análise, até o menu apresentava atraso de resposta e isso piorava ao tentar disputar algumas partidas com a CPU em todos os jogos, sem exceção. Antes da publicação deste texto, houve um patch de correção que minimizou o problema.
Só que ainda existem dois jogos específicos que já apresentavam uma movimentação horrorosa desde seu primeiro lançamento e esse defeito persiste nos ports atuais: Mythologies Sub-Zero e Special Forces. OK, eles tentam usar uma abordagem diferente dos demais, mas ainda assim, eles envelheceram mal para os padrões atuais, e se juntar isso com o input lag, eles se tornam bem menos atraentes até que os títulos portáteis.
Para finalizar, as lutas online, que deveriam ser um dos principais atrativos de Legacy Kollection, também estão em um ponto sofrível. Não há um sistema de lobby ou de convite direto a um amigo. Então o que resta é escolher um dos títulos disponíveis para disputas em rede e esperar alguém aparecer. Só que o pareamento é bastante falho. Não obtive uma resposta se o problema era minha região, mas em todo período que estive com o jogo para análise só consegui disputar uma partida, de Mortal Kombat 4, após impressionantes 15 minutos de procura por um oponente, e ela também apresentou diversas falhas.
Além do já citado problema com input delay, a parte sonora também sofre atrasos. É uma bagunça sem tamanho, que parece que nem o sempre celebrado rollback netcode consegue resolver. Acredito que logo haverá mais algum tipo de correção para isso — a própria Digital Eclipse já afirmou que trabalhará na introdução de salas no futuro —, mas até lá, infelizmente o online é algo a ser evitado.
Kontos da Kripta
O que realmente pende a balança para o lado positivo em Mortal Kombat Legacy Kollection está em todo o trabalho documental que foi trazido. Cinco linhas do tempo interativas trazem imagens, pôsteres, rascunhos, material gravado com os atores que deram vida a Liu Kang e companhia nos anos 1990 e novos depoimentos de Ed Boon, John Tobias, John Vogel e Dan Forden sobre o que eles imaginavam naquela época e como eles veem Mortal Kombat atualmente.
Para quem é fã da franquia, vale gastar algumas horas vendo as dezenas de entrevistas da equipe original de criação, que faz questão de explicar cada conceito, desde como eles queriam que cada lutador se movimentasse até nomes descartados e animações cortadas por limitações técnicas da época.
Depois de tudo isso, há também uma exibição virtual de cada modelo existente para os lutadores em suas participações em Mortal Kombat, Mortal Kombat II, Mortal Kombat 3, Ultimate Mortal Kombat 3, Mortal Kombat Trilogy e Mortal Kombat 4, com direito a uma breve linha do tempo sobre sua narrativa pessoal. A galeria também traz imagens em alta definição e desenhos de divulgação para cada um dos títulos, incluindo a famosa pose do Quan Chi na lateral dos fliperamas de Mortal Kombat 4, que até chegou a virar meme depois de um tempo. Existe também um reprodutor de música, no qual podemos ouvir todas as faixas de todos os 23 jogos da coletânea, e ainda criar uma playlist com as nossas favoritas.
Por fim, finalmente contamos com legendas em português, então dá para curtir cada pedacinho de informação no nosso idioma, o que torna tudo bem mais inclusivo para diferentes idades e públicos.
Um longo e vitorioso kaminho
A seleção de títulos e a parte documental de Mortal Kombat Legacy Kollection realmente fazem um excelente trabalho em mostrar porque arrancar cabeças e arremessar oponentes em piscinas com ácido é tão divertido há 30 anos, mesmo com algumas ausências na lista.
Porém, ainda há muitas questões a serem corrigidas, principalmente no desempenho online, que deveria ser a principal atração da coletânea. A ideia de jogar esses clássicos em rede sem emulações mirabolantes sempre vai chamar atenção e não ter isso funcionando realmente é algo que acaba pesando contra.
Prós
- 23 títulos para conhecer a origem 2D de Mortal Kombat, incluindo o nunca antes lançado Ultimate Mortal Kombat 3 WaveNet;
- A parte documental é simplesmente sensacional, com entrevistas, animações excluídas e artes conceituais;
- Galeria com imagens em alta definição que estávamos acostumados a ver apenas em revistas na época e um reprodutor de música que nos permite montar uma playlist pessoal;
- Diversos recursos extras para cada jogo, como menu de trapaças, fatalities com um botão e filtros de tela;
- Legendas em português.
Contras
- Input lag que afetou praticamente todos os jogos, tanto offline quanto online;
- Matchmaking terrível, com longa espera para achar um oponente, e falhas sonoras durante lutas em rede;
- Mortal Kombat Mythologies: Subzero e Mortal Kombat: Special Forces envelheceram muito mal ao ponto de serem desinteressantes atualmente;
- Ausência de alguns títulos importantes, como Mortal Kombat Gold.
Mortal Kombat Legacy Kollection — PC/PS4/PS5/Switch/Switch 2/XSX — 7.0Versão utilizada para análise: PS5
Revisão: Vitor Tibério
Análise feita com cópia digital cedida pela Atari













