Análise: 1000xRESIST é um choque narrativo muito além do esperado

Com uma história densa e cheia de mistério, este é um jogo que se destaca, mesmo sendo tecnicamente simples.

em 14/11/2025

Desenvolvido pelo estúdio sunset visitor e distribuído pela Fellow Traveller, 1000xRESIST é uma obra de ficção científica com foco narrativo que nos leva a um futuro distante, onde a humanidade vive no subsolo após uma doença espalhada por alienígenas dizimar quase toda a população. Controlamos a Observadora, um clone que serve à Grande Mãe, até que uma verdade perturbadora coloca sua fé e lealdade em xeque.

Essa premissa, assim como o próprio título, se destaca. Mesmo apresentando alguns problemas pontuais, é fácil perceber que este é um jogo especial, e aqui quero contar o porquê.

Texto livre de spoilers.

Cabelo a cabelo

O jogo começa com uma cena poderosa: a Observadora junto da Grande Mãe. Mas logo voltamos ao passado e somos apresentados a algumas das irmãs, entre elas, a Conhecedora e a Zeladora. Não demora muito até estarmos explorando uma memória em uma grande escola onde a Grande Mãe estudava na adolescência. Precisamos conversar com algumas pessoas vestindo uniformes militares futuristas, até chegarmos ao ginásio. Lá, aprendemos a habilidade de regredir no tempo da memória. A partir daí, podemos interagir com os estudantes e descobrimos que o verdadeiro nome da Grande Mãe é Iris.


Essa introdução é intrigante, mas se eu fosse apontar um ponto negativo, seria o ritmo. Ela é longa, fácil de se perder pelo cenário e, mesmo com a narrativa empurrando o jogador adiante, é compreensível que essa parte inicial soe como um pequeno obstáculo. Principalmente porque o gameplay é bastante simples. Mas as ressalvas param por aqui, pois, depois desse começo, a narrativa engrena e o jogo começa a construir e resolver seus mistérios de forma muito orgânica.

Um dos temas mais fascinantes é o dos clones. A ideia de uma humanidade futura composta apenas por clones sem nomes, definidos apenas por suas funções, é incrível e a execução aqui é maravilhosa. Conhecemos várias das chamadas “irmãs” ao longo da jornada, sendo as principais a Observadora, Zeladora, Cuidadora, Conhecedora, Big Bang Fogo e a Diretora. Mesmo sendo clones, cada uma tem sua própria personalidade, voz e até uma cor distinta. Além delas, existem as Conchas, clones em treinamento para suas funções, que possuem pensamentos, mas nenhuma voz.


No geral, a narrativa de 1000xRESIST é extremamente interessante. Mesmo que muitos detalhes científicos não sejam explicados, é nas interações humanas que o jogo brilha. Ele fala sobre lealdade cega, inconsequência, amor e ódio, sentimentos e temas presentes em todos os momentos, retratados com cuidado e respeito. Você provavelmente vai odiar a Iris adolescente e amar Jiao, uma estrangeira que sofre preconceito por sua origem. A amizade entre as duas é um dos pilares emocionais da trama, assim como o amor e os laços entre as irmãs.

A narrativa me acompanhou até o fim, me fez experimentar diferentes finais e, quando tudo terminou, eu ainda pensava na experiência. Lembrei dos momentos em que perdi o fôlego, ri de uma piada boba ou fiquei em choque com uma revelação. Não dá para negar a personalidade forte desse jogo e o impacto que ele causa, mesmo que sua jogabilidade simples possa afastar alguns jogadores.


Toc, Toc

Para acomodar a experiência, a jogabilidade foi pensada de forma bastante simples. Podemos explorar os mapas, revisitar memórias e, principalmente, conversar e interagir com os personagens, o verdadeiro pilar do jogo. São essas conversas que desenvolvem cada um deles, revelando não apenas opiniões, mas também informações importantes sobre o mundo e sua cultura. É gratificante descobrir o significado da expressão “Cabelo a cabelo” em um diálogo, ou entender como funciona o processo de clonagem e seus rituais culturais para definir as cores de cada irmã. Tudo isso é opcional, mas é fácil se ver explorando cada canto dos mapas para não perder nenhum detalhe.

O jogo também brinca bastante com a visão do jogador, alternando entre diferentes perspectivas: câmera sobre o ombro, ângulos mais afastados, visão em primeira pessoa e até manipulações criativas da HUD. Em certos momentos, os objetivos aparecem de forma que parecem refletir os sentidos da cena, o que cria uma experiência visualmente variada e surpreendentemente imersiva. Se há algo a reclamar, seria da câmera em primeira pessoa, a movimentação é um pouco travada em ambientes mais amplos, mas, como essas seções não duram muito, o incômodo é facilmente perdoável.


Nas memórias, há ainda uma mecânica de teleporte entre pontos: o tempo desacelera e precisamos localizar o próximo ponto de salto. Essa mecânica é simples, mas funcional, e em alguns momentos traz uma sensação de urgência bem interessante.

No geral, a jogabilidade é simples, quase lembrando uma visual novel, já que o foco está claramente na narrativa. Mas o jogo sabe brincar com as expectativas do jogador, e cada grande evento ganha uma camada extra justamente por causa dessa “simplicidade”.



Você não pode cantar isso hoje

Se a jogabilidade é simples, os gráficos também seguem essa linha. Os modelos de personagens são básicos, as animações, por vezes, limitadas e em algumas cenas, são usados modelos estáticos. Ainda assim, essa simplicidade rapidamente se desfaz quando o jogo mostra seus momentos mais artísticos: criaturas gigantes, pessoas flutuando, cidades submersas… tudo é surreal, belo e, às vezes, até aterrorizante. Uma crítica, porém, vai para a falta de expressões faciais em certas cenas, algo que se torna perceptível, especialmente quando a câmera foca no rosto da personagem.

Outro ponto de destaque é o trabalho sonoro. As trilhas não são muitas, mas todas são excelentes. Em especial, a música original cantada pela Zeladora em determinado momento, mesmo sem melodia, sua letra é profundamente poderosa. A dublagem também merece elogios: como todas as personagens são clones, houve o cuidado de dar a cada uma uma voz distinta, mas ainda sutilmente semelhante, o bastante para transmitir a individualidade de cada irmã sem perder a sensação de unidade. Um trabalho excepcional.



Vale a pena?

Eu recomendo facilmente que experimentem este jogo, especialmente se você gosta de títulos com foco narrativo, como Life is Strange. Mesmo que existam alguns pontos que possam atrapalhar a experiência, eles são mínimos perto dos acertos. 1000xRESIST merece ser vivenciado pelo maior número de pessoas possível, ainda mais por contar com uma localização em português de excelente qualidade.

É um jogo lindo, tocante e que se tornou uma experiência muito especial para mim, então, podem dar uma chance sem medo.

Hekki.




Prós

  • A narrativa é incrivelmente interessante;
  • A parte artística é surreal e muito bem feita;
  • As músicas são muito boas;
  • As informações que conseguimos de forma opcional é interessante e agrega muito;
  • As legendas em portugues são muito bem feitas;
  • Os eventos do jogo são tocantes, tendo efeito na música e até na jogabilidade.

Contras

  • A introdução do jogo é longa e confusa;
  • Algumas cenas exigiam expressões faciais, mas o jogo entrega nenhuma;
  • A jogabilidade em primeira pessoa é muito travada em ambientes mais abertos.
1000xRESIST — PS5/XSX/PC/SWITCH — Nota: 9.0
 Versão usada para análise: PC
Revisão: Johnnie Brian
Análise produzida com cópia digital cedida pela Fellow Traveller
OpenCritic
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Matheus Bigai Ferreira
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