Baroque: uma jornada sombria e enigmática por um mundo devastado

Lançado no final dos anos 90, o curioso roguelike da Sting só chegou ao Ocidente em 2008 por meio de um remake.

em 24/08/2025
Desenvolvido pela Sting e lançado originalmente em 1998 para o Sega Saturn, Baroque é um roguelike bastante peculiar. Pouco tempo depois do lançamento inicial, o título foi portado para o PlayStation, mas ambas as versões permaneceram restritas ao território japonês.

Felizmente, em 2008, o jogo recebeu um remake para PlayStation 2 e Nintendo Wii, que finalmente chegou ao Ocidente, preservando grande parte de sua essência sombria e enigmática, porém com uma jogabilidade mais acessível. Neste texto, usaremos como base a edição para o console da Sony.

Um mundo devastado e um herói sem memórias

A história de Baroque se passa em um mundo aparentemente pós-apocalíptico, marcado por uma catástrofe conhecida como The Blaze. Em meio a uma vila em ruínas, habitada por humanoides estranhos e figuras de aparência pouco amistosa, assumimos o papel de um jovem sem memórias.

Logo no início da aventura, um ser de aspecto angelical aparece e nos dá uma missão: alcançar as profundezas da Neuro Tower, uma imensa estrutura que se ergue à frente do vilarejo. Segundo ele, a situação atual do planeta é consequência de um pecado cometido pelo protagonista, e apenas o rapaz amnésico possui a capacidade de reparar os danos e purificar o mundo.

É difícil falar sobre a narrativa de Baroque sem revelar spoilers, já que ela não é apresentada de forma muito tradicional. Em vez disso, o enredo é fragmentado e se revela gradualmente à medida que conectamos as pistas espalhadas pelo jogo. Essas informações surgem principalmente através de diálogos confusos com NPCs e pequenas cutscenes, que, embora pareçam desconexas no início, passam a fazer sentido conforme o jogador as relaciona.

Um aspecto interessante é que cada detalhe visual do título possui um motivo para estar ali. Para exemplificar, muitos dos personagens de aparência distorcida refletem o passado que carregam, com suas falas misteriosas ajudando a compor esse quadro. Em razão disso, há uma sensação genuína de recompensa quando começamos a juntar as peças e entender o que realmente está acontecendo.

Ainda nesse sentido, os próprios elementos de roguelike contribuem para a progressão narrativa de Baroque. Como a maior parte da campanha se passa dentro da Neuro Tower, somos obrigados a visitá-la diversas vezes, sendo que, a cada descida, descobrimos novas nuances deste universo. Assim, morrer e tentar novamente não é apenas uma mecânica de jogabilidade, mas uma forma de o jogo revelar sua história de maneira gradual e até envolvente.


Explorando andares aleatórios de uma torre

Essencialmente, Baroque possui a estrutura de um roguelike dungeon crawler. Como mencionado, toda a aventura acontece dentro da Neuro Tower, cujo layout muda de forma procedural a cada nova incursão. Isso significa que não exploramos o mesmo mapa duas vezes, o que garante variedade e exige constante adaptação por parte do jogador.

Além das criaturas hostis, também precisamos lidar com armadilhas espalhadas pelos cenários, como plataformas que disparam fogo ou veneno. Outro elemento que exige atenção constante é a fome do protagonista, que aumenta gradualmente independentemente de nossas ações e pode ser saciada com alimentos obtidos durante a exploração.

Como em outros jogos do gênero, morrer significa perder todos os níveis, equipamentos e itens obtidos, além de ser forçado a recomeçar a dungeon desde o início. Naturalmente, a sorte exerce um papel importante em cada tentativa, já que itens e equipamentos valiosos podem ou não surgir logo nos primeiros andares.

Por se passar em um único ambiente, os andares da torre não apresentam uma grande variedade visual entre si. No entanto, como o título não é excessivamente longo e conta com uma boa diversidade de inimigos, que se renova praticamente a cada novo piso, Baroque consegue manter a exploração interessante e envolvente ao longo de toda a campanha.

Combate simples e grande foco no uso de itens

O combate no remake de Baroque acontece em tempo real e em terceira pessoa, contrastando com a versão original do Sega Saturn e PlayStation, que adotava uma perspectiva em primeira pessoa. Nessa edição, é possível empunhar diferentes tipos de espadas e equipar roupas e acessórios (muitas vezes representados por pequenas asas), além de utilizar uma ampla variedade de itens com efeitos distintos.

Por ter inspirações na série Mystery Dungeon, o sistema de batalha é propositalmente simples, consistindo basicamente em se movimentar e atacar. Aqui, o que realmente importa é saber administrar bem os recursos e entender quando enfrentar ou evitar inimigos. Embora encarar uma criatura possa aumentar o risco de fracasso, derrotá-la nos concede uma espécie de essência vital que ajuda a restaurar a fome do protagonista, além dos tradicionais pontos de experiência.

O uso de itens é essencial para ter sucesso em Baroque, e a variedade disponível é bastante ampla. Assim como acontece nos jogos que lhe servem de inspiração, muitos desses objetos causam impactos misteriosos, cabendo ao jogador experimentá-los para descobrir suas funções.

Esses efeitos podem ser positivos, como regenerar a saúde ou fortalecer equipamentos; ou nocivos, como provocar explosões que resultam na morte do protagonista ou atrair todos os inimigos do andar para nossa posição atual. Além disso, os itens podem ser arremessados contra inimigos, ou até mesmo em NPCs, para gerar diferentes resultados, tais como desbloquear diálogos únicos ou conquistar algum tipo de vantagem.

Graças a essa abordagem, Baroque proporciona uma sensação constante de experimentação e aprendizado, no qual cada incursão nos deixa mais preparados para enfrentar os desafios e decidir com mais segurança o que usar ou evitar. Embora a sorte ainda influencie diversos acontecimentos, a experiência adquirida torna o jogador cada vez mais apto a lidar com ela.

Um remake menos sombrio, embora mais acessível

Como mencionado, Baroque iniciou sua trajetória no Sega Saturn, chegando logo depois ao PlayStation. Nessas versões originais, o jogo adotava uma câmera em primeira pessoa que combinava perfeitamente com os ambientes sombrios e criaturas macabras, criando uma experiência tensa e, muitas vezes, amedrontadora. 

Nos remakes para Nintendo Wii e PlayStation 2, parte dessa inquietação acabou se perdendo. Embora as criaturas continuem estranhas, o visual geral do game recebeu um tratamento mais acessível, com cores e iluminação menos opressivas, tornando o ambiente menos ameaçador e mais convidativo.

Apesar dessa suavização do clima, de forma geral, a nova versão de Baroque se torna mais convidativa para um público mais amplo. Muito disso se deve ao fato de que a perspectiva em terceira pessoa oferece uma visibilidade maior sobre o cenário e facilita o controle durante os combates, permitindo identificar criaturas que surgem pelas nossas costas — algo que se torna cada vez mais comum com monstros que se teletransportam em andares superiores.

É importante mencionar que o remake de Baroque também recebeu uma versão para Nintendo Switch, lançada exclusivamente no Japão. Além disso, o universo do jogo foi expandido de diversas formas ao longo dos anos, incluindo prequelas narrativas publicadas em uma revista voltada ao Sega Saturn, uma visual novel lançada para o PlayStation, um FPS para dispositivos móveis e um mangá.

Uma experiência memorável

Com uma história curiosa, que revela suas nuances de forma gradual, e uma jogabilidade em que o risco e a recompensa, característicos de roguelikes, são aplicados de maneira extremamente competente, Baroque se apresenta como um título envolvente. Embora o clima sombrio tenha sido suavizado no remake, esta versão consegue preservar o charme peculiar de seu universo e oferece uma experiência verdadeiramente memorável.

Revisão: Alessandra Ribeiro
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Lucas Oliveira
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