Blast from the Trash

Sniper Ghost Warrior 3 (Multi): uma saga de boas ideias e péssimas execuções

Na tentativa de criar um bom jogo, o sniper atira para todos os lados, mas não acerta em nenhum alvo.


No mundo dos videogames, experiências genéricas são cada vez mais comuns. Jogos que não se preocupam em criar nada inovador, mas que conseguem ser divertidos por replicarem fórmulas já estabelecidas na indústria. Porém, às vezes copiar o que já é bom pode não ser o suficiente, e Sniper Ghost Warrior 3, lançado para Xbox One, PlayStation 4 e PC, é a prova que nem sempre apostar no seguro é sinônimo de um bom jogo.


Em junho de 2008 estava chegando ao mercado uma nova franquia de jogos de tiro em primeira pessoa. Desenvolvido pela CI Games, Sniper: Ghost Warrior nasceu com a difícil tarefa de competir com o colosso do tiro tático, Sniper Elite. Mas infelizmente o tiro acabou saindo pela culatra.

Várias tentativas, poucos acertos

Mesmo tendo uma boa proposta, era nítido que ele era um jogo feito às pressas e sem muito investimento, o que resultou em notas extremamente baixas tanto de crítica, quanto de público. Ghost Warrior acabou ficando conhecido apenas como um jogo que vivia à sombra do seu verdadeiro potencial, um material com ótimas ideias que estava nas mãos erradas.


Mas a CI Games não se deu por vencida e em 2013 surpreendeu a todos lançando Sniper: Ghost Warrior 2. O jogo conseguiu resolver vários problemas do seu antecessor, mas ainda não conseguiu cair nas graças do público, sendo também massacrado pela crítica especializada e taxado como nada mais do que um jogo medíocre.

Com dois grandes fracassos na conta, era de se esperar que a série fosse colocada na geladeira por tempo indeterminado, mas em 2017 a franquia teria uma terceira chance de se provar e conseguir sua redenção.

Entre 2008 e 2017 vários FPS que deram um frescor ao gênero foram lançados, como Far Cry 3, Titanfall, Ghost Recon e Doom. Todos esses jogos têm uma coisa em comum, cada um deles tem aspectos que os torna únicos, Ghost Warrior 3 tenta desesperadamente pegar esses aspectos de sucesso para tentar fazer algo interessante, mas esquece de criar algo que o diferencie dos demais e acaba caindo no mesmo erro dos seus antecessores: a mediocridade.

O frescor que a franquia precisava

A CI Games sabia que não poderia lançar mais um jogo nos mesmos moldes dos dois primeiros. Para tentar salvar a franquia e competir com o que já estava no mercado, eles precisavam ser mais ambiciosos e essa ambição veio no formato de um mundo aberto.



Assim como Far Cry, o jogador pode criar sua própria aventura aproveitando toda a liberdade que lhe é oferecida, sem dúvidas a ideia de colocar um sniper em um mundo aberto é ótima e foi muito bem aplicada. Toda a sensação de liberdade de criar sua própria estratégia para lidar com as mais diferentes situações é muito satisfatória.

Para criar essas estratégias o jogador irá dispor de vários apetrechos como drones, visão térmica, dispositivos de distração, granadas, além de poder hackear câmeras de segurança e ter diferentes tipos de munição para as mais diversas situações.

Apesar de contar com um vasto arsenal de pistolas, escopetas, metralhadoras e arcos, é nos rifles de precisão que o jogo brilha, sendo quase um simulador de tiro e levando aspectos como distância, posicionamento e direção do vento em conta. Atirar em Ghost Warrior 3 não é uma tarefa trivial como na maioria dos jogos, fazendo com que o jogador analise bem o cenário e só ataque no momento oportuno. Um tiro errado pode significar o fracasso da missão.

E falando em liberdade: além da história principal, o jogador pode durante a aventura fazer várias missões secundárias, como caçar, invadir bases repletas de inimigos e descobrir tesouros secretos que desbloqueiam novas armas. Todas essas ideias são interessantes na teoria, mas na prática poucas funcionam.

A ambição teve seu preço

A adição do mundo aberto e uma abordagem menos linear fez muito bem a Ghost Warrior 3, mas infelizmente o orçamento não acompanhou a ambição dos desenvolvedores, e tentar criar um jogo grandioso com poucos recursos é uma tarefa difícil.


Infelizmente o jogo conta com diversos problemas técnicos que ofuscam suas boas ideias, com infinitos bugs, crashes, saves corrompidos e carregamentos que podem levar até 15 minutos nos consoles. Já nos PCs ele é extremamente mal otimizado e pode ter dificuldades para rodar mesmo em máquinas mais potentes.

A parte técnica realmente não é o ponto forte de Ghost Warrior 3 e pode afastar alguns jogadores, mas caso você sobreviva a isso ainda terá que lidar com uma série de decisões questionáveis, como ter apenas uma música tocando nas rádios ou nas infinitas e demoradas telas de carregamento que vai te dar pesadelos de tanto ouvi-la.

O mapa também adota algumas decisões duvidosas. A mais estranha delas é ser dividido em três grandes áreas, dando a impressão de ser maior do que realmente é e fazendo o jogador enfrentar telas de carregamento desnecessárias toda vez que quiser mudar de área.

Uma história digna de sessão da tarde

Existem vários jogos que são desastres tecnológicos, mas que conseguem cair nas graças dos jogadores por suas histórias cativantes. Fallout: New Vegas, Skyrim e Deadly Premonition são ótimos exemplos disso. Entretanto, essa não é uma preocupação em Ghost Warrior 3, que aposta em uma trama tão clichê, simples e mal escrita que se não existisse nem faria falta.


Na história controlamos Jonathan North (codinome: Lodestar), um veterano de guerra e exímio sniper que precisa impedir uma iminente guerra civil na República da Geórgia enquanto procura pistas sobre seu irmão mais novo que já está desaparecido há dois anos.

Durante a história, Jonathan precisará andar numa linha tênue entre o objetivo da sua missão e seus interesses pessoais. O que é mais importante, impedir um país de entrar em guerra ou encontrar a sua única família?

Mas não crie expectativas achando que suas decisões serão levadas em conta ou que o jogo terá vários finais. A história é linear e relativamente curta se você não estiver buscando o 100%, podendo ser finalizada em pouco mais de dez horas.

Encontrou sua identidade, mas não nesse jogo


A franquia Sniper Ghost Warrior é um exemplo de perseverança. Uma série que começou da pior forma e aos poucos foi encontrando seu lugar no mundo. Felizmente, hoje em dia a franquia colhe os frutos dos seus esforços com a subsérie Contracts e finalmente sendo um forte concorrente nos jogos de tiro tático, gênero no qual ela deixa de lado toda a ambição de criar um mundo grandioso para focar no ponto que realmente importa: criar um parque de diversões para um sniper.

Contracts aproveita bastante da filosofia dos novos jogos da série Hitman, nos quais é possível passar das fases de mil maneiras diferentes e brincar com os limites do jogo, funcionando também como um soft reboot da franquia e fazendo Ghost Warrior ser pela primeira vez o que nunca conseguiu, um bom jogo.

Revisão: Vitor Tibério


Um “arqueólogo de games” que adora falar das gemas ocultas do mundo dos jogos, tem o PS3 como console favorito e ama um bom hack and slash. Mesmo apreciando os jogos modernos, não dispensa uma boa velharia obscura do tempo que videogame era movido à lenha. Segue o pai.
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