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Análise: Ninja Issen (PC/Switch): o frenesi shinobi num jogo que falta polimento

Apesar de competente, problemas técnicos atrapalham este título desenvolvido por uma pessoa só.

A temática de ninjas sempre despertou meu interesse nos videogames. Muitos dos jogos de ação que mais aprecio envolvem esse tema, como Shinobi III (Mega Drive) e Sekiro (Multi). Muitos desses títulos proporcionam uma dinâmica frenética, que, quando não se trata de uma dança com espadas e kunais, oferece a possibilidade de aniquilar inimigos com um único golpe.


Ninja Issen, desenvolvido por Asteroid-J, traz uma jogabilidade focada na ação frenética. Situado em um futuro cyberpunk, temos um jogo com boas ideias, mas que sofre de desleixos técnicos.

Um dançarino das sombras do passado

Ninja Issen narra a história de Kiba, um shinobi tradicional acusado de assassinar seu mestre. Flagrado no suposto ato, ele foge do dojo, sendo atacado por todos ao seu redor e, no meio da confusão, acaba sendo transportado para o futuro, um ambiente urbano e tecnológico. 

Gravemente ferido, Kiba é encontrado por Hanzo, um mecânico que, ao perceber a situação do ninja, criou próteses robóticas para ele. Sem memórias, o protagonista tem a missão não apenas de entender o que aconteceu há pelo menos uma centena de anos, como também de descobrir sobre o misterioso Pergaminho das Dimensões, que pode explicar o motivo de sua chegada — e que, claro, caiu em mãos erradas.

Embora a narrativa seja claramente clichê, sua construção é interessante dadas as limitações. Além de caixas de diálogo que apresentam diversas referências sobre ninjas na cultura pop em textos bem-humorados, a transição entre fases é enriquecida por imagens visualmente atrativas, dispostas em formato de quadrinhos. A história, embora nada excepcional, funciona bem como pano de fundo para a ação.

A vingança de Kiba se desenrola em um jogo de plataforma de ação 2D tradicional. O protagonista conta com pulos duplos, ágeis habilidades com uma espada e projéteis, um teleporte para atravessar barreiras danosas, além de habilidades ninja como um avanço rápido que corta todos pelo caminho e um campo magnético que paralisa ameaças ao redor. Estas habilidades requerem Special Points (SP) para serem utilizadas, demandando atenção para evitar ficar sem recursos em momentos cruciais.

Adicionalmente, o jogo oferece artes ninjas mais agressivas que não consomem SP, como uma barreira de fogo e a possibilidade de ficar invulnerável, porém, exigem um tempo de recarga após o uso. Todos esses especiais, assim como a barra de vida e SP, podem ser aprimorados em troca da energia coletada durante a jogatina.

As fases são projetadas para testar essas habilidades ao máximo, apresentando desafios de plataforma e inimigos que constantemente tentam impedir o progresso. Devido à movimentação ágil do protagonista, o ritmo de gameplay exige atenção redobrada em todos os sentidos, o que pode ser um desafio devido ao principal problema de Ninja Issen: a falta de polimento.

Sombras morrem muitas vezes (de forma injusta)

Como um título que busca o desafio em seu design, Ninja Issen acaba sendo um tanto injustos em alguns trechos. Disparos inimigos fora do campo de visão de jogo e um excesso de informações ao mesmo tempo em momentos mais intensos são bem frequentes. Em algumas ocasiões, utilizar o teleporte ou o avanço rápido pode deixar o ninja travado, sendo necessário pressionar novamente o direcional para alguma direção logo após. 

Outro problema é a questão do pulo. Embora seja funcional em sessões de plataforma, a falta de controle sobre a altura dos saltos torna a esquiva de tiros multidirecionais uma tarefa difícil devido à ausência de precisão. Ser atingido no ar, em meio a um chão em movimento, e acabar caindo diretamente em um buraco sem muito controle sobre a situação é desanimador.

Ninja Issen implementa um sistema de classificação para incentivar o retorno aos capítulos, avaliando o desempenho do jogador em termos de tempo, quantidade de mortes (lembrando que não há sistema de vidas aqui) e combos, já que cada acerto em inimigos é contabilizado por um marcador. Em certas situações, o desempenho é avaliado separadamente, como em confrontos contra subchefes e desafios de eliminação de uma quantidade determinada de inimigos.

Contudo, um obstáculo significativo que prejudicou minhas tentativas de obter uma classificação decente refere-se aos chefes e subchefes. Contra inimigos comuns, o dano infligido por Kiba é suficiente, mas os adversários mais robustos são extremamente resistentes, e podem nos vencer no cansaço. Mesmo utilizando os jutsus especiais e contra-atacando com sucesso, o dano causado é lamentavelmente baixo.

Além dos problemas mencionados, a análise deste jogo deveria ter sido concluída há muito tempo, mas um contratempo a adiou. Ao cair em um buraco no início da campanha e usar acidentalmente uma habilidade ao mesmo tempo, o meu jogo entrou em um estado de softlock. Kiba ficou preso em um abismo infinito, os textos desapareceram e os diálogos travavam o jogo em novos salvamentos. Fui atrás de relatos de outros jogadores sobre o caso e é algo que realmente pode acontecer com qualquer um. Felizmente eu pude trocar de máquina nesse tempo, e não passei pelo bug na segunda jogada.

O caminho do ninja é desinteressante às vezes

À primeira vista, Ninja Issen apresenta elementos visuais interessantes, como silhuetas holográficas dançando e várias placas de propaganda futurista espalhadas pelo cenário. A interface visual também busca uma estética de ficção científica, com cada abate inimigo deixando um rastro até o contador de combos. No entanto, salvo uma ou outra fase, os ambientes visitados muitas vezes se limitam a estruturas metálicas repetitivas, com pouca identidade entre eles.

No geral, a direção de arte deixa a desejar, especialmente devido a elementos de cenário que não se harmonizam bem uns com os outros. Em alguns momentos, destaca-se negativamente a presença de fundos totalmente escuros ou cortes bruscos de texturas de parede.


Quanto à trilha sonora, são apresentados elementos de vaporwave e outros estilos de músicas eletrônicas. Embora a maioria das faixas não tenha sido particularmente marcante (e a música do capítulo final tenha me irritado ao ponto de desligar o áudio do jogo), isso não chega a ser um problema significativo. 

No entanto, o principal inconveniente reside na direção de som em cenas devido à ausência de efeitos sonoros nesses momentos. A falta de sons para eventos como explosões ou alertas deixa essas cenas estranhas, especialmente considerando que esse não é um problema que afeta as partes de gameplay.

Apesar das críticas ao longo deste texto, é possível reconhecer as boas intenções e o notável carinho do desenvolvedor em Ninja Issen. Considerando o trabalho solo, o jogo se mostra competente e oferece diversão em algumas partes. Contudo, é evidente que o título carece de mais tempo dedicado à fase de polimento, pois os bugs presentes realmente comprometem a experiência final.

Prós:

  • Sessões de plataforma divertidas devido à agilidade de Kiba;
  • Combate contra inimigos comuns é bem satisfatório;
  • Ambientação inicial interessante;
  • Artes de transição de fases belíssimas.

Contras:

  • Bugs que podem travar o jogo completamente;
  • Apresentação visual repetitiva;
  • Falta de precisão nos saltos é um problema contra inimigos a longa distância;
  • Cenas de história sem muito impacto pela ausência de efeitos sonoros.
Ninja Issen — PC/Switch — Nota: 6.0
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Vitor Tibério
  Análise produzida com cópia digital cedida pela CFK

Estudante de enfermagem de 23 anos, acompanha esse mundo dos joguinhos desde criança. Fã de jogos de luta, games mais arcade, arqueólogo de velharias e viuva póstuma da Sega, mas não abandona experiências mais atuais. Acompanha ferozmente a mídia de podcasts, dublagem e ouvinte assíduo de VGM. Pode ser encontrado como @AlecFull e semelhantes por aí.
Este texto não representa a opinião do GameBlast. Somos uma comunidade de gamers aberta às visões e experiências de cada autor. Escrevemos sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0 - você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original.


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